A fuga de Peniche

Francisco Martins Rodrigues

 Um belo dia de Agosto, em 1958, andávamos nós a passear na Sala 2A do Aljube, conversando e filosofando, quase às escuras, que a sala dava para o beco, quando a porta se abriu de rompante e o guarda diz para mim e para o Chico Miguel: “Preparem as suas coisas para abandonar a cadeia”. Já sabíamos o que aquilo queria dizer: iam levar-nos para Peniche. Eu acabava de ser condenado a três anos e medidas de segurança, ele terminara mais um castigo e ia continuar a sua pena eterna – nessa altura já tinha uns 18 ou 19 anos de cadeia.

Fizemos a nossa trouxa, despedimo-nos dos companheiros e aí fomos nós, pela escada abaixo, radiantes pela mudança. Para um preso condenado qualquer novidade é uma festa. Iríamos encontrar novos camaradas, ter recreio ao ar livre, coisa que no Aljube não existia, conhecer um rancho diferente, o que para um preso também não é nada de desprezar… Mal sabíamos nós que daí a ano e meio estaríamos em liberdade.

A viagem no carro celular da PIDE foi tormentosa. Fechados, sem ver nada para o exterior, com dois pides ao nosso lado a dizer chalaças, nós proibidos de falar um com o outro, a estrada às voltas e mais voltas, o cheiro a gasolina… Às tantas, o Chico Miguel começou a sentir-se agoniado, pediu para fazerem uma paragem, para respirar um pouco de ar livre. Um dos pides falou pelo ralo para o chefe de brigada, que ia ao lado do motorista, mas ele não lhe ligou nenhuma: “Segue!” Não tardou que o Chico começasse a vomitar ali dentro e aí os pides ficaram em pânico: “Chefe, o gajo está a vomitar, isto não se aguenta!”. Lá tiveram que parar num descampado. Foi uma cerimónia dos diabos primeiro que abrissem a porta, saíssem os dois pides, se pusessem os três de roda da carrinha, de pistolas em punho: “Sai, mas se te armas em esperto meto-te já uma bala na cabeça”. O chefe de brigada estava cheio de nervos e tinha boas razões para isso. Não por mim, que era novato naquelas andanças, mas pelo Chico Miguel. Fraca figura, quem o via não dava nada por ele mas já tinha duas evasões no activo, uma de Caxias, outra de Peniche, e estava sempre à espreita de uma oportunidade. Lá saímos, o Chico Miguel amarelo, a cambalear, e ali ficámos uns cinco minutos na beira da estrada, com os pides à nossa volta, olhando para todo o lado, receosos de qualquer mau encontro. “Vá, vamos embora!” Limparam o chão do carro com uns jornais e aí vamos nós a caminho de Peniche. A última parte da viagem não custou tanto, entrava pelas frestas uma brisa marinha que nos reanimava. Era uma das atracções de Peniche, comentada com inveja pelos presos do Aljube e Caxias: o cheiro da maresia, o vento que entrava por todo o lado, a pancada atroadora das vagas a bater no molhe em dias de temporal. Não tinha comparação com as celas soturnas, bafientas, do Aljube.

E assim entrámos triunfalmente no pátio do forte, ao fim da tarde, e lá fomos ser inscritos na secretaria.

 Pavilhão C

 Fizemos parte da leva que foi estrear o pavilhão C. Por estranho que pareça, o Tribunal Plenário condenava-nos a “prisão maior celular” mas ainda não havia nessa altura instalações com celas para cumprimento de pena. Os presos ficavam a monte numas velhas camaratas. A tradicional falta de verbas fez com que só em finais dos anos 50 estivesse pronta a primeira ala da nova prisão. Salazar deve ter rezado em acção de graças por mais esta obra do seu regime.

