Vida soviética

Francisco Martins Rodrigues

VIDA SOVIÉTICA. Março/86. Publicação da Agência Novosti. Revista de propaganda, a sua leitura é útil, pelo retrato involuntariamente cruel que traça do “modo de vida soviético”.

Com efeito, a acreditar no panorama que nos é oferecido nos comentários, reportagens e entrevistas, a URSS seria uma sociedade idílica, onde as pessoas trabalham alegremente por terem os problemas essenciais resolvidos. Mas os redactores não pensaram decerto sobre as revelações contidas nas suas omissões.

Entretém o leitor com bagatelas, como a ementa dos astronautas, as passagens de modelos, a exploração dos vulcões, esmagam-no com a imagem dos estaleiros grandiosos, e não têm nada para contar sobre as relações de trabalho, a política interna, a vida diária real dos trabalhadores soviéticos. Parecem dizer tudo, não dizem nada.

O presidente da Associação de Juristas Soviéticos, por exemplo, declara em conferência de imprensa que os direitos humanos são escrupulosamente respeitados. Só não explica como é que a “igualdade dos cidadãos” funciona com um leque salarial que vai de 1 a 20 e com a inexistência de debate político.

Tome-se a situação da mulher, em destaque neste número. Procura-se transmitir a ideia de que a sua emancipação está assegurada e de que a vida familiar é estável e harmoniosa. A alta taxa de divórcios seria devida apenas à “imaturidade” dos jovens casais. Apercebemo-nos porém de que, segundo as estatísticas, em metade das famílias são as mulheres que tratam sozinhas da lida da casa (e na outra metade cabe-lhes, claro, o peso principal). Inquéritos oficiais confirmam que a mulher trabalha mais do que o homem e calculam mesmo uma percentagem para esse sobretrabalho (16%). Mulheres entrevistadas declaram que as suas oportunidades de qualificação profissional são inferiores às dos homens. Conclusão tranquilizadora: os homens têm ainda certas “barreiras psicológicas” que passarão com o tempo… Acerca do alcoolismo e da violência sobre as mulheres, naturalmente, nem uma palavra; assuntos escabrosos não têm aqui lugar. De resto, sobre esta questão da mulher, não há como transcrever dois testemunhos, eloquentes na sua ingenuidade. A presidente do kolkhoz de Jdanovo, na Ucrânia, declara, em grande plano: “Cá em casa o “presidente V o meu marido”. Mais adiante, o director de uma exploração pecuária revela com finura o seu segredo para uma boa produtividade: “Se as ordenhadeiras andarem penteadas à moda, ficam mais felizes, trabalham melhor, as vacas dão mais leite. Como vê, o penteado é muito importante”. Sem comentários…

O mesmo cinismo inocente no que toca à política externa. As novas propostas de Gorbatchov para o desarmamento, apresentadas em Janeiro, ocupam lugar de honra e não faltam os depoimentos de políticos e homens de ciência ocidentais a louvá-las. O leitor bem-intencionado pode deixar-se seduzir pelo programa minucioso que lhe é oferecido para a “liquidação das armas nucleares até ao ano 2000”. Surge, porém, no fim a interrogação: é com exortações de personalidades que se convencem os Estados Unidos a desarmar? Porque não apoia a URSS a luta do proletariado para derrubar a burguesia e liquidar o imperialismo? Gorbatchov acredita na viabilidade das suas propostas ou tudo isto é um jogo de pressão para chegar a um equilíbrio do terror menos dispendioso com os EUA?

Para convencer de que nada se esconde, também o problema do Afeganistão não é esquecido. Ficamos a saber que estão a ser dados “passos audazes” para a “correcção dos erros cometidos nos primeiros anos da Revolução”. Os erros, deduzimos do texto, resultaram do radicalismo da Reforma Agrária. Os “passos audazes” são a inclusão no Conselho da Revolução de um grande comerciante, um sacerdote e um chefe tradicional. Assim se espera pôr termo à guerra civil, dada a inoperância da intervenção militar soviética.

As contradições da sociedade soviética são muito diferentes das que se manifestam no capitalismo ocidental. Alguns querem ver nisso um sinal de “socialismo”. Enganam-se. O socialismo não é compatível com estas mentiras cor-de-rosa, com esta pequenez de espírito institucionalizada. A emancipação real da classe operária tem que produzir algo de muito mais avançado e verdadeiro.

Política Operária n.º 4, Março-Abril, 1986

 

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