Autocrítica ou anticrítica?

Francisco Martins Rodrigues

Será que vamos ter finalmente um congresso de vitória sobre a corrente oportunista que tem vindo a envolver o nosso Partido e o mergulhou numa grave crise? Os militantes menos informados sobre a evolução da luta interna talvez assim pensem à primeira vista, em face da linguagem radical dos informes do CC e da campanha em curso contra o golpe cisionista do grupo Melro. Mas é uma ideia falsa. Porquê?

Porque é impossível qualquer rectificação dos erros cometidos na acção política, no trabalho sindical, na edificação do Partido, na intervenção na UDP, etc., sem explicar o que aconteceu no 3º Congresso e como se formou o grupo Melro logo a seguir ao grupo Ricardo. Ora, os informes não explicam nada. Pelo contrário, escondem. E senão vejamos.

Diz-se nos informes que o 3º Congresso “foi o ponto alto de uma intensa luta ideológica contra o oportunismo”, Para quê esta fábula em que ninguém acredita? Para calar o acordo negociado na 8ª reunião plenária do CC, de Junho de 1978, quando o CC recuou na distribuição da crítica a Ricardo a troco de este se comprometer a não avançar com a sua fracção. Para calar que, devido a este compromisso, o CC ficou paralisado e desorientado, não fez nenhuma luta ideológica contra as posições de Ricardo e deixou-lhe as mãos livres para organizar a fracção, tomar de assalto o jornal de massas e dar um duro golpe no Partido. Para calar que os militantes que mais vigilância manifestaram contra estes manejos foram injustamente combatidos e isolados. Isto são factos. Quantos anos mais será preciso esperar para os ver reconhecidos?

Diz-se nos informes que o 3º Congresso errou nos alvos da luta ideológica por não ter visto que o oportunismo ia para além do grupo Ricardo. À primeira vista, isto parece uma autocrítica. Mas cala-se que a maioria das conferências regionais e dos delegados eleitos, 15 dias antes do Congresso já tinha visto a necessidade de concentrar o fogo sobre o oportunismo e a conciliação. Cala-se que, num estranho golpe de teatro, foi convocada uma reunião do CC às vésperas do Congresso, reunião na qual o ex-camarada Melro e o camarada Raul tiveram um papel destacado, conseguindo no meio da maior confusão que se virasse o alvo contra a “nefasta tradição sectária e espontaneista” e contra o “esquerdismo”. Cala-se que, na sequência desta reunião, foram convocadas reuniões de emergência com os delegados eleitos e outros quadros do Partido, para os convencer a alinhar com esta guinada, a poucos dias da reunião do plenário do Congresso. (Reuniões tão ilegais à face do regulamento do Congresso que até hoje não apareceram referidas em nenhum documento do Partido). Cala-se que esta manobra obscura paralisou a luta contra o oportunismo, que mal começara, e projectou para um lugar destacado no CC precisamente os elementos com mais marcadas posições oportunistas, como Melro, Amadeu e Ventura. Depois disto, insistirem dizer que o 3º Congresso “não detectou”, o que é senão encobrir os factos?

Diz-se nos informes que a 2ª Conferência errou por ter concentrado a crítica sobre certas ideias sectárias que não eram na altura o perigo principal. Isto também soa a uma autocrítica. Mas serve para calar que essas ideias “sectárias” consistiram em eu ter aí dito aquilo que o CC agora começa a dizer: que os alvos do 3º Congresso estavam errados, que Ricardo fora apenas a ponta do icebergue direitista mergulhado no corpo do Partido, que se estava a cair no oportunismo eleitoralista, que alastrava de forma alarmante o liberalismo e a dissolução organizativa. Serve para calar que os camaradas José Alves, Frederico Carvalho, Carlos Marques, etc., ao fazer coro com Melro, que aí encabeçou o ataque ao “sectarismo”, apadrinharam nessa Conferência o lançamento da segunda corrente de direita no PC(R). Para quê esconder estes factos com o bode expiatório do “sectarismo”?

Diz-se nos informes que a 3ª Conferência “travou um combate frontal contra as posições de direita”. Mas cala-se que nessa Conferência a maioria do CC, apesar da polémica que travou com a ala direitista, aliou-se a ela para impedir a aprovação da moção da Comissão de Educação, na qual se alertava contra a formação da nova tendência de direita e contra o centrismo conciliador, se denunciava a orientação liberal do “novo curso bolchevique”, se propunha uma verificação geral de membros, etc. Cala-se que, por ter levantado nesta Conferência a bandeira da defesa do Partido contra a maré oportunista, a Comissão de Educação foi paralisada, isolada e posteriormente dissolvida. Cala-se que, logo a seguir à Conferência, a maioria do CC, tentando “ganhar” os elementos oportunistas, pôs uma pedra sobre a prometida crítica às suas posições, e não tomou medidas para os isolar politicamente e levar as organizações e destituí-los dos cargos que exerciam. Cala-se que, devido a esta conciliação, o CC e o CE estiveram politicamente paralisados durante longos meses, criando condições propícias para o alastramento da fracção.

Casos semelhantes a estes, não há militante que não possa citá-los, na frente sindical, no trabalho eleitoral e na UDP, na política organizativa e de quadros, na agitação e propaganda, nas finanças, etc. Ao silenciá-los, o CC falseia totalmente o balanço da sua actividade, esconde ao Partido a raiz dos erros, incapacita-o para a rectificação que se impõe. É forçoso perguntar: que segredos andam vocês a esconder do Partido, camaradas do CC? Porque teimam em encobrir-se uns aos outros, em vez de reconhecer os erros diante do Partido que vos elegeu? Porque Insistem em criar uma confusão desgraçada, que está já a lançar as sementes da terceira corrente oportunista no PC(R)?

Dois argumentos estão a ser usados para desviar as atenções do fundo da questão. Consiste o primeiro em dizer que o mais importante agora é unir o Partido na crítica às teses oportunistas de Melro e Amadeu. Parece um argumento de esquerda mas é uma escapatória. Era antes que importava fazer essa crítica! Agora que os direitistas já golpearam o Partido, o centro da luta contra o oportunismo deslocou-se para outra questão: como nasceu o grupo de Melro? Quem o amamentou? Quem lhe fez a cama, atacando aqueles que defendiam o Partido? Por que alimenta a nossa política uma corrente contínua de direita?

Consiste o segundo argumento em dizer que as críticas ao CC visam “desautorizar” o núcleo dirigente quando estamos a braços com o abalo causado pelo golpe liquidador de Melro, visam “decapitar” o Partido, etc. É outra desculpa de mau pagador. Dizer toda a verdade, reconhecer os erros, acabar com as desculpas e manobras de diversão, é a única hipótese do CC recuperar a clareza revolucionária que perdeu, reganhar a confiança do Partido, salvar o Partido de novos desastres.

Devemos por isso rejeitar o balanço de actividade do CC e exigir uma verdadeira autocrítica, sem o qual a actual “luta contra o oportunismo” não passará de um engano. Dar provas de espírito de Partido é neste momento exigir a autocrítica do CC, sem nos deixarmos confundir pelo clima intimidatório e pelas acusações de “criticismo anarquizante” que estão a surgir aqui e além. Sem autocrítica colectiva e individual não haverá rectificação nem viragem, nem intervenção política independente da classe operária, nem células bolchevizadas nas grandes empresas, nem desencadeamento das energias  revolucionárias do Partido, mas apenas um enganoso compasso de espera no fatal deslizar do nosso Partido para a direita. Não podemos consenti-lo!

Tribuna do Congresso nº 3, 11 Set 1982

(boletim para o 4º Congresso do PC(R)

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