Consistia então o pavilhão C de um corredor para que abriam dez celas individuais, com um refeitório numa das extremidades, e, na outra, um pequeno corredor transversal que dava acesso a outras três celas mais espaçosas. O mobiliário, verdadeiramente luxuoso, consistia num catre e respectivas mantas, uma mesinha, uma cadeira e um balde com uma tampa, para as necessidades, porque tudo tinha que se fazer ali dentro. Dum lado a porta chapeada, do outro as grades da ordem. A janela pregada e com as vidraças pintadas, para não podermos espreitar para fora, só uma fresta em cima dava entrada ao ar. Pode parecer ironia, mas as paredes caiadas de fresco, a luz, o chão de cimento, a cadeira, faziam um contraste tão grande com as sórdidas e mal cheirosas instalações do Aljube que me senti ali como um príncipe.

Mas a pouco e pouco entrava-se no espírito do lugar e percebia-se que aquilo não era uma colónia de férias. Primeiro, pelo isolamento. Cada preso passava a maior parte do tempo sozinho consigo próprio e sem nada para fazer. Proibido deitar sobre a cama: o guarda encarregava-se de vigiar pelo ralo se a ordem era cumprida. Só restava marchar para trás e para diante. Tratava-se de “regenerar para a vida honesta” os presos políticos, dados oficialmente como “vadios”, segundo os altos princípios jesuíticos inventados nos anos 30 por um ministro da Justiça de Salazar.

Para tudo e para nada, havia um sistema de apitos estridentes e disciplinadores. Apito. Cada preso põe-se em sentido na sua cela, voltado para a porta. O guarda abre as portas, uma a uma, com grande estrondo de ferrolhos. Apito. Cada preso sai da cela e forma no corredor. Apito. Os presos marcham pelo corredor, em silêncio, até ao refeitório, parando em volta das mesas, nos lugares previamente estabelecidos. Apito. “Podem sentar”. “Chefe de sala, pode servir”. Comia-se em silêncio total. Quando acabava o comer, repetia-se a mesma cerimónia, apitos e mais apitos. Via-se que aquele regulamento tinha sido estudado com amor por algum burocrata num filme americano.

Depressa aprendíamos a distinguir os guardas “bons” dos maus: os “bons” apitavam normalmente, os sádicos perfuravam-nos os tímpanos. Parece pouco, mas para quem está a cumprir pena faz a sua diferença.

Tínhamos direito a leitura, mas racionada. O jornal diário, um único para todo o piso – começava pela primeira cela, depois o guarda passava-o para a segunda cela, e assim sucessivamente – o último lia as notícias pelo meio da tarde. Quanto a livros, eram racionadíssimos: romances sem conotações “subversivas” e livros de estudo trazidos pela família, não mais de dois de cada vez. Iam à censura do minucioso e bronco chefe dos guardas, que os rejeitava por dá cá aquela palha. Assim foi recusado um livro brasileiro de engenharia, “Manual de Concreto Armado”, título mais que suspeito. Como a história de Portugal era matéria autorizada, meti-me a estudar o período da perda da independência. Não tardou muito, já estava enfronhado nas intrigas da corte do louco Sebastião, do cardeal D. Henrique e da rainha Catarina… Passavam-se as horas sem dar por isso. O que era exasperante era a revista aos papéis quando íamos ao recreio. O guarda entrava nas celas, pegava num molho de papéis, ao acaso, levava-os para exame, e o chefe dos guardas, se achava que estava na altura de chatear o preso, confiscava-os, com um pretexto qualquer ou sem pretexto nenhum, e lá iam por água abaixo meses de estudo. Recomeçava-se, pois que remédio? Uma coisa de que o preso não tem falta é de tempo.

Tínhamos quatro ocasiões diárias de ver os companheiros das outras celas: às três refeições e ao recreio. As refeições, como já disse, eram uma tortura. Não tanto pelo arroz de safio cheio de espinhas, que era a receita quase diária, como pela presença odiosa do guarda em cima de nós. O recreio, sim, num pátio, só dava para ver o céu, mas só o ar livre já era uma festa. Lá andávamos em grupos, a conversar, com as gaivotas a grasnar por cima das nossas cabeças, e o guarda, às vezes reforçado por mais outro colega, a caminhar pelo meio de nós para ouvir tudo o que dizíamos. Era o regulamento. Se o guarda achava que algum preso transgredia, mandava recolher tudo às celas. Se começava a chover, tudo para as celas.

