Sectarismo na Reforma Agrária

Francisco Martins Rodrigues

Quando se diz que é preciso acabar com o sectarismo no nosso Partido, naturalmente toda a gente está de acordo. O pior é que, para certos camaradas, o combate ao sectarismo é entendido mais no sentido de nos ligarmos a intelectuais do PS, a grupos de cristãos ou a militares democratas, do que no sentido de nos ligarmos às grandes massas proletárias e semiproletárias, aquelas que hão-de fazer a revolução e que esperam por nós. Da carta que em Abril entreguei ao CC, transcrevo a parte referente à nossa acção na Reforma Agrária — um exemplo de sectarismo que até agora parece ter passado despercebido ao CC.

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A nossa acção na Reforma Agrária é um caso extremo de sectarismo. A intervenção do Partido nesta frente vital da luta de classes parece em vias de extinção. Não conduzimos quaisquer acções de massas, não marcámos presença nas desocupações, manifestações, plenários, e a votação da UDP no Alentejo caiu para menos de metade (já sem falar da sua composição social). O CC atribuiu na 2ª Conferência esta situação à fraqueza organizativa e a tendências sectárias, nada dizendo sobre as causas políticas desses males, (Comunismo n° 1, p. 18). Na 3ª Conferência nem se tentou sequer uma explicação e tudo se resumiu a reafirmar meia dúzia de palavras de ordem de acção, como se elas pudessem fazer o trabalho por nós.

O Alentejo apresenta na sua forma mais aguda o bloqueamento da nossa actividade pelo domínio dos revisionistas sobre as massas, sem paralelo com qualquer outra região do país. Os assalariados rurais fizeram aí um avanço gigantesco no ataque ao direito de propriedade burguês, mas sem quaisquer choques violentos com os latifundiários e as autoridades. Este era justamente o objectivo visado pelo PCP ao fazer proteger as ocupações das terras com o guarda-chuva do MFA: provocar transformações estruturais mas sem dar lugar a confrontações violentas de classes, que poderiam pôr em marcha um movimento revolucionário imparável.

Esta aprendizagem revolucionária amputada levou os proletários alentejanos a ver as suas conquistas, mais do que em qualquer outro lugar, como uma doação do “seu” partido, o PCP, e submergiu-se numa onda de ilusões reformistas maior ainda do que a classe operária — já não tinham patrões, trabalhavam para si próprios nas Unidades Colectivas de Produção (UCPs) e cooperativas “socialistas”, “conquista irreversível da revolução”, etc.

Inevitavelmente, a Reforma Agrária ia ser palco da contra-ofensiva mais radical da burguesia, que exige a devolução dessas terras. Era a região onde mais depressa poderiam acender-se confrontos violentos que servissem de rastilho à reabertura da crise revolucionária. Tinha que ser tratada como uma das frentes prioritárias da actividade do Partido. Mas era simultaneamente a região onde o PCP tinha mais funda influência política e mais condições para despoletar a carga explosiva e conduzir os trabalhadores à capitulação.

Esta situação original ditava ao nosso Partido a necessidade de uma táctica excepcionalmente maleável, tenaz, paciente, de implantação dentro das UCPs e cooperativas, com vista a ganhar o movimento por dentro, até conseguir uma base de ruptura com a traição revisionista e desencadear a resistência de massas ao roubo das terras.

Tudo o que Lenine ensinou no Esquerdismo sobre a necessidade de usar “todos os estratagemas, todas as astúcias, recorrer a expedientes, calar a verdade”, tinha que ser aqui aplicado a cem por cento. “Para ser capaz de ajudar a massa a ganhar a sua simpatia, adesão e apoio — escreveu ainda Lenine nessa obra — é preciso não temer as dificuldades, as chicanas, as armadilhas, os ultrajes, as perseguições por parte dos ‘chefes’ (os quais, oportunistas e social-chauvinistas, estão na maior parte dos casos ligados de forma directa ou indirecta à burguesia e à polícia) e trabalhar absolutamente lá onde está a massa. É preciso ser capaz de consentir todos os sacrifícios, vencer os maiores obstáculos, a fim de fazer um trabalho de propaganda e de agitação metódico, perseverante, obstinado e paciente justamente nas instituições, sociedades, organizações, mesmo as mais reaccionárias, em toda a parte onde houver massas proletárias ou semiproletárias”.

