O desanuviamento está em marcha. O imperialismo também…

Francisco Martins Rodrigues

Com a redução unilateral das forças do pacto de Varsóvia, anunciada por Gorbatchov na Assembleia Geral da ONU em 7 de Dezembro, a imparável campanha soviética pelo desanuviamento ganhou novo impulso.

Milhões de pessoas em todo o mundo começam a convencer-se de que algo de realmente novo desponta nas relações internacionais. A popularidade de Gorbatchov não cessa de crescer. Subvertendo toda a lógica tradicional do equilíbrio do terror e da resposta taco-a-taco, ele forçou Reagan a concordar, faz agora um ano, com a destruição de uma série de mísseis de médio alcance estacionados na Europa. Daí para cá, tem vindo a descobrir-se que para todos os conflitos armados se pode encontrar uma solução, desde que os contendores se sentem à mesa das negociações com a mediação da ONU e a garantia das grandes potências: Afeganistão, Irão/Iraque, Camboja, Namíbia, Angola, Moçambique, Nicarágua, Palestina…

Entusiasmados pela onda de paz que parece percorrer o mundo, alguns antevêem já o início de um época nova em que, calados os canhões, mandadas para a sucata as armas nucleares, se possa encetar uma cooperação responsável entre as grandes potências para acabar com a fome no Terceiro Mundo, solucionar o problema energético, preservar o meio ambiente… Enfim, viver de acordo com a razão, a justiça e as possibilidades criadas pela técnica moderna.

GORBATCHOV NÃO É POETA

Falemos de coisas sérias. Gorbatchov pode parecer um poeta sonhador mas é um político bem rodado. Ele não tem ilusões sobre o apetite carniceiro dos seus adversários. Quando troca cumprimentos com Reagan e toma a bandeira da segurança como uma aspiração universal, “independente dos sistemas sociais ou de regimes políticos”, ele visa com esta imagem sugestiva criar uma corrente internacional anti-americana.

O projecto, já no seu tempo ensaiado por Kruchov, assenta no seguinte raciocínio: se se lançarem iniciativas de paz credíveis, audaciosas, que toquem o coração e a imaginação das massas, pode criar-se uma vaga de fundo que acabe por aprisionar os imperialistas empedernidos, os chefes de fila do complexo militar-industrial, na gaiola do novo espírito de cooperação mundial, tornando-lhes impossíveis ou muito difíceis novas aventuras militares. A política do sorriso para a América é uma táctica na luta contra a América. E como também tem sido dito, o ardor que os dirigentes soviéticos põem na campanha pelo desanuviamento não deriva de puro idealismo. Eles precisam desesperadamente dum compasso de espera para levar a cabo com o mínimo de riscos as tumultuosas metamorfoses em curso no seu sistema social. Estão além disso muito reticentes hoje em dia quanto ao apoio a regimes nacionalistas, que verificaram ser muito mais difíceis de influenciar do que anteriormente supunham.

É também certo que a espectacular destruição de velhos blindados e outras armas obsoletas serve de cobertura à febril inovação tecnológica em curso nos armamentos espaciais, para não perder a paridade com os EUA. Por último, é evidente que com a retórica sentimental sobre “o nosso lar comum europeu”, Gorbatchov visa criar um clima propício a uma maior aproximação» entre a RFA, a França e a URSS, separando mais a CEE dos Estados Unidos e preparando um futuro em que fosse desmantelada a ameaça da NATO.

O DESANUVIAMENTO TRAZ A PAZ?

Durante muitos anos, a propaganda norte-americana agitou a desconfiança de que as campanhas pacifistas da União Soviética serviam um tenebroso plano expansionista. Mas, com o correr do tempo, milhões de pessoas em todo o mundo chegaram à conclusão de que tinham muito mais razão para recear o expansionismo americano do que o alegado  expansionismo da União Soviética. Pouco lhes importa portanto que por detrás dos discursos de Gorbatchov haja interesses de Estado; se eles apontam no sentido da paz, é isso que conta.

