Carta a um ex-camarada

Francisco Martins Rodrigues

Quando decidi abandonar o PCP, faz agora 25 anos, disseste-me que era uma trai- ção à luta porque, fosse qual fosse a razão das minhas críticas, “só dentro do Partido se pode ser comunista”. Gostaria de te perguntar hoje, nas vésperas do vosso congresso, se já percebeste que, para ser comunista, é obriga- tório estar fora do PCP.Vê só o que vos aconteceu.

Viviam obcecados com o perigo de consumir as forças da classe operária em alguma aventura “sectária” e julgavam-se muito espertos por ter inventado um caminho “democrático e nacional” que vos permitiria levar todos unidos para o socialismo. Em 75, chegaram a convencer-se de que estavam à beira de o conseguir, com a táctica habilidosa da aliança Povo-MFA. E hoje, o que resta de tudo isso? Derrotas sobre derrotas, confusão, apatia, desmoralização, a classe operária condenada a ser escrava do capital, sem esperança de futuro.

Gabavam-se de ter o movimento operário unido sob a vossa direcção, não admitiam que nos insurgíssemos contra as “batalhas da produção” e as “viabilizações”, corriam-nos à pancada das manifestações da CGTP, riam-se da UGT amarela que nunca seria nada. E o que conseguiram foi roubar a força ao movimento sindical. Há dez anos podias imaginar que um dia a CGTP se iria sentar à mesa da concertação social com os patrões e o governo e que se encontraria a reboque da UGT numa greve geral?

Fundaram toda a vossa política na “defesa dos interesses nacionais, à espera de ser um dia reconhecidos por todos os democratas e patriotas. Mas a burguesia, que fingiu respeitar-vos na hora difícil de 75 para se servir dos vossos préstimos como bombeiros, agora que já tem outros intermediários para tratar com os trabalhadores, diverte-se a desagregar-vos. Tanto se abaixaram por amor à Unidade que acabaram por ficar isolados.

Quando dizíamos que as vossas manobras tácticas vos deixavam de cócoras diante da burguesia, punham-nos em cara os atestados da vossa longa resistência ao fascismo. Mas, de cedência em cedência, estão agora reduzidos a propor a gestão “racional” das empresas, o “desenvolvimento baseado numa economia mista”, a estabilidade das instituições burguesas, uma “democracia avançada no limiar do século XXI”. Se isto não é uma política social-democrata, o que é então?

Julgavam que o partido estava imunizado contra todos os desvios pelo facto de se manter inabalavelmente fiel à União Soviética e não queriam sequer ouvir os nossos alertas de que a “pátria do socialismo” estava a apodrecer. E agora é da URSS que vos chega diariamente, como o supra-sumo do socialismo, tudo aquilo que vocês condenavam como revisionismo: empresas privadas, novos ricos, operários a apertar o cinto, arrendamento de terras, a corrida ao lucro em nome da “autogestão”, campanhas contra o “igualitarismo”. E vocês, presos na ratoeira que escolheram, têm que dar o dito por não dito e fingir que acreditam na marcha da URSS para o comunismo quando todos os operários começam a ver que o rei vai nu!

Prometiam mundos e fundos da abertura democrática da União Soviética, que iria demonstrar a superioridade do seu regime e convencer até os capitalistas a aderir ao socialismo… Tiveram que esperar vinte anos, de corrupta estagnação brejnevista, mas enfim, agora orgulham-se com o clima de renovação e liberdade que a glasnost traz à URSS e que é aplaudido em todo o mundo. Mas só os cegos não vêem que essa liberdade é um breve minuto de transição, a ponte de passagem dos abusos dos burocratas para os abusos dos capitalistas. O que está a crescer na URSS sobre o desmantelamento do controle estatal que asfixiava tudo não é o “poder dos sovietes” nem o “autogoverno do povo” como diz o demagogo Gorbatchov, mas o autogoverno do capital.

Aderiram encantados à “política de paz” da União Soviética e acusaram-nos de “querer mergulhar o mundo na guerra” por insistirmos em que a única política que traria a paz era o apoio à lutas revolucionárias dos povos. Estavam convencidos de que a URSS tinha descoberto uma fórmula mágica para ganhar as simpatias de todas as pessoas de boa vontade e levar o mundo para o socialismo sem revolução. Mas o que essa “política de paz” tem produzido até agora é a oscilação da URSS entre as aventuras militares, como a do Afeganistão, ou a cedência em toda a linha para apaziguar o imperialismo americano.

