Devem os operários apropriar-se da luta política?

Francisco Martins Rodrigues

Se há um aspecto em que se pode já falar de avanços neste 4º Congresso, é o aparecimento em primeiro plano da questão da hegemonia do proletariado e em particular das relações políticas entre a classe operária e a pequena burguesia. É nesta questão, até hoje oculta, que se tem que procurar a raiz da crise política, ideológica e organizativa do Partido. Devemos levar até ao fim sem medo a discussão sobre este assunto.

Como as minhas opiniões têm sido largamente comentadas nas páginas da Tribuna, acho que não será descabido responder aqui aos argumentos de alguns camaradas, e nomeadamente do camarada Raul.

Antes de mais, quero dizer que considero muito negativos os pontos de vista de diversos camaradas operários que se opõem a uma crítica de fundo à linha do 2º e 3º Congressos, para evitar maiores abalos ao Partido. Receosos de enfrentar um debate que a vida nos impôs, esses camaradas tentam explicar tudo por fenómenos derivados, como é o demissionismo (Paulo, Margem Sul) ou voltam-se contra os “carolas” que querem pôr tudo em causa (Merca, Margem Sul), na TC n° 7. A estes camaradas interessa mais a estabilidade do Partido do que saber se estamos a seguir um caminho errado. Não tenho dúvidas em afirmar que é uma atitude imprópria de operários marxistas-leninistas. O camarada Figueiredo (também da Margem Sul, também na TC 7) chega ao ponto de dizer que não é preciso andarmos à procura de um “abstracto” caminho para a revolução: basta chamarmos os operários comunistas para a cabeça do Partido. — E esses operários comunistas irão aplicar que política, camarada Figueiredo?

A verdade é que pontos de vista destes não são raros, retratam a despolitização das fileiras do Partido alarmemente sobretudo nos camaradas operários. É preciso reconhecê-la, em vez de dizer, como faz o camarada Miguel (TC 6) que “na 3ª Conferência a classe operária estava a lutar contra a direita”. Não, não esteve, camarada Miguel. A verdade é que os militantes operários têm tido um papel cada vez mais apagado e inseguro na luta interna do Partido e mostraram nula vigilância de classe na fase final do 3º Congresso. Se ainda fossem necessárias mais provas de que o Partido não tem seguido uma política de hegemonia do proletariado, esta despolitização e flutuação política da massa operária do Partido ai está para o confirmar. A lógica do camarada Raul é desnorteante. Diz ele na TC 7: é certo que o FMR põe o dedo na ferida ao criticar o 2° Congresso por não ter salientado a subordinação política do proletariado em 1974-75: é certo que o Partido devia ter definido como tarefa principal a conquista da independência política da classe operária em vez de se dispersar por mil e uma frentes. Tudo isto é certo. Mas… o camarada Raul passa adiante, como se isto fosse uma questão secundária!

Mas, camarada Raul, se concordas em que o Partido se desviou da sua tarefa central, não te sentes obrigado a dizer mais nada como dirigente do Partido? Não propões medidas para pormos fim a esta falta intolerável? Ou achas que essas medidas consistem em dizermos mais uma vez que as empresas de mais de 500 operários são os centros nervosos da luta de classes e deixarmos tudo continuar na mesma?

O camarada Raul está tão cego pela aversão que sente à minha visão “estreita, esquemática e esquerdista” da hegemonia do proletariado, que antes prefere que tudo continue na mesma do que correr o risco de uma mudança. Vamos então ver onde está o meu esquerdismo.

Teve razão o 3º Congresso ao apontar à classe operária o caminho da “defesa das reivindicações políticas gerais das forças populares e democráticas”? Ou devemos antes conduzir a luta da classe operária pelas “suas próprias reivindicações políticas, em demarcação aberta com todos os sectores da pequena-burguesia”, como defendo na minha carta? Esta é de facto a questão de fundo levantada pelo camarada Raul na TC 7 e que é preciso esclarecer. Tentemos ver a diferença entre uma coisa e outra na prática. Quando certos sectores da pequena burguesia lutam contra a política de austeridade e repressão do governo AD, tem essa sua luta um objectivo revolucionário? É preciso dizer claramente que não. A pequena burguesia imprime a essa luta um cunho reformista. Visa liberalizar o regime mas não derrubá-lo. Receia esse derrubamento. Receia uma nova crise revolucionária.

Ora, esta atitude está no campo oposto ao da classe operária, à qual interessa fazer cair não apenas a AD mas o regime, aproveitar a fundo uma nova crise revolucionária que se desenha no horizonte, avançar para a revolução.

Portanto, o nosso Partido ­­­­­deve actuar de maneira que ajude a classe operá­­­ria a apropriar-se da luta contra a AD (e das lutas contra a exploração capitalista, contra a NATO. CEE. etc. como lutas suas, operárias, que servem a sua estratégia revolucionária. Se não o fizer, não terá independência.

Vejamos o exemplo recente da Conferência das Liberdades. Ninguém duvida de que fizemos uma iniciativa ao serviço das “reivindicações gerais das forças populares e democráticas, palavras de ordem moderadas que não saem do quadro do regime, papel destacado de sectores intelectuais, papel auxiliar dos operários.

Por que não fizemos dessa Conferência uma iniciativa política da classe operária, colocando a luta pelas liberdades sob uma perspectiva revolucionária, entregando-as às delegações de fábricas, fazendo ouvir a voz dos operários na política, aproveitando os democratas pequeno-burgueses apenas como auxiliares? Não o fizemos porque a nossa política igualiza os interesses da classe operária aos da pequena burguesia sob um véu “popular e democrático” E é isso que o camarada Raul defende.

Tribuna do Congresso nº 9, 1 Nov 1982 (boletim interno de debate para o 4º Congresso do PC(R)

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