Havia ainda uma espécie de bónus, descascar batatas para a cozinha e, às vezes, carregar lenha numa carrinha. (O trabalho da cozinha era feito por presos comuns, com muitos cuidados para que nunca tivéssemos contacto). Era o único “trabalho honesto” que os presos políticos aceitavam fazer, porque nos permitia algum exercício e tomar ar. Se o guarda não era dos piores, podia-se estar três quartos de hora de roda de uma celha a descascar batatas e a falar disto ou daquilo, conversas inócuas, porque a “política” era estritamente proibida e muita coisa ali cabia na classificação de “política” – até o Napoleão ou o Alexandre Herculano era “político”. Ia longe o tempo em que o forte de Peniche era a “universidade” dos comunistas, todos juntos nas camaratas, a organizar as suas palestras e debates sem interferência dos guardas.

E havia as visitas. Eu tinha visita uma vez por mês. Era um alvoroço mas uma tensão muito grande. Vinha a minha mãe ou a minha irmã, algumas vezes com o meu filho bebé (a minha companheira também estava presa), o vidro separador, nós a falar por umas frestas laterais, quase aos gritos, o guarda sempre em cima de nós, a interferir nas conversas, a ditar o que se podia ou não se podia falar e, ainda por cima, a fazer-se “humano” para dar boa impressão às famílias. Ao fim de dez minutos não tínhamos que dizer uns aos outros, ficávamos a olhar-nos em silêncio, à espera que o guarda mandasse recolher à cela. Aquela irrupção do mundo lá de fora deixava-me agitado, infeliz, porque interrompia o rame-rame adormecedor do dia-a-dia.

 Desgaste

 Com o correr dos meses entrava-se melhor na mecânica carcerária. Não lhes bastava impor-nos um regulamento rigoroso. Queriam fazer-nos sentir a prepotência do poder, obrigar-nos a pedir tudo por escrito, aplicar normas vexatórias para nos dobrar a vontade.

De modo que o preso, ou deixava correr, para não sofrer o tremendo desgaste emocional que acarretavam os conflitos com os carcereiros, e ia sendo empurrado para um corredor cada vez mais estreito de renúncia e apagamento, caía num estado quase vegetativo; ou reagia, respingava, e era marcado pelos guardas como “rebelde”, sofria um cerco de provocações e castigos (corte de correspondência, de visitas, de recreio…) que o conduziam ao esgotamento. No fim era sempre o sentimento de impotência total que se procurava incutir.

Isto não se fazia por mero sadismo. Os nossos mentores da PIDE acompanhavam a evolução do estado de espírito de cada preso, para tentar prever se ele retomaria a “vida honesta”, ou se voltaria para a actividade clandestina. Quando chegava o fim da pena, era a altura de ser ouvido para a aplicação das “medidas de segurança” (que todos os condenados a pena maior sistematicamente tinham, incluída na sentença). E aí vinha para cima da mesa toda a história prisional, os castigos sofridos, a opinião a seu respeito. Se o “currículo” não era bom, o juiz de execução de penas decretava o cumprimento de novo período de prisão. Ao fim desse período, pedia o preso novamente para ser ouvido, numa carta cheia de floreados, “Excelências” e “respeitosamente”, em que expunha que já tinha cumprido a sua pena, a família precisava do seu apoio, tencionava dedicar-se a uma actividade profissional, pelo que pedia, por especial favor, que o deixassem ir para casa. Aparecia na prisão o biltre do Ministério da Justiça. De novo o suplício: já estava preparado para “retomar a vida honesta”? Comprometia-se a não frequentar pessoas “de porte duvidoso”? Que emprego iria ocupar? Para onde iria viver? E estendia-lhe a proposta do compromisso assinado repudiando as doutrinas comunistas e as actividades passadas. O preso recusava assinar? Se as respostas não eram satisfatórias (e se a campanha no exterior pela sua libertação não era forte) podia ter como certa mais uma renovação das “medidas de segurança”, mais seis meses ou um ano de prisão. Alguns fizeram este calvário vários anos. Por muito que tentassem couraçar-se contra a incerteza, contra a humilhação daquelas provas arrasadoras, era um tremendo desgaste nervoso.

