A batalha ainda não está ganha

Francisco Martins Rodrigues

A aprovação pelo CC das novas teses para o Congresso é o começo de uma viragem que pode ser histórica no nosso Partido. Pela primeira vez, o Partido demarca os interesses próprios da classe operária no campo da política e da táctica e ousa dizer que eles são diferentes dos da pequena burguesia. Pela primeira vez, o Partido traça um plano para concentrar de facto forças na conquista da classe operária. Pela primeira vez, é feita uma crítica firme às vozes que, em nome de uma política “ampla”, do combate ao sectarismo e das alternativas flexíveis, têm vindo a adiar a tarefa central, o pilar central da política comunista: ganhar a hegemonia para o proletariado.

Não se trata, como choram alguns velhos do Restelo, de deitar fora sete anos de vida e de luta partidária, pelo contrário. Trata-se de reflectir sobre essa experiência, como compete a todo o partido marxista, separar o trigo do joio, criticar sem medo a linha de direita que se escondia sob o caminho do 25 de Abril do povo, para poder avançar com mais firmeza à realização das nossas tarefas revolucionárias. Quem recusa isto em nome destes ou daqueles “referenciais” quer de facto manter o Partido na via da colaboração de classes proletariado-pequena burguesia, é preciso que isso saia claro deste congresso.

Mas esses velhos do Restelo receosos de mudanças são uma minoria no CC. A maioria é favorável às novas teses. O que seria motivo de grande satisfação se percebêssemos como e porquê evoluiu essa maioria das suas posições anteriores para as actuais. E é isso que ainda não se percebe. Cair num desvio de direita significa lutar contra a esquerda. Há que dizê-lo sem rodeios. O actual CC no seu conjunto e alguns dos seus membros com especial destaque têm vindo a lutar desde o 3º Congresso contra posições justas de defesa do Partido, do marxismo-leninismo e da revolução. É a conclusão que se tira das próprias teses. Não será isto um erro suficientemente grave para que os membros do CC que aprovaram as teses se sentissem na obrigação de vir prestar contas ao Partido na Tribuna pelas posições erradas que defenderam até ao último momento? Então por que continuam esses camaradas a abster-se de escrever para a Tribuna? Não será porque resistem a reconhecer francamente os seus erros perante o Partido que os elegeu? Não será porque fogem a criticar-se uns aos outros, como se o CC fosse um santuário a conservar longe das vistas do Partido?

Com a aprovação das novas teses, o CC iniciou um grande passo em frente. Mas ainda não chega. Porque há sinais de que esse passo não é firme, convicto, plenamente consciente. Tudo pode voltar atrás, ou, pior ainda, ficar nas meias tintas pantanosas.

Vejamos um exemplo. Quando na 3ª Conferência Nacional a Comissão de Educação apontou erros centristas ao 3º Congresso, disse que havia já uma nova tendência de direita no CC, mostrou por que falhara a promoção Staline, fez propostas para a bolchevização do Partido — o que fizeram os membros do CC, com a única excepção do camarada Manuel Raposo? Votaram contra. Impediram assim que se iniciasse uma viragem que, a ter sido feita nessa altura, teria poupado grandes perdas ao Partido.

Será isto um pequeno erro? Porque recusa então o CC ainda hoje reconhecer francamente que na 3ª Conferência a maioria (o centro) fez frente comum com a minoria (a direita) para derrotar essas propostas de defesa do Partido? É este o exemplo de autocrítica que dá ao Partido? Se o CC admite agora que era justa a moção da Comissão de Educação, porque não a divulga ao Partido, como exemplo de firmeza na defesa dos princípios? Não será porque ainda não a sente como sua?

Vejamos outro exemplo. Será normal que o CC, mesmo depois de aprovar estas teses, que reproduzem o essencial das ideias da minha carta de Abril ao CC, ainda continue a recusar-se a dar a conhecer essa carta ao Partido, como material de debate para o Congresso? Não dariam os argumentos da carta um maior impulso para a viragem a que o CC aderiu? Se o CC ainda “não perdoou” à minha carta, não será porque lhe dói a crítica dura que aí é feita ao centrismo? E se essa critica ainda dói, não é isso sinal de que o CC ainda não cortou até ao fim com o centrismo?

Mas há mais. A maioria dos membros do CC não só resiste a reconhecer por inteiro os seus erros como passa ao contra-ataque. Começa-se agora a dizer que a exigência de uma autocrítica completa seria revanchismo, espírito de desforra dos “esquerdistas”, “pessoalizar as questões”, “querer destruir o núcleo dirigente”. É um sofisma que não deve ser aceite. Exigir que a verdade seja toda dita é a condição para que o CC se liberte dos seus erros. A acusação de revanchismo é nuvem de fumo. É preciso destruir, sim. Não os camaradas, que todos eles são precisos ao Partido, mas o núcleo de ideias oportunistas e centristas que se formou no actual CC. E aqui não deve haver conciliação. Disso já tivemos de sobejo, com os resultados que estão à vista.

Vamos ser francos. Os membros do CC, “apanhados na contra-mão”, como diz o camarada Raul, viram-se forçados a admitir os erros direitistas da linha por não terem outra alternativa. Mas admitem-nos de má vontade. Adoptam aquilo a que chamavam “esquerdismo” mas cheios de ressentimento e desconfiança para com os “esquerdistas”. Estão mais preocupados em evitar os “excessos” na crítica, limitar os estragos dos “esquerdistas”, do que em arrancar pela raiz o veneno oportunista e centrista. Quando falam dos artigos “esquerdistas” na Tribuna é só para os achincalhar como “absurdos”, “falsos”, “incríveis”. Não são capazes de reconhecer francamente que esses tais “esquerdistas” viram aquilo que o CC não viu, bateram-se contra a corrente sem medo de estar em minoria, mostraram vigilância contra o oportunismo, confiança no Partido, firmeza nos princípios. Tudo aquilo que os membros do CC, com toda a sua “sabedoria”, mostraram não ter!

Vamos dizer a verdade toda. Os membros do CC querem uma transição pacífica do 3º para o 4º Congresso, sem grandes rupturas. Receiam uma revolução no Partido. Recusam perceber que uma revolução é o único meio de varrer os ares bafientos do oportunismo acumulado nestes sete anos. Pensam mais na estabilidade do aparelho do que na rectificação da linha. E não serão poucos os que esperam para ver se a nova linha recebe o aval de certas figuras de primeiro plano antes de se comprometerem a fundo com ela.

Tudo indica que a situação é pouco sã. Como disse um camarada de Aveiro, a ferida tem que ser mais aberta para sair o sangue sujo que continua a envenenar o corpo do Partido. O Partido vai ter que levar uma grande volta, como também disse na última Tribuna um camarada do Porto. Só os militantes a podem impor. Na Tribuna, nas assembleias de célula, nas conferências, no plenário do Congresso.

Vamos ter muito tempo para nos reconciliar todos uns com os outros. Agora é preciso lutar, confrontar ideias, soltar a crítica, cortar qualquer hipótese de um regresso para as trincheiras centristas. A batalha está longe de estar ganha.

Tribuna do Congresso nº 14, 30 Jan 1983 (boletim interno de debate para o 4º Congresso do PC(R)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s