Perspectiva marxista da revolução

Francisco Martins Rodrigues

(notas inéditas)

 Ao tomar como referência a política stalinista, bloqueámos, durante décadas (não anos, mas décadas!) a resposta marxista revolucionária ao revisionismo que vinha gangrenando o movimento comunista.

Construímos uma corrente cujo “marxismo-leninismo” era um arremedo grosseiro, com as proclamações e citações dogmáticas a servir de capa ao espírito de seita e a um oportunismo rasteiro, que em breve naufragou num reformismo semelhante ao do PC. Faça-se o balanço da política do defunto PC(R) e o que encontramos como apuramento da acção de tantas centenas de militantes esforçados e entusiastas? Esterilidade senil na ideologia, reformismo “democrático-popular” na política, espírito de seita na organização.

Surge porém uma pergunta que nos interessa em particular: porquê os partidos comunistas, em situações sociais que nada tinham de semelhante com a da URSS, adoptaram esta deformação stalinista do leninismo? Também aqui, dizer que ela lhes foi imposta pela direcção do Partido russo, ou que foi copiada servilmente devido à admiração pela revolução dos sovietes não chega. Teve que haver nesse países condições propícias para esta deformação do marxismo.

Se, há trinta anos, isto já era sinal de uma concepção pervertida do marxismo e do comunismo (e contra nós falamos, que demasiado tempo demorámos a entendê-lo, agarrados à ideia de que a crítica do regime da URSS conduziria necessariamente ao terreno da social-democracia), hoje, depois de estarem à vista as flores e frutos desse “socialismo”, continuar a tomá-lo como modelo é imbecil.

Em vez de conceber a ditadura do proletariado como o resultado do amadurecimento das condições económico-sociais para uma grande revolução dos oprimidos, os comunistas do século XX passaram a concebê-la como resultado de uma revolução política, aproveitando uma situação de crise e de vazio de poder. A grande tempestade social que varreu a Rússia no ano de 17 foi entendida de forma tacanha, reduzida às dimensões de uma “manobra genial do partido de Lenine”. O socialismo era uma questão social, que se entendia na perspectiva longa; passou a ser uma questão de mera política. Bastaria um partido ousado, voluntarista, ligado às massas, para explorar habilmente uma crise de poder e assumir o poder.

E como a vida desmentiu vinte vezes essas esperanças, por ainda não estarem reunidas as condições económico-sociais para a revolução proletária, os partidos das metrópoles imperialistas, incapazes de encarar a situação, vieram caindo no reformismo. A “ousadia” inconsistente no plano teórico teve a sua contrapartida necessária na tacanhez política. Proclamava-se a intenção de alcançar para o poder, caiu-se na pequena manobra oportunista.

Uma política comunista, autenticamente leninista, não pode transigir com fantasias pseudobolcheviques, tem que apreciar a situação da luta de classes, para, inserindo-se nela, conseguir acumular forças revolucionárias dia a dia.

Mas ainda não é tudo. O “marxismo-leninismo” que se alimenta do culto do regime “soviético” é-nos estranho também pela sua concepção de táctica. A mesma incompreensão grosseira sobre os papéis relativos do partido e das massas na revolução manifesta-se quando estamos perante a fase actual de acumulação de forças. Eles encaram a política prática não em função da elevação revolucionária da classe e das massas exploradas, como o motor real do reforço do próprio partido, mas fazendo do reforço da influência do partido a chave do amadurecimento do movimento. Resulta daqui todo o arsenal de expedientes, busca desenfreada de popularidade a qualquer custo, manobras tácticas sem princípios, etc. Sem uma perspectiva realmente marxista da revolução, é impossível uma táctica revolucionária.

Recapitulando: não temos nada a ver com o anti-stalinismo “democrático”, que é uma forma de os burgueses se fazerem passar por virtuosos democratas e condenarem a revolução como geradora de catástrofes. Mas também não temos nada a ver com os nostálgicos do “socialismo” da URSS. Situamos a experiência da URSS e a “questão Staline” historicamente.

A burguesia pinta Staline como um déspota paranóico, émulo de Hitler, e a nossa tendência instintiva é para tomar a sua defesa. Eu próprio, como todos sabem, no meu trajecto pela corrente “M-L”, caí nesse equívoco: se Staline era odiado pela burguesia e por todos os oportunistas, então deveria servir-nos de modelo… Esse era o essencial da argumentação dos partidos chinês e albanês, adoptada pelos “marxistas-leninistas” portugueses.

Entretanto, porém, aconteceu muita coisa: com a evaporação do regime “soviético”, o problema é bem mais complicado do que isto.

