Lições da crise

Francisco Martins Rodrigues

 Declarando nos informes que a nossa linha táctica geral é justa, o CC está a tentar afastar do debate do 4° Congresso as questões de fundo da táctica: as lições da crise e o caminho do 25 de Abril do povo. Mas são precisamente essas que é mais urgente discutir. O Partido não aguenta mais 3 anos de flutuações e confusão táctica se se insistir na utopia do “25 de Abril do povo” .

Falamos das lições da crise. Na carta que em Abril entreguei ao CC (a propósito: o CC já decidiu se vai levar ou não essa carta ao conhecimento do Partido neste processo do Congresso? Ou está à espera de que o assunto morra por si com o correr dos meses?), fiz uma crítica às lições da crise tiradas pelo 2º Congresso.

Afirmei nessa carta que a tese do 25 de Abril como uma “luta entre duas vias, a da burguesia e a do povo” foi uma maneira de o Congresso esconder que na chamada “via do povo” estiveram enlaçados do princípio ao fim dois caminhos políticos divergentes: o do proletariado revolucionário, impo tente por ainda não se atrever a lutar pelo poder, e o da democracia pequeno burguesa, oportunista, sabotadora da revolução. Afirmei que o 2º Congresso, ao maravilhar-se perante a profundidade da crise e das suas conquistas, passando para segundo plano a subordinação do proletariado ao reformismo e ao caudilhismo militar, apagou o traço central — a lição principal: a pequena burguesia aproveitou-se da menoridade política da classe operária para empalmar e fazer abortar a crise. Afirmei que o 2° Congresso foi dominado pelo receio oportunista de que uma análise crua de classe nos isolasse da pequena burguesia e por isso envolveu numa bruma “democrático-revolucionária” a conduta de cada classe no campo popular, justamente aquilo que mais importava clarificar para a educação revolucionária do proletariado, para o libertar de ilusões.

Afirmei que, devido a esta visão deturpada da crise, o Partido entrou desarmado no período de refluxo, ficou incapacitado para o enfrentar e abriu as portas à pene tração da ideologia peque no-burguesa que o vem fazendo definhar. A fonte da conciliação reinante no Par tido está no espirito de compromisso com que o 2° Congresso analisou a cri se revolucionária.

Até agora, só ouvi duas contestações a este ponto de vista. Na 32ª Reunião Plenária do CC, em Junho, o ex-camarada Ama deu acusou-me de encarar a crise “com mentalidade de velho do Restelo, sem confiança no movimento popular”. É uma acusação muito interessante porque espelha a atitude usual do oportunismo, de cada vez que se trata de despertar a vigilância de classe do proletariado: “Para quê essa desconfiança sectária? Temos ou não confiança nas capacidades do movimento popular?” etc., etc. É típico dos oportunistas passarem do mais negro pessimismo quanto à possibilidade de acções revolucionárias independentes do proletariado para o mais “arrojado” optimismo, logo que se trate de acções vantajosas para a pequena-burguesia. A defesa da “via do povo” por Amadeu ajuda a perceber o fundo oportunista dessa ideia, é a melhor confirmação da justeza da minha crítica.

A outra contestação veio do camarada Luís Costa, na mesma reunião do CC. Lendo algumas passagens da resolução do 2º Congresso, tentou convencer os presentes de que as minhas críticas não tinham funda mento. Se o camarada tivesse dado a ler aos presentes também a minha carta, teria evitado iludir-se e iludir os outros. É claro que o 2° Congresso fala na vacilação da pequena-burguesia, na tutela política do MFA, na falta de direcção operária. Mas tudo isso é diluído no “Abril do povo”, numa versão embelezada da crise que apresenta a classe operária como “a força decisiva e condutora da revolução” (?!) e cala esta verdade elementar: a pequena-burguesia não podia ser revolucionária, porque isso implicaria a destruição do aparelho de Estado fascista e ela precisava desse aparelho para se defender dos operários. É preciso dizer abertamente que o 2° Congresso olhou a crise revolucionária com olhos centristas.

Se o 2° Congresso não estivesse tolhido pelo medo de desagradar à pequena-burguesia, teria sabido mostrar como o ascenso do movimento operário foi frustrado com o estratagema da “via socialista” pela aliança Povo-MFA, teria mostrado que a pequena-burguesia aprisionou as conquistas populares no quadro da legalidade para lhes roubar o gume ameaçador, interpôs-se sempre entre os trabalhadores e a reacção para impedir um ajuste de contas radical, que teria sido, esse sim, o verdadeiro começo de uma verdadeira revolução.

Se o 2º Congresso não estivesse dominado pela preocupação de arredondar as arestas da luta de classes no campo popular, teria dito sem meias tintas que a oposição democrática deu o capitalismo como moribundo para o salvar, funcionando como última trincheira do regime burguês em crise, criou as condições favoráveis para o reagrupamento e a contra-ofensiva reaccionária do 25 de Novembro.

Se o 2º Congresso se atrevesse a olhar a crise pela perspectiva leninista da hegemonia do proletariado, teria sabido dizer que a “revolução dos cravos”, esse fenómeno nunca visto que passou Portugal do fascismo à “via socialista” e desta à restauração novembrista, sem ser disparado um tiro, sem um único choque violento, sem convulsões sociais agudas, foi uma gigantesca mistificação das massas, ficou como exemplo de alcance internacional da cumplicidade que une nos momentos críticos os diversos sectores da burguesia por cima das suas rivalidades, num objectivo comum de barrar o caminho à revolução operária e popular (Portugal, Irão, Nicarágua, etc.).

Se o 2° Congresso tivesse dado o balanço final da crise à luz dos nossos deveres revolucionários, teria desencadeado um grande trabalho de explicação para dar consciência ao proletariado e semiproletariado de que tinham sido comidos pela manobra de recuperação pequeno-burguesa de fachada ‘‘revolucionária”. Teria dito sem rodeios aos operários: “Como não tivemos maturidade para disputar a direcção à pequena-burguesia, esta pôde transformar a revolução que nascia numa comédia revolucionária, à nossa custa Para quê voltar a esta questão? Que diferença faz na prática? É a diferença entre a nossa política actual, assente na busca de um compromisso proletariado-pequena-burguesia, e a política que deveríamos ter, de concentração de esforços na classe operária para a impor como chefe incontestado das forças populares. É a diferença entre o “caminho do 25 de Abril do povo”, que nos conduz à paralisia e o caminho operário revolucionário, único que nos levará à vitória.

Não há qualquer exagero em dizer que, da atitude que tomámos perante a crise revolucionária de 1974-75, derivam dois caminhos opostos para o nosso Partido. E bom que tomemos consciência disso antes que nos afundemos sem remédio no caminho errado, oportunista. Adoptar no 4° Congresso uma resolução realmente marxista-leninista sobre a crise revolucionária é o primeiro passo para a necessária rectificação. Se o CC receia fazê-lo, é preciso que o Partido o imponha.

Tribuna do Congresso nº 4, 25 Set 1982 (boletim para o 4º Congresso do PC(R)

 

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