Sem o apoio da classe não somos nada

Francisco Martins Rodrigues

A polémica interminável em torno da necessidade de resposta flexível às conjunturas, que tem servido de bandeira sucessivamente a todos os camaradas arrastados para posições de direita, esconde uma posição de classe que é preciso pôr a claro. Transcrevo duas passagens da carta que enviei ao CC em Abril:

 ALTERNATIVAS — PARA QUEM?

Para a massa proletária e semiproletária intervir na política por sua conta, ou para abrir espaço entre as massas pequeno-burguesas? Inserir-se vivamente na conjuntura” é adoptar procedimentos que impulsionem a intervenção política independente das massas operárias e semiproletárias, ou é procurar crédito junto da intelectualidade, do funcionalismo e quadros, dos partidos e forças da pequena burguesia? “Fazer política de grande partido” é forjar um grande partido operário revolucionário que arraste atrás de si as massas intermédias ou é ceder no vigor revolucionário da luta, na esperança de ganhar maior amplitude?

O que está em discussão no Partido, de há vários anos para cá, não é a aceitação ou a recusa das flexões tácticas mas o ângulo de classe em que as encaramos. E isto nem a direita nem o centro no CC o podem admitir, porque seria confessar que se desviam do alinhamento proletário revolucionário. A verdade, já vinte vezes verificada, é que os direitistas no Partido rejeitam soberanamente as flexões, alternativas e manobras tácticas que não lhes parecem capazes de suscitar o interesse e a confiança da pequena burguesia, acusam-nas de conter “verdades gerais”, “rigidez”, “agitativismo” — porque tudo aquilo que é dirigido às necessidades revolucionárias do proletariado e das massas pobres lhes parece “demagógico”, “irrealista”, “sem poder mobilizador”, etc. Os direitistas sentem sempre dolorosamente a falta de uma alternativa “ajustada e imediata” para qualquer conflito secundário entre partidos burgueses, mas não querem saber da falta de dezenas de alternativas ajustadas às interrogações que se colocam diariamente às massas proletárias. Esta é a verdade singela que se esconde por detrás da vozearia sobre os “desdobramentos conjunturais”.

QUE É DOS POBRES?

O CC é incapaz de traçar um plano de batalha sindical porque receia encarar o trabalho sindical na sua verdadeira dimensão de luta de classes dentro das empresas. Porque receia reconhecer que a luta reivindicativa contra o patronato só toma um cunho revolucionário se for apoiada na luta dos sectores proletários mais explorados e combativos contra as camadas auxiliares do patronato dentro da empresa: aristocracia operária, burocracia sindical, quadros, chefias.

Desde que há 60 anos o 3º Congresso da Internacional chamou os comunistas a “conduzir o grosso da massa operária mais oprimida e empobrecida ao combate contra a resistência da aristocracia operária”, a burguesia teceu mil novos fios na teia de subjugação da massa operária nas empresas, fez engordar toda uma camada intermédia que funciona como o típico moderador pequeno-burguês da revolta operária, que serve de amortecedor ao choque entre o proletariado e o patronato, faz-se passar por porta-voz dos trabalhadores, serve de medianeiro nas negociações, conduzindo-as às conciliações, corrompe a consciência dos operários, etc. Aumentam sem cessar as exigências que se colocam aos partidos comunistas para libertarem, no decurso da luta económica, a energia revolucionária da massa proletária do laço em que a estrangulam os auxiliares do patronato.

Perguntamos então: onde estão as nossas denúncias diárias, vivas, da exploração capitalista na empresa, da extorsão da mais-valia aos produtores? onde está feita a demarcação entre os interesses da massa proletária e os interesses dos quadros na empresa? onde está denunciado o parasitismo, os privilégios, do patronato e dos seus auxiliares? Por que é que não surgem na nossa imprensa cartas operárias relatando exemplos concretos de exploração capitalista, arbitrariedades e abusos da burguesia? Por que é que os nossos balanços das lutas reivindicativas são incapazes de mostrar, através do comportamento de cada camada no decurso da luta, os interesses de classe em confronto na empresa? Por que é que não aproveitamos “os clarões de consciência política que a luta económica faz penetrar no espírito dos operários” (Lenine, tomo 5, pág. 425) para pôr em causa continuamente e frontalmente o direito da burguesia à propriedade privada?

A verdade é que a voz da revolta dos explorados contra os exploradores soa muito fraca no nosso Partido. O “vigor proletário revolucionário” vai passando pouco a pouco da vida real para as frases das resoluções. A orientação do 2° Congresso para voltar o Partido para “as camadas mais exploradas e por isso mais combativas do proletariado” (p. 75), como condição para lhe dar uma sólida base de classe, caiu no esquecimento. Na linguagem do Partido deixa de palpitar o sofrimento e o desejo de mudança dos pobres. A sensibilidade vai-se perdendo, a ponto de misturar a cada passo as lutas dos assalariados com as dos professores, funcionários e bancários, porque todas são “lutas por melhores condições de vida”.

Chega-se ao ponto de, numa recente Folha contra a carestia, triste papel que nos envergonha, se juntarem lado a lado as queixas de uma operária que ganha 8 contos com as de um técnico que diz que 40 contos não lhe chegam. Deve sair daí boa luta contra a carestia! Porquê esta camada de cinza que vai abafando o pulsar do espírito proletário revolucionário? Porque se deu lugar no CC a conceitos obscuros, que consideram “obreirismo estreito” e “anarco-sindicalismo” a expressão viva do antagonismo dos produtores contra os parasitas. Por que se instala uma deformação no marxismo, já em tempos introduzida no antigo PCP, que canaliza o protesto dos explorados de forma a pôr em causa a política de um ou outro governo e não o regime capitalista no seu todo? Porque se infiltra a ideia de que a luta económica do proletariado não deve afectar nem denunciar os privilégios dos sectores intermédios para não prejudicar a “unidade dos trabalhadores”.

Uma teia invisível está a envolver a política do Partido na frente económica e sindical: a lenta ascensão dos pontos de vista dos operários especializados, do funcionalismo e sectores intermédios, a quem apenas interessa vender a sua força de trabalho em melhores condições e não dar à luta económica um cunho explosivo, porque os seus interesses de classe apontam para reformas no sistema e não para a revolução.

A política sindical do Partido está a ser degradada pela mesma atitude que se revela em todos os terrenos da nossa actividade a desconfiança e a aversão ao espírito operário revolucionário, alcunhado de “radicalismo”, a desistência da hegemonia do proletariado, a obsessão centrista por harmonizar e meter no mesmo saco o proletariado, as camadas intermédias e a pequena burguesia, a recusa a compreender que uma aliança entre estas forças ou é forjada sob impulso da luta operária revolucionária ou se torna um instrumento de subjugação do proletariado à burguesia.

Tribuna do Congresso nº 10, 6 Nov 1982 (boletim interno de debate para o 4º Congresso do PC(R)

 

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