 Preparativos

 As coisas começaram a movimentar-se com a chegada ao pavilhão de Cunhal e, meses depois, creio que em meados de 1959, de vários dirigentes recentemente presos: Jaime Serra, Joaquim Gomes, Pedro Soares, Guilherme Carvalho. Era um lote de dirigentes, vários deles com experiência de evasões. A ideia de uma fuga deixava de ser só um sonho, podia tomar consistência.

Ficámos exultantes com a companhia de Cunhal. Se o punham junto connosco, depois de nove anos de isolamento na Penitenciária, a sua vida ficava mais defendida. E havia a aura de líder que o rodeava, que levava todos a ver-lhe qualidades fora do vulgar. Destinaram-lhe uma das celas maiores, autorizaram-no a ter muitos livros, a desenhar, não lhe roubavam os apontamentos. Foi ali que ele escreveu as “Lutas de classes na Idade Média” e o “Até amanhã, camaradas”. Quanto ao resto, ele cumpria as mesmas tarefas que nós.

Não falei de uma outra tarefa, a faxina. Diariamente, dois presos escolhidos por escala faziam a limpeza das instalações. Eu apreciava as faxinas com o Cunhal porque a sua mente sempre desperta ia buscar temas políticos para conversarmos enquanto varríamos.

Pode parecer contraditório, mas a vinda de Cunhal para o pavilhão C permitiu um abrandamento das condições prisionais que muito contribuiu para dar corpo ao plano de evasão. A campanha a favor de Álvaro Cunhal ganhara projecção internacional. Salazar, nessa época ansioso por conseguir aceitação na ONU e nos meios diplomáticos, tinha que fazer concessões. Iam longe os tempos do Tarrafal e da guerra de Espanha em que o ditador podia fazer quase tudo o que lhe apetecia.

Assim, em meados de 59 veio para a prisão um secretário nomeado pelo Ministério da Justiça (a cadeia tinha um director mas não contava para nada; era a PIDE que tradicionalmente governava a cadeia através do chefe dos guardas). Esta nomeação de uma autoridade exterior à PIDE e a intenção manifestada pelo novo secretário de ouvir as reivindicações dos presos indicavam que alguma coisa mudava na cadeia.

Passada a nossa primeira reacção de desconfiança perante a linguagem “humana” do secretário, concluímos que havia que explorar a dualidade de poderes dentro da cadeia. Em sucessivas audiências pedimos-lhe um aligeiramento do regime disciplinar, poder conversar durante as refeições e no recreio, menos interferência nas visitas, melhoria da alimentação; que não nos confiscassem os apontamentos. A primeira reacção, previsível, do chefe dos guardas foi um recrudescer dos castigos. Tinham que ser os presos a pagar o conflito de competências entre os carcereiros.

Mas, pouco a pouco, algumas melhorias se foram conseguindo, que permitiram começar a pensar a sério no plano de evasão. Foi tudo tratado muito secretamente entre a nossa direcção prisional (Cunhal, Serra, J. Gomes, creio) e a direcção do partido no exterior. Apesar de todas as vigilâncias, mensagens entravam e saíam. Sabíamos que alguma coisa estava a ser tratada mas não se falava nisso. Em Dezembro fui abordado pelo Cunhal no recreio: se o plano fosse avante, queria eu alinhar? Disse logo que sim. A minha pena já ia adiantada, mas depois havia as medidas de segurança, nunca se sabia quanto me faltava cumprir.