Nunca mais houve em qualquer ponto do mundo uma revolução que mereça esse nome. O capitalismo recompôs-se e as ameaças para a humanidade crescem sem cessar, entre promessas de desanuviamento.

Proibiram-nos de apontar erros, correram-nos do partido como “dogmáticos”, apertaram a rédea aos militantes mais combativos até os transformar em múmias, asfixiaram as forças operárias vivas do partido. Para chegar aonde? A onda de reivindicações dos dissidentes de direita, à chusma de carreiristas em debandada quando descobrem que o partido já não dá lucros, aos colóquios com a D. Natália Correia, que vos diz na cara que Staline foi um monstro igual a Hitler! E vocês, os intrépidos defensores dos “princípios”, têm que engolir tudo como se fosse a coisa mais natural.

Dissemos que o PCP estava a transformar-se num partido de reformas, que de leninista já só conservava o emblema. Não nos deram ouvidos, porque vocês é que eram o “grande partido da classe operária” e nós não éramos nada. Não será agora altura de reconheceres que tínhamos razão, nós, os tais “esquerdistas”?

A vossa trajectória durante estes 25 anos foi uma cadeia ininterrupta de abandonos, uma derrocada constante, oculta sob a euforia das grandes realizações, das “batalhas” eleitorais e das centenas de milhar de membros. É hora de despertar. Os vossos chefes são os generais das batalhas perdidas, os grandes tácticos do recuo permanente. Acreditavam ter tudo, descobrem que não têm nada.

Ser-se derrotado acontece. A questão é saber como foi, porquê. Ora, vocês não têm resposta. Dizem que houve uma “revolução inacabada”; caem no ridículo queixando-se de e a direita não respeitou a vontade do povo; lamentam que o PS tenha preferido aliar-se à direita em vez de se aliar a vós (pois não é esse o papel deles?).

Tudo para não terem que responder à pergunta que os operários vos fazem, amargurados: porquê chegámos desde 75 até aqui? A verdade é que em 75 não houve revolução nenhuma porque vocês fizeram os possíveis e os impossíveis para a impedir. A direita avançou porque vocês se recusaram a ir à luta quando a luta se impunha. O PS enganou o povo porque vocês lhe deixaram o campo livre. A choradeira de que “não se fez mais porque não foi possível” pode convencer os militantes crédulos mas não engana mais ninguém.

Os momentos revolucionários não se escolhem. Naquele momento, em Portugal, era preciso derrubar a burguesia e tomar o poder; mas isso não estava no vosso programa. Na hora da verdade, vocês puseram-se de fora e negociaram com a burguesia a salvaguarda da vossa legalidade. Foi essa a vossa traição histórica. Foi aí o princípio do vosso fim.

A partir daí, tiveram que inventar desculpas para todos os recuos a que se tinham comprometido com o general Eanes no 25 de Novembro: convencer os trabalhadores de que continuavam a ser os donos do país… desde que cedessem posições atrás de posições; proclamar que “o Portugal de Abril está de pé” quando já estava de joelhos; garantir que “a Reforma Agrária não recua um passo” quando lhe apressavam a agonia escrevendo apelos aos tribunais; falar sem vergonha no “sector socialista da economia” quando os capitalistas já combinavam a partilha das nacionalizadas; colaborar “responsavelmente” na viabilização das empresas quando já se sabia que os despedimentos e os cortes de regalias viriam a seguir; oferecer a outra face de cada vez que recebem uma bofetada, comportando-se como verdadeiros cristãos democratas; e irem-se agarrando com desespero às abas do casaco de todos os possíveis protectores burgueses — Eanes, Soares, Constâncio… — que vos sacodem com desprezo porque já não têm medo dos operários.

Agora é hora de pagar a factura. Já ninguém toma a sério as vossas bravatas sobre o “grande partido da classe operária, da democracia e do socialismo”. Todos vêem que vocês são um leão sem dentes, um partido pequeno-burguês para adormecer operários, impotente e fala-barato.

Repito-te assim o que te dizia há 25 anos: para os comunistas não há outro caminho do que recomeçar do princípio a formação do seu partido. Porque o vosso problema não é — como já não era nesse tempo — de erros ou falhas que se corrigem dentro do partido. O rio do oportunismo tem uma fonte. O vosso problema é a invasão do partido operário revolucionário pela pequena burguesia reformista que tomou posse dele e já não o larga.

