Primavera de Praga: a fraude

Francisco Martins Rodrigues

Lá porque a invasão russa foi reaccionária, não nos venham vender Dubcek como revolucionário. Este ano, como calhou o 20° aniversário da invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas, tivemos direito a foguetes de lágrimas pelo “socialismo de rosto humano”.

Dossiês e mesas redondas repisaram velhas baboseiras sobre o “sonho proibido” sepultado pelos tanques de Brejnev na “paz dos cemitérios”. Isabel do Carmo, revolucionária reformada, exaltou no Expresso a “Primavera de Praga” como “um processo de vanguarda, uma tentativa de salvação do comunismo”. E Dubcek, esse macaco de rabo pelado, foi mais uma vez vendido aos incautos como mártir da revolução.

Ora, revolução foi coisa que não houve na “Primavera de Praga”. E se a União Soviética, ao impor a sua lei à Checoslováquia pela força das armas, se comportou com a brutalidade de todas as grandes potências e demonstrou a falsidade do seu comunismo, não é isso que torna os liberais checos menos reaccionários.

O “socialismo de rosto humano” de Dubcek era uma fraude. Sob esse slogan atraente, começavam a levantar a cabeça na Checoslováquia os capitalistas expropriados, a pequena burguesia, os políticos social-democratas, que julgavam chegada a hora da desforra. Tal como acontecera em 1956 na Hungria, a burguesia aproveitava o descontentamento popular contra a opressão dos burocratas “comunistas” para acabar com o que restava da revolução, restaurar o seu poder e ligar o país aos Estados Unidos. A “revolução” não foi muito gloriosa. Enquanto o demagogo Dubcek tentava ganhar os operários para o seu lado agitando a bandeira do patriotismo, da democracia e dum “socialismo renovado”, a classe operária, desconfiada da fartura, manteve-se neutra na sua maioria. O apoio unânime e entusiástico dos trabalhadores à “revolução” é uma lenda alimentada pela propaganda ocidental.

Só assim se explica que a invasão soviética não encontrasse resistência. E não serve o argumento de que a resistência era impossível devido à desproporção de forças: até o minúsculo povo de Granada resistiu à invasão americana, mesmo sem qualquer esperança. A verdade é que a pequena burguesia checa acobardou-se perante a perspectiva de uma luta violenta e a classe operária absteve-se de tomar partido porque não sabia qual dos males era pior. A isto se resume a triste história da “Primavera de Praga”.

FALANDO EM INVASÕES

Quando os ideólogos do Ocidente nos convidam à solidariedade com uma “causa democrática” qualquer, é certo e sabido que tentam ilibar-se de algum crime. Neste caso, os crimes são dois.

O primeiro teve lugar precisamente há 50 anos. Teria sido uma boa oportunidade para comemorações. Em Setembro de 1938, as tropas nazis invadiram a Checoslováquia e anexaram a região dos Sudetas depois de terem obtido luz verde da Inglaterra e da França através do tratado de Munique. Sacrificando a independência da Checoslováquia, as potências “democráticas” abriram a Europa à ocupação nazi e tornaram-se cúmplices no desencadeamento da 2ª Guerra Mundial, na qual foram mortos 20 milhões de pessoas.

O segundo crime que se pretende apagar quando se choram os sofrimentos da Checoslováquia sob a ocupação russa são os tapetes de bombas, a inoculação de vírus em crianças e outras monstruosidades que, nesse mesmo Verão de 68, os americanos despejavam sobre o povo mártir do Vietnam.

Num caso como no outro, a responsabilidade criminosa das potências ocidentais deixa a perder de vista a da União Soviética.

A DIFERENÇA

A invasão da Checoslováquia pela URSS vem sendo agitada desde há 20 anos por certas correntes da esquerda como prova de que a agressividade das duas superpotências seria equivalente. Mas ela mostra precisamente o que as diferencia. Vinte anos depois de ter derrubado Dubcek em nome da “defesa do socialismo”, o regime soviético segue-lhe hoje as pisadas com a perestroika. A “Primavera de Praga” acaba por triunfar a prazo na “Primavera” de Gorbatchov. Os conquistadores são conquistados.

Os acontecimentos recentes (na Europa de Leste, no Afeganistão, em Angola) mostram que, em matéria de imperialismo, os dirigentes soviéticos não passam ainda de aprendizes. Não porque lhes falte a vontade ou o poder militar. Mas porque o seu regime económico-social atravessa uma difícil e prolongada metamorfose, do capitalismo de Estado para a restauração plena da burguesia. Nessas condições, as novas aventuras imperialistas em que a União Soviética poderá vir a envolver-se correm o risco de ter o mesmo desfecho infeliz das dos últimos vinte anos.

A agressão imperialista, com todo o seu cortejo de horrores sangrentos, continua a ter a sua sede nos Estados Unidos. Eis o que tentam fazer-nos esquecer as compungidas carpideiras da “Primavera de Praga”.

Política Operária nº 16 Set-Out 1988

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