No Natal desse ano de 59, o secretário autorizou-nos um convívio especial à noite, em vez de sermos trancados nas celas depois do jantar. Em troca, propôs-nos, com pezinhos de lã, se não queríamos que um capelão das prisões nos viesse visitar, para nos dar uma pequena palestra…. Dispensámos a honra. O nosso convívio de Natal decorreu entre conversas corriqueiras, a disfarçar a agitação. Sabíamos que o plano estava pronto. O guarda da GNR que fora abordado no exterior e que aceitara dar-nos a fuga (mediante 150 contos) ia entrar de serviço em Peniche no início de Janeiro. Faltava só uma semana.

 A fuga

 O dia 3 Janeiro de 1960 começou normalmente no pavilhão C do forte de Peniche. Despejar os baldes, pequeno-almoço, almoço, recreio… As rotinas habituais. Mas mal disfarçávamos a expectativa ansiosa. A hora fora escolhida depois de uma observação aturada de meses. A seguir ao jantar, naquela época do ano já estava escuro e era quando o guarda ficava sozinho connosco no piso. O pavilhão, considerado de “alta segurança”, estava isolado dos restantes, o que facilitou a fuga. Mas nunca tínhamos garantias de que não acontecesse o imprevisto. Por qualquer razão imponderável, podia um guarda vir trazer uma ordem ao pavilhão e aí…

Pelas 7 horas da noite, acabado o jantar, o guarda Serrado apitou para nos levantarmos e regressar às celas. Em vez de se colocar ao fundo do corredor a observar a nossa entrada nas celas, como mandava o regulamento, vinha caminhando no meio de nós. Ultimamente, o abrandar das ordens rigorosas permitia coisas destas. Descuido imperdoável. De súbito, enrolou-se-lhe uma toalha no pescoço e, antes que pudesse gritar ou reagir, foi forçado a aspirar um pano embebido em clorofórmio. O frasco com clorofórmio fora passado nessa tarde para dentro de uma cela pela guarda republicano. Cunhal, cuidadoso de que nada desse lugar a acusações de violência escusada, providenciara uma peça metálica especial para evitar o enrolamento da língua, que o poderia sufocar. Ampararam-no na queda. Eu já estava a correr para as celas, a ajudar o Cunhal a tirar os lençóis das camas, amarrá-los uns aos outros…

Fechámos nas suas celas dos camaradas que tinham optado por não nos acompanhar. Fugir era escolher a clandestinidade e eles não a queriam: o Borges Coelho e os advogados Humberto Lopes, de Santarém, e Andrade, de Estarreja.

O guarda republicano, no seu passeio regulamentar, chegava junto da porta do piso. Lívido, viu a fila de presos agachados, à espera de vez: “Tantos? Então tinham-me dito que era só o Cunhal e o Chico Miguel! Estou desgraçado!”

Soube-se mais tarde que, em vésperas da fuga, o guarda, cabeça fraca, se aconselhara com um colega: tinham-lhe feito uma proposta, o que é que ele achava? E o outro tinha comentado em plena camarata, cheia de guardas republicanos: “Aqui o Zé Jorge, qualquer dia ainda vai ser um grande herói…” A coisa passou, ninguém mostrou curiosidade em saber porque é que ele iria ser um herói, mas o episódio caricato dá um retrato das debilidades do aparelho repressivo salazarista e também dos imponderáveis que podem deitar a perder a mais bem organizada evasão.

Assim, a um e um, lá nos fomos escapulindo para debaixo do capote do guarda republicano, já não me lembro por que ordem, o Álvaro Cunhal, o Francisco Miguel, Joaquim Gomes, Guilherme Carvalho, Jaime Serra, Pedro Soares, Carlos Costa, Rogério de Carvalho, José Carlos, e eu próprio. O guarda ia fazendo o seu passeio normalmente, para o outro o ver do seu posto. Chegava ao pé do torreão, no escuro, deixava sair o preso debaixo do capote, voltava, vinha buscar outro…

Descer pelos lençóis foi fácil, passar o fosso, que estava seco, saltar o muro exterior, caminhar na semi-escuridão do terreiro, já na rua… Sensação extraordinária, “estou mesmo a andar na rua?” Dos três carros, o que me cabia estava na rua da igreja, pertíssimo. Ele lá estava. Entrámos sem olhar para quem conduzia, uns vizinhos olham curiosos aquele movimento anormal, o carro arranca…