Ainda achas que isto é “doutrinarismo”? Se ainda és capaz de perceber que toda a política é luta de classes, terás de reconhecer que o pano de fundo de toda a vida do PCP foi o avanço constante da pequena burguesia, que adere ao comunismo para poder usar a força operária como alavanca ao serviço da sua ambição de ser ouvida, meter medo aos capitalistas com o cão de guarda operário e ganhar regalias para si própria.

Milhares de comunistas lutaram esforçadamente, convencidos de que serviam a causa da classe operária. Talvez tu próprio ainda o acredites. Mas foram logrados porque não quiseram pensar na linha política do partido e acharam que a via mais fácil era a mais segura.

Através da linha política traçada por Álvaro Cunhal, a pequena burguesia ocupou o PCP. Parece-te absurdo que se diga isso do vosso guardião do marxismo-leninismo? É porque não queres admitir que ser marxista-leninista é algo mais do que sonhar com o socialismo ou saber o Capital de cor: é preparar todos os dias a classe operária para derrubar a burguesia. E o vosso Cunhal tem passado a vida à procura de uma via intermédia, que pudesse conduzir o povo ao socialismo sem choques brutais para não assustar as forças intermédias, os democratas, os engenheiros, os pequenos patrões. Mas essa via não existe.

A história de todos os países, e a nossa também, está farta de demonstrar que é impossível desligar as camadas intermédias dos donos da sociedade capitalista enquanto a classe operária não constituir uma força indomável, lançada na luta pela revolução. A pequena burguesia, foi Lenine que o disse, cai sempre para o lado do mais forte. E a classe operária nunca será o mais forte se tiver medo de demarcar os seus interesses dos de todas as outras classes, se tiver medo de as pôr perante o facto consumado da sua política independente.

Já pensaste por que é que Cunhal está sempre a exaltar a força”, a “consciência, a “maturidade” dos operários? É porque quer que eles se mantenham como estão, e não descubram que ainda lhes falta andar muito para ser realmente uma classe poderosa. O ano de 1975 foi a melhor prova disso: milhões de trabalhadores na rua, e tudo à espera do MFA. Alguém acredita que se  a classe operária tivesse neste momento o seu partido comunista, o desenlace teria sido aquele?

Mas há sempre uma escapatória para não olhar a realidade de frente. Agora vão para o congresso derrotar estrondosamente os dissidentes e convencer-se de que a fidelidade à direcção é uma espécie de talismã que vos protegerá contra todas as desgraças. É realmente uma batalha à vossa medida.

Quando há dois anos, recapitulando nesta revista a história das lutas internas do PCP (lutas que vocês continuam a fingir que nunca existiram), eu antevia o novo conflito que se esboçava, estava longe de supor que fosse tão degradante.

O que está em debate, afinal? O direito dos membros do partido a discutirem livremente, como condição para o centralismo ser de facto democrático e a unidade de acção ser sólida? Mas nesse aspecto os dissidentes tocam o vosso ponto fraco! O secretismo que vocês querem continuar a fazer passar por “disciplina leninista” é contrário a tudo o que Lenine e os bolcheviques praticavam, e vocês sabem-no; mata a luta de ideias, gera a obediência apática, dissolve a ideologia num palavreado morto. Vamos dizer a verdade: ele é-vos indispensável porque o caos político e ideológico dentro do Partido é tão grande que, no’ dia em que vos faltar essa trincheira, a vossa bela “unidade partidária” desfaz-se como um baralho de cartas. Vocês mesmos o confessam ingenuamente quando argumentam que há o perig0 de as discussões “desorientarem o Partido”.

O que está de facto em jogo nesta luta é outra coisa que não pode ser confessada por vós nem pelos liberais: é saber se o reformismo do PCP, para dar dividendos, exige ou não uma integração declarada, explícita, no regime. Com efeito, à burguesia não bastam as provas práticas por vós dadas nestes anos; reclama-vos uma profissão de fé sem ambiguidade nas virtudes da democracia capitalista. Bem entendido, não vos proíbe de continuar a protestar contra a exploração, a criticar os Estados Unidos e a falar do socialismo — até é útil haver válvulas de escape inofensivas da indignação operária. Mas exige — e aí exige mesmo — que vocês digam de uma vez por todas que 1975 foi um tumulto populista que deitou abaixo a economia nacional; que concordem em que a Reforma Agrária foi uma utopia ruinosa; que condenem sem meias tintas a ditadura do proletariado como totalitária; que lamentem os excessos da revolução russa; que reconheçam que Lenine era um bocado autocrata; que batam com a mão no peito e proclamem que Staline foi um louco assassino culpado da 2ª Guerra Mundial.