Pela nossa parte, não temos qualquer dúvida de que União Soviética precisa da paz e quer a paz. Isso, porém, não quer dizer que a paz resulte das suas iniciativas. E é nessa perspectiva que nos interessa discutir a actuai vaga de desanuviamento.

De facto, no meio da euforia reinante, começam já a divisar-se sinais elucidativos do que vai acontecer. Que se passa no Afeganistão? Os soviéticos foram louvados por todo o mundo pela decisão de retirar as tropas que nunca para aí deviam ter enviado. Mas neste momento as tropas soviéticas em retirada são acossadas pelas guerrilhas islâmicas, superarmadas pelos americanos, e corre-se o risco de o governo afegão se desintegrar e o país ser submergido por uma onda de terror fascista. A ideia de que se poderia chegar a um governo de “concórdia nacional” sem vencedores nem vencidos não passava dum sonho.

Na África austral, a promessa de pacificação que acaba de ser assinada na ONU significa muito cruamente o seguinte: o governo de Angola poderá ver-se livre da pressão militar da África do Sul desde que renuncie à garantia de defesa que lhe era dada pelas tropas cubanas, faça cedências à Unita, instaure a economia de mercado e dê facilidades ao investimento estrangeiro. Quanto à África do Sul, em troca de renunciar à agressão militar, ganhará direito a entrar na OUA… Na Nicarágua, vivendo uma dolorosa agonia de capitulações, é a URSS que corta fornecimentos de petróleo ao governo sandinista para o ajudar a compreender que ainda está a ser rígido nas cedências aos contras e aos capitalistas. Mas a lição mais completa sobre a actual onda de desanuviamento é a da Palestina. A OLP reconheceu o Estado de Israel, disfarçando esta capitulação perante os invasores e opressores do seu povo com a proclamação de um Estado palestiniano mítico. Mesmo assim, Arafat levou com a porta na cara em Nova Iorque e teve que acabar por declarar explicitamente, como lhe era exigido, que renuncia a toda a forma de “terrorismo”; o que significa que, de agora em diante, não combaterá o fascismo israelita e reprimirá os seus próprios compatriotas resistentes.

Se observarmos o que está por detrás das congratulações com o novo espírito de entendimento, encontraremos que o desanuviamento é comprado em cada caso pela capitulação dos povos face ao imperialismo. E, como é inevitável, cada capitulação incita a uma nova exigência. O desanuviamento acaba por funcionar como uma moratória para futuros massacres em maior escala. Foi assim que a ofensiva superpacifista de Kruchov adubou o terreno para os americanos desencadearem a superguerra do Vietname.

Devemos pois perguntar-nos: que guerras, que massacres estão a ser preparados pela actual onda de paz?

PRIMEIRO ALVO: EUROPA DE LESTE

De resto, os dirigentes norte-americanos falam com o maior cinismo da campanha em curso e avaliam com a frieza de homens de negócios todas as vantagens que dela conseguirão extrair. Podem ser aparentemente forçados a seguir as iniciativas pacíficas de Gorbatchov para não se desprestigiar aos olhos das massas; mas na prática têm sempre mil e um pretextos para levantar dúvidas, subir a parada das exigências, desdizer cinicamente o que tinham jurado antes e acabarem por virar o bico ao prego. Gorbatchov pode ficar com o prestígio moral do desanuviamento, mas quem tira juros dele são os americanos.

Quem ler a sua imprensa verifica que a urgência entre os estrategas americanos neste momento face à perestroika pode resumir-se assim: devemos dar corda a Gorbatchov e arrancar-lhe cedências docemente, para fortalecer a sua posição face aos adeptos da linha dura, ou devemos sacar já tudo o que pudermos, sem cerimónias, antes que ele seja derrubado como sucedeu a Kruchov há 25 anos?