A mudança fora tão brusca, a distância que parecia intransponível entre a prisão e a liberdade fora franqueada tão facilmente que causava vertigens. Mas tínhamos que nos manter alerta, ainda se podia perder tudo. O carro saiu da vila, o Carlos Costa e o Chico Miguel, à espreita, de pistola em punho, prontos a abrir caminho à força se fosse preciso. À medida que avançamos a caminho de Lisboa, aumenta a euforia. Na passagem em Loures, onde havia um posto da polícia de trânsito, uma última precaução. Saímos do carro, fomos a pé pelas ruas laterais, voltámos a apanhá-lo mais adiante. Agora sim, instala-se a certeza: já ninguém nos vai deter. Soubemos depois que tinha falhado o corte dos fios telefónicos em Peniche.

Diz a história oficial que as operações foram dirigidas pelo Dias Lourenço e o Pires Jorge. Eu ia jurar que nesse dia tinha lá estado o Júlio Fogaça e que o seu nome só foi riscado por causa do que lhe aconteceu depois.

Liberdade?

 Calcula-se o choque dos guardas quando, às 9 da noite, foram render o colega e o encontraram amarrado e a dormir, com as portas das celas escancaradas. Descarregaram a fúria em cima dos três que tinham lá ficado. Por essa hora, estava eu a chegar a Lisboa. O carro deixou-me numa casa clandestina em Benfica, onde fui recebido pelo casal da casa e pelo “Montes”. Sem perda de tempo, meteram-me noutro carro, levaram-me para o meu destino, uma tipografia. As ordens eram para nos separarmos todos e nos mantermos escondidos, porque as polícias iam pôr-se em campo para recapturar os evadidos. Soubemos nos dias seguintes que as nossas fotografias foram distribuídas pelas esquadras de polícia em todo o país. Salazar ficara furioso pela inépcia dos carcereiros e queria a todo o custo apanhar algum de volta.

A minha vida em “liberdade”, por assim dizer, começou numa vivenda à Pontinha, onde com um casal e a sua filha de 12 anos fazíamos sem parar jornais e panfletos numa prensa manual. Para os vizinhos eu não podia existir, seria motivo de estranheza. Por isso, não podia pôr o nariz fora de casa, nem vir à janela, tinha que andar pela casa em meias, e falar baixinho. Foram 8 ou 9 meses de prisão rigorosa, bem mais rigorosa que a de Peniche, mas a produzir literatura contra os fascistas e a aperfeiçoar-me na arte de compositor-revisor-impressor, que já tinha iniciado uns anos antes. Que mais podia eu desejar?

Em fins desse ano voltei para tarefas organizativas, depois entrei em divergência com a direcção do partido, abandonei o PCP em Paris, voltei clandestino para Portugal, fui de novo preso, condenado a 19 anos e lá voltei para a mesma cadeia de Peniche. De lá saí novamente, pela porta desta vez, na madrugada de 27 de Abril de 1974.

 Esta história acaba com um pormenor caricato. Na visita comemorativa dos 25 anos da fuga, em 6 de Janeiro de 1985, perante uma centena de visitantes do Forte, agora transformado em museu da resistência, o orador do PCP mencionou, além do guarda republicano, os nomes de nove fugitivos, esclarecendo que houvera “mais um”, cujo nome não merecia ser referido porque era um “traidor”. Já em 1981, na grande exposição comemorativa dos 60 anos do PCP, no Pavilhão dos Desportos, lá vinham os nomes dos nove fugitivos seguidos por umas comprometidas reticências. Assim, em castigo do meu “esquerdismo”, fui apagado da evasão de Peniche durante umas boas décadas, até que os aparatchiks do PCP percebessem o ridículo da coisa e desistissem de querer corrigir a história.

Colecção 30 anos de Salazar, 2008

 

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