Sem isto, não sereis aceites como membros de pleno direito no clube dos partidos da ordem, não vos deixarão entrar para o governo, não vos será reconhecida a respeitabilidade por que vocês tanto anseiam, continuareis a ser achincalhados e roubados na artilha dos cargos da administração.

E é isto que põe loucos os dissidentes: “Porquê insistir em defender mitos em que já nenhum de nós acredita? Se continuarmos assim neste imobilismo, entre as dez e as onze, caímos no vazio”. E, de facto, têm razão: uma vez que deixou de ser um partido revolucionário, o PCP tem que se decidir, sem falsas vergonhas, a ser um partido burguês de corpo inteiro.

Cunhal e os seus, contudo, receiam esse passo sem retorno. E se o partido — interrogam-se eles — nesse salto mortal, perde a influência operária que ainda conserva, e abre espaço para um partido à sua esquerda, o que até agora conseguiu evitar? Por isso procuram ganhar tempo, contentar a burguesia bom meias renegações, ceder um pouco mas não tudo aos liberais enquanto, para a geral, lhes vão chamando nomes. Cunhal é perito nesse género de “lutas contra o oportunismo” que satisfazem os oportunistas (lembras-te da célebre “luta contra o desvio de direita” que acabou com a expulsão dos “esquerdistas” e a aprovação do programa da Revolução Democrática e Nacional?).

Só que desta vez a sua margem de manobra é menor do que nunca. Ele bem pode dizer que “não admitiremos grupos dentro do Partido”; o caso é saber se o pode impedir. É que os dissidentes dispõem de uma arma arrasadora: como se explica que na URSS os liberais saneiem os conservadores e aqui aconteça o contrário? Como podem eles ser acusados de desviacionistas, se apenas reclamam que se aplique em Portugal a perestroika? Afinal, são eles ou é Cunhal que está com o passo trocado?

Os dissidentes podem por agora parecer fracos mas, a prazo, têm a batalha ganha. Porque são apoiados simultaneamente pela burguesia, que quer ver um PC moderno em Portugal, e pela União Soviética, que quer o mesmo. E o apoio que recebem de Gorbatchov não é meramente moral, não o duvides: quando o PCUS enviou uma delegação ao último congresso do PS, foi uma maneira de avisar Cunhal de que a União Soviética perde a paciência e saberá passar por cima dos que teimam em não evoluir. Desta vez, Cunhal está emparedado.

Não penses, porém, que alguma vez vos apoiemos na batalha contra os vossos dissidentes. Eles não passam de social-democratas, é certo. São a vossa extrema direita, os vossos Dubceks, os vossos Carrillos. Os ingénuos perestroikos de base que se alegram porque “esta controvérsia é boa para tirar o partido da estagnação” não percebem que estão a ser os parvos úteis da social-democracia. Mas foram vocês mesmos que os amamentaram. Depois de andarem dúzias de anos a censurar o espírito de classe dos operários como um pecado, a jurarem que são apenas bons patriotas preocupados com a segurança das instituições e a prosperidade da economia nacional — seria de facto muito estranho que toda essa mistela não tivesse produzido nas vossas fileiras uma corrente social-democrata puro sangue, impaciente por colher os frutos da capitulação. Pois avenham-se com ela.

… A não ser que te decidas a compreender, finalmente, que a luta para saber se o PCP pertencerá aos ortodoxos ou aos renovadores já não tem nada a ver com os interesses dos comunistas e da classe operária. A não ser que compreendas que, para além dos que abandonam o partido para amanhar a sua vidinha, há também os que saem do partido para buscar, na continuação da luta contra a burguesia e na reflexão da experiência percorrida, o caminho para um novo reagrupamento e para um novo partido comunista.

Nesse caminho nos temos mantido nós, os chamados “esquerdistas”. Temos procurado, temos errado. Mas nunca perdemos de vista aquilo que a vós vos esqueceu: a revolução e o socialismo, ou serão obra da classe operária, contando consigo própria, decidida a liquidar a burguesia parasita e a tomar o comando da sociedade, ou nunca passará de uma miragem para consumo de operários domesticados sob a canga do capital.

Conto com o teu instinto de comunista, apesar de tudo. E com a força do exemplo dos operários que, mesmo enganados e derrotados, continuam a fazer avançar o mundo para o socialismo. Ou tu acreditas que o capitalismo vai ser eterno?

Política Operária nº 16, Set-Out 1988

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