Noves fora nada

Francisco Martins Rodrigues

O general Pezarat Correia publicou há tempo em O Jornal (7/8/87) um artigo explicando o seu papel no tristemente célebre “Documento dos Nove”, de Agosto de 75. Os argumentos que usa são tão tolos que nem mereceriam comentário, se não fosse o prestígio ganho nos últimos anos nos meios oposicionistas por este general caído em desgraça.

Oiçamo-lo: “Não tenho dúvidas em afir­mar que, em condições idênticas, repetiria a mesma atitude. (…) Penso que a atitude dos ‘Nove’ foi necessária, o seu diagnóstico foi correcto, as suas propostas foram revo­lucionariamente ajustadas. Havia uma contra-revolução em marcha, movida pela extrema-direita, que não se travava com mais uma fuga para a frente”. E ainda: “Os ‘Nove’ identificaram-se no essencial numa posição de esquerda, numa análise critica à anarquia crescente, no vanguardismo que bloqueava a marcha da revolução ao desprezar a sua base social de apoio, e na enumeração das medidas mais urgentes que assegurassem o progresso da revolu­ção possível”.

Mas porquê então essa acção de “esquerda” se desentranhou em tão abun­dantes frutos de direita? Com desconcer­tante ingenuidade, Pezarat Correia reconhece que os “Nove” não souberam dar provas, depois do 25 de Novembro e perante o “golpismo subtil de direita”, da mesma determinação e firmeza que tinham revelado “na resistência ao aventureirismo revolucionário”. “Mas – acrescenta candi­damente – não se confundam causas com consequências”.

Temos, assim, que os “Nove”, animados do puro espírito de defesa da revolução, levantaram-se contra a vaga do “poder popular” e incitaram a sair para a rua os generais mafiosos, a escumalha de direita infiltrada no PS e os caceteiros de Rio Maior. Estavam tão impressionados com o descontentamento da pequena burguesia que não hesitaram em golpear a classe operária. Tinham tanto receio da contra-revolução da extrema-direita que não encontraram melhor meio de a evitar do que adiantar-se aos fascistas e encarregarem-se de liquidar a revolução, para tirar argumentos à direita…

Afinal, que mais é preciso para demons­trar que a “revolução possível” dos “Nove” se resumia a acabar com a revolução?

Pezarat Correia não deve saber que cumpriu, no Verão de 75, em Portugal, o papel clássico dos contra-revolucionários pequeno-burgueses que, em nome dos perigos da “anarquia” e do “vanguardismo” e da defesa da revolução “possível”, se encarregam de sufocar a revolução real, a das massas sublevadas contra o capital.

Deixou-se, mais tarde, ultrapassar pelo carro que pôs em movimento, tal como os seus amigos Vasco Lourenço, Melo Antu­nes, Garcia dos Santos. Mas está muito enganado se julga que isso o iliba de res­ponsabilidades na situação actual.

Repudiamos as lágrimas de crocodilo deste arauto do 25 de Novembro, que hoje aparece a declarar o seu “desencanto” perante o resultado das últimas eleições e a lamentar a “injustiça social”, o “controlo da Comunicação Social”, o “clientelismo”, o “agravamento da subordinação ao estrangeiro”. É preciso desfaçatez para vir falar em nome da esquerda quem, na hora da verdade, se levantou contra a esquerda e abriu as portas à direita!

Rejeitamos a cantilena de que o movi­mento popular revolucionário de 74/75 fra­cassou por anarquia e vanguardismo. O movimento fracassou porque não arranjou melhores chefes para opor aos Pezarat Correia, Ramalho Eanes, Mário Soares, Pires Veloso, do que Vasco Gonçalves, Otelo, Álvaro Cunhal, prontos a negociar o fim da agitação a troco de algumas garantias.

Reafirmamos que “só pode haver verda­deira democracia numa sociedade sem classes promovida pela ditadura do prole­tariado. Uma sociedade de classes pressu­põe a desigualdade e a não-liberdade. Fazemos uma crítica inevitável à via da democracia política para o socialismo, por­que essa via não põe de modo algum em causa a burguesia como classe dominante”.

Estas citações não são de Lenine, como podem supor alguns leitores, mas do pân­dego dr. Eduardo Prado Coelho em 1975, três dias antes de sair para a rua o “Docu­mento dos Nove”. É o próprio Pezarat Cor­reia que o lembra no seu artigo. E com razão: se Prado Coelho passou de “leni­nista” a cavaquista, porque não pode Peza­rat Correia passar de coveiro a defensor da revolução?

Política Operária nº 12, Nov./Dez. 1987

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