Para outros camaradas, os louvores a Staline são uma espécie de desforra imaginária de quem não sabe como fazer face à actual escalada invasora dos EUA. A impotência a que se vêem reduzidas as forças de esquerda está a reacender em alguns a nostalgia pelos tempos em que o colosso soviético, depois de ter derrocado o tenebroso império nazi, travava as aventuras imperialistas, criava um espaço favorável aos movimentos de resistência e dava confiança à resistência dos comunistas em todo o mundo.

A persistência do stalinismo (assim como, numa via paralela, a do maoísmo), se indica ódio pelo imperialismo e repúdio pelo colaboracionismo da prática totalidade dos PCs e da esquerda oficial, exprime também o desnorte de quem busca às cegas uma tábua de salvação. Quanto maior é o sentimento actual de impotência perante o império ianque, mais forte a tendência para idealizar a “firmeza de aço” de Staline.

Continuar hoje a contemporizar com esse espírito seria manter a corrente marxista aprisionada por mais outras tantas décadas.

Partido e sovietes

Tradicionalmente, todas as críticas a esta concepção do partido comunista como o autor da revolução e o proprietário do poder eram arredadas nas nossas fileiras com a acusação de serem tendências espontaneístas antipartido, antileninistas, anarquistas.

Sem dúvida, no leninismo, o partido comunista desempenhava um papel central, mas como com a sua linha aferida a cada passo pelos interesses da elevação do proletariado a classe dirigente da sociedade. Fracassado esse projecto desde começo dos anos vinte, por absoluta impossibilidade de o proletariado se constituir em classe governante da Rússia, a teoria teve que se adaptar à nova situação: proclamando a “fidelidade inabalável” ao leninismo, Staline elabora uma teoria de facto nova em que tudo gira em torno do Partido, ou seja, do seu corpo dirigente, ou seja, em última análise, do secretário-geral arvorado em ditador.

Dizer que isso se deveu às suas aspirações autoritárias, como insiste a crítica moralizante pequeno-burguesa, é ignorar que essas aspirações pessoais foram a expressão de uma necessidade social: a acumulação capitalista a marchas forçadas por via do Estado só podia ter êxito com uma concentração inédita do poder nas mãos de um directório e de um “guia iluminado”.

E, por causa desta deslocação do centro de gravidade para o Partido, a luta interna deixou de ser possível, teve que se instituir o unanimismo, criou-se o clima em que prosperaram as perseguições, o terror, etc.

——–

Agir de modo a aumentar todos os dias o desprezo das massas pelo sistema, e pelos valores burgueses, a estreitar a coesão dos oprimidos e explorados, a tornar mais fundo o antagonismo que os opõe.

Reivindicamos a condição de marxistas-leninistas, se por isso se entende a validade central do marxismo e do leninismo na nossa época. Mas o conceito de “marxismo-leninismo” tornado tradicional implica a adesão ao stalinismo-maoísmo popularizado nos anos 60 pelo PC da China. E neste sentido, não somos certamente “marxistas-leninistas”.

Isto só se entende como manifestação da crise profundíssima em que caiu a antiga corrente comunista e que, hoje, ao sentir-se impotente perante a investida selvática do imperialismo, se volta nostalgicamente para o “bom tempo” em que a URSS era uma força temida pelo imperialismo.

A época em que a URSS e a China subiam como potências “socialistas” passou e não volta. Justamente porque esse “socialismo” foi o período transitório do capitalismo de Estado, chamado a realizar a acumulação capitalista em países onde a burguesia era incapaz de o fazer.

Integramos hoje uma corrente nova. Por mais modesta que seja, ela pretende romper de alto a baixo com o modelo de “socialismo” da URSS e com a prática do movimento comunista do século passado. Os impulsos —- fruto do desespero, —- E isto revela um atraso político que nada tem de comunista.

Como não podem negar que isto é muito escasso como “poder do povo” e “democracia socialista”, são capazes de conceder que é necessária a “democracia socialista” desde que as suas formas de expressão sejam marginais e decorativas, sem poder efectivo, funcionando apenas como válvulas de descarga das tensões (o que a nossa burguesia “progressista” entende muito bem quando propõe a “descentralização”, as formas “participativas”).

A preparação da revolução e a tomada do poder são interpretadas numa acepção militar, como se fizessem parte da campanha de um exército. Para eles, parece óbvio que a dureza extrema da luta pelo triunfo da revolução torna necessária a “mediação da direcção revolucionária”, isto é, a concentração de todo o poder de decisão num estado-maior centralizado, o que nada teria de errado,

Teorizam um regime de burguesia burocrática de Estado, justificando-o eufemisticamente com a

(Título da responsabilidade de Ana Barradas. Os lapsos em algumas frases do texto – que é obviamente um rascunho – figuram ao original e foram deixados como estavam. A data é princípio de 2006.)

 FMR (ao centro), 1974, manif em Lisboa1974_Chico.jpg

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