“Perestroika” de M. Gorbatchov

Francisco Martins Rodrigues

 Com a crítica à segunda parte do livro de Gorbatchov, intitulada “O novo pensamento no mundo”, con­cluímos estas notas de leitura, iniciadas na PO n.°12, de Novembro/Dezembro de 1987.

JOGOS OLÍMPICOS DA PAZ

Como vê o marxista Gorbatchov a luta de classes internacional? Pensa simples­mente que ela se apagou em face da ameaça de destruição nuclear: “Até épocas muito recentes – escreve – a luta de classes permaneceu como eixo do desenvolvimen­to social“. “Mas agora, com o aparecimento de armas de destruição maciça, quer dizer, universal, surgiu um limite objectivo para a confrontação de classes na arena interna­cional” (pág. 163).

Esta ideia bizarra de que a luta de clas­ses teria passado a segundo plano, suplan­tada pelo imperativo da coexistência, já fora lançada por Kruchov, há 30 anos. Mas agora é levada a uma etapa superior: já nem se deve dizer sequer que a coexistência pacífica seja uma “forma especifica da luta de classes”; essa tese do 20° Congresso do PCUS também envelheceu e deve ser rejei­tada (pág. 163). Agora a coexistência tem que passar a reinar soberanamente sobre a luta de classes.

O mundo deixa portanto de ser expli­cado pelo antagonismo de interesses entre proletariado e burguesia. Tempos novos exigem novos critérios. Quando está em jogo a sobrevivência da espécie humana, “tornou-se uma exigência vital basear a política internacional em normas morais e éticas comuns a todos os seres humanos e humanizar as relações entre os Estados” (pág.157). “Todos devem repensar o seu papel neste mundo e comportar-se respon­savelmente” (pág. 155).

Uma vez aceite esta filosofia do humano, as relações internacionais tornar-se-ão como que uns grandiosos jogos olímpicos da paz. Se os chefes políticos “se erguerem acima dos interesses mesquinhos”, reinará finalmente o diálogo alargado em busca do bem comum, não haverá mais agressões nem interferências mútuas. “Que cada nação decida qual o melhor sistema e qual a melhor ideologia. Que isto seja decidido por competição pacífica, que cada sistema prove a sua capacidade de corresponder às necessidades e interesses do homem” (pág. 164). Assim, o “novo pensamento” encaminhará o mundo para uma nova era “de prosperidade, de bem-estar, de felici­dade” (pág. 280).

E, para aqueles que possam desconfiar que este “novo pensamento” é um aban­dono do marxismo, Gorbatchov esclarece que ele fora já abraçado por Lenine. Exac­tamente! Porque Lenine, embora fosse o chefe do partido do proletariado, “conse­guia ultrapassar os limites impostos pela classe” (!!) e divisar o valor mais alto que se levantava acima da revolução proletária, “os interesses comuns a toda a humani­dade” (pág. 162).

ARAUTO DA PEQUENA BURGUESIA

Gorbatchov é o chefe de uma das maio­res potências do mundo, não é um lunático evangélico. Com este catálogo de sentenciosas baboseiras pacifistas, que fins polí­ticos espera ele atingir?

Decerto, não lhe passa pela cabeça converter os chefes do imperialismo. Nin­guém em seu juízo perfeito acreditaria que Reagan, Thatcher ou Mitterrand possam ser sensíveis a exortações destas. Toda a gente sabe, até mesmo Gorbatchov deve saber, que o comportamento político dos imperialistas – cínico, agressivo, espoliador – não pode ser corrigido porque cor­responde às próprias leis internas do capi­talismo. A necessidade de acumular e con­centrar o capital reina acima de tudo e a bomba atómica é mais um dos seus instru­mentos. Se alguma coisa o perigo de des­truição nuclear trouxe de novo ao imperia­lismo foi um ainda maior gangsterismo e espírito de aventura.

Para quê então estas pregações, que só podem adormecer a vigilância dos traba­lhadores e que os imperialistas não deixa­rão de interpretar como sinal de medo e fraqueza? Não aumentam elas ainda mais o perigo de confrontação nuclear?