Se a massa via o PCP como um ídolo e estava predisposta a acreditar piamente nos discursos de Cunhal, entregando as terras sem luta, convictas de que o “seu” partido acabaria por salvá-las, impunha-se combinarmos a acção aberta do nosso Partido, as suas denúncias e alternativas, com o trabalho clandestino em larga escala.

Seria preciso que a maioria dos nossos camaradas não se assumissem publicamente como membros do PC(R) e da UDP, não chamassem traidores aos chefes do PCP, para poderem manter estreitos laços com as massas, acumular prestígio junto delas na acção, para o poder pôr em jogo no momento da ruptura. Poderia ser obrigatória, inclusive, a filiação de um certo número de camaradas nossos nas células do PCP, para aí minar esta adesão de massas à política revisionista.

Assim poderíamos ter feito acumulação de forças para hoje podermos arrancar com uma boa parte da Reforma Agrária para a resistência activa ao assalto reaccionário e para a ruptura com o PCP. As consequências que teria um tal movimento no quadro geral da luta de classes são incalculáveis.

O CC, como se sabe, escolheu o caminho oposto. Respondeu à “defesa da Reforma Agrária” do PCP com uma palavra de ordem de aparência mais radical: “defesa e aprofundamento da Reforma Agrária”, que já não correspondia às condições de 1977, fizemos romagens simbólicas a Catarina, deixando as massas de dezenas de milhares entregues às manifestações imponentes e de cor radical do PCP. Centrámos a nossa acção nas intervenções do deputado da UDP e nas conferências da UDP para a Reforma Agrária, que só deviam ser formas complementares de actuação diária nas cooperativas e aldeias. Isolámos meia dúzia de cooperativas e um punhado de camaradas em intervenções rígidas nas conferências e plenários, sem consideração pelo estado de espírito das massas (e queixa-se depois o CC de que os camaradas são sectários, vêem caciques em todo o lado, receiam ir à luta, etc.).

O 3° Congresso não foi capaz de tomar em conta os sinais mais do que evidentes de que a nossa orientação para a Reforma Agrária nos estava a expulsar das poucas posições que tivéramos no seio das massas. A sua determinação para o Partido “se empenhar a fundo” na defesa da Reforma Agrária e “concentrar nela maiores forças” (p. 14) ficou por isso como uma inócua declaração de intenções.

Ultimamente, o nosso isolamento das massas e a falta de perspectivas de luta no Alentejo tornaram-se tão graves que a única resposta que o CE encontrou para os ataques dos agrários e da GNR foram as pequenas acções clandestinas de retaliação e as pinturas nas paredes. O camarada Frederico Carvalho, em discussão que tivemos há cerca de um ano, recusou admitir que estas acções de “comandos” mostram que se chegou à confusão total e que já ninguém sabe como apanhar o comboio do movimento de massas. É essa contudo a dura verdade.

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O sectarismo não é nenhuma mania inata dos militantes, é o resultado da insegurança provocada por uma política que proclama o corte total com o revisionismo mas receia levá-lo às suas consequências. O sectarismo é a reacção de defesa inevitável de uma linha política que abre as portas à direita. O sectarismo é um subproduto do oportunismo. O Partido não conseguirá libertar-se do sectarismo enquanto não se libertar da política geral do “25 de Abril do Povo”.

Tribuna do Congresso nº 11, 22 Nov 1982 (boletim interno de debate para o 4º Congresso do PC(R)

 

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