Em qualquer dos casos, o objectivo é a intenção implacável de reforçar a hegemonia mundial dos EUA. E nunca poderia ser de outro modo. Se os dirigentes soviéticos ainda fossem marxistas e não vulgares políticos burgueses saberiam que a aspiração das pessoas à paz e à segurança não altera em nada a órbita cega e incontrolável do capital, que visa pela sua própria natureza reproduzir-se, concentrar-se, eliminar concorrentes, alargar a sua área de domínio. Desde que Marx formulou esta lei científica, ela não foi anulada ou atenuada pelas transformações deste século; pelo contrário, a explosão tecnológica em curso nas últimas décadas multiplicou por dez ou por cem esta energia destruidora do capital. Neste momento, os Estados Unidos e a CEE vivem na impaciente expectativa de receber o primeiro brinde da abertura soviética: a anexação da Europa de Leste, onde têm vindo há dezenas de anos a introduzir capitais, influência política e ideológica.

Como observava recentemente Henry Kissinger no Paris Match, a retirada das forças soviéticas da Europa oriental, prevista no quadro da limitação de armamentos, “poderá encorajar tendências centrífugas mais acentuadas na Europa oriental que na Aliança Atlântica. A prazo, o que está em jogo é talvez a estabilidade da Europa de Leste. AÍ e agora, a acção de Gorbatchov resultou menos na desintegração da Aliança Atlãntica do que na reactivação da questão do futuro da Europa de Leste”.

E, no entanto, está criada uma tal mistificação em torno da situação internacional que muitas pessoas progressistas e de esquerda se regozijam com a democratização em perspectiva no Leste da Europa, não percebendo que o afastamento dos burocratas nesses países vai ser pago com a expansão do capitalismo europeu e norte-americano a novos mercados, com o seu fortalecimento e portanto com um novo agravamento dos perigos de guerra.

SONHOS QUE MATAM

Perguntar-se-á: onde queremos chegar com estas notas? Se se faz uma análise tão negativa da actual interrupção dos conflitos, quer isso dizer que achávamos preferível que continuassem a morrer milhares de pessoas? Será que defendemos como um mal menor a política de resposta taco-a-taco aplicada pela União Soviética no tempo de Brejnev?

O que pretendemos sublinhar é, em primeiro lugar, que não existe qualquer garantia de paz enquanto o mundo continuar dominado pelo capitalismo. A origem das guerras está no próprio regime capitalista e a única forma efectiva de lutar pela paz é lutar pela revolução, pela aniquilação do capital, pela organização socialista da sociedade.

Em segundo lugar, queremos lembrar que a União Soviética está entalada num dilema insolúvel face à agressão imperialista americana: ou responde na mesma moeda, fazendo guerras reaccionárias como a do Afeganistão, ou capitula e arrasta os povos à capitulação, como actualmente acontece. E isto porque a classe dirigente da URSS, à medida que veio definindo o seu carácter burguês, passou a ser dominada pelo reflexo da defesa da ordem e a temer a revolução. A URSS há muito deixou de ser um baluarte da paz.

Por último, consideramos que, por pequenas que sejam hoje as forças revolucionárias no mundo, é só no seu agrupamento e reforço que reside a esperança de lutar contra as guerras hoje e de banir a guerra no futuro. O sonho de que seja possível a paz universal, sem primeiro transformar o mundo e enterrar o capital, é um sonho mortífero. Costuma dizer-se que os sonhos ajudam as pessoas a viver. Neste caso, podem ajudá-las a morrer. Talvez seja adequado concluir este balanço com uma melancólica reflexão do impagável marechal Costa Gomes, quando esteve há dois meses numa reunião do Conselho da Paz na índia: “Há hoje mais ogivas nucleares do que as que existiam em 1985. E, o que é mais grave, são mais sofisticadas”.

Política Operária nº 17 Nov-Dez 1988

 

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