Gorbatchov não é tão tolo como parece. Obviamente, quando apela aos bons senti­mentos dos chefes imperialistas, ele está a dirigir-se às massas pequeno-burguesas de todo o mundo, às burguesias dependen­tes, a todas as forças intermédias excluídas da chefia do campo capitalista ocidental.

Na lógica dos actuais dirigentes soviéticos, o poderio temível do campo imperia­lista não deixa outra alternativa senão a luta por reformas – e nisso, todos sabem que a pequena burguesia é especialista.

É a ela que Gorbatchov pretende sedu­zir com os seus sermões de concórdia uni­versal, para com ela formar uma frente comum pacifista-humanista-reformista, capaz de limitar o campo de acção do impe­rialismo. A formação de uma frente comum do reformismo internacional – tal é a es­sência política e de classe do “novo pensa­mento” gorbatchoviano.

Se bem que esta política não seja uma novidade – pois já tinha sido proclamada por Kruchov no 20.° Congresso e as suas raízes vêm de mais de trás ainda, das “fren­tes populares” do 7° Congresso da Interna­cional Comunista – é agora que ela ganha um corpo ideológico e político acabado com o solene manifesto pacifista de Gor­batchov. Passado meio século, o huma­nismo antifascista de Dimitrov desabrocha enfim no humanismo puramente humano de Gorbatchov. A lógica da luta para ganhar a pequena burguesia é levada às suas últi­mas consequências.

APOSTA NECESSÁRIA

Poderá perguntar-se se não é cegueira querer fundar uma política externa na alian­ça com forças tão incoerentes, cobardes e traiçoeiras como são as pequenas burgue­sias e as burguesias dependentes. Mas isto é não ter em conta que essa escolha é a única possível para a burguesia soviética, pelo menos enquanto durar a actual corre­lação de forças mundial.

É bem compreensível que a burguesia no poder na URSS veja nas camadas bur­guesas intermédias do Ocidente o seu aliado natural. Há muitos interesses que as aproximam. Movendo-se em campos dife­rentes, ambas precisam para sobreviver de moderar o apetite insaciável do grande capital monopolista, negociar um espaço no mercado mundial, tentar adiar embates.

Ambas temem as consequências imprevisí­veis das aventuras militares do imperia­lismo. Ambas são impelidas pela sua posi­ção subalterna para o sonho de reformar o capitalismo, de impor normas éticas de convivência aos centros financeiros.

E, embora Gorbatchov assegure que “o socialismo não vai ser reabsorvido”, embo­ra exiba um optimismo postiço quanto à possibilidade da URSS manter indefinida­mente a paridade na corrida aos armamen­tos, “duplicar e mesmo triplicar a produti­vidade até ao ano 2000” (pág. 184), incenti­var o “espírito empresarial socialista” (pág. 186), ele sabe que as realidades não são risonhas.

Assim, se ele fala como um vulgar paci­fista pequeno-burguês, cheio de boas inten­ções ocas, não é por simples demagogia mas porque os valores da sua classe ten­dem a identificar-se nesta fase com os de todas as camadas burguesas dependentes dos monopólios.

Com a glasnost, ele espera demonstrar à pequena burguesia de todo o mundo que já nada tem a temer da URSS, que esta já não está “hipnotizada por mitos ideológi­cos” como no passado (pág. 235), que o papão totalitário acabou e que pode con­fiar definitivamente na boa-fé do huma­nismo soviético.

Se o apelo fosse ouvido, quem sabe, chegaria o dia em que os burgueses hones­tos de ambos os campos poderiam meter na ordem os centros do complexo militar-financeiro do Ocidente e o mundo inteiro passaria gradualmente a um “socialismo” semelhante ao da União Soviética…

CLASSE OPERÁRIA – A FORÇA DE RESERVA

Isto não quer dizer, naturalmente, que os governantes soviéticos percam de vista o papel da classe operária internacional na luta para conter o imperialismo. Mas, para eles, a classe operária só conta como força primária, sem cabeça própria. A lição que tiraram destes últimos decénios é que o meio mais seguro, mais viável e eficaz de mobilizar as massas operárias é através da tutela da pequena burguesia reformista.

Ganhar a pequena burguesia como alia­do privilegiado e, por seu intermédio, a classe operária como força de reserva – assim se poderia formular esta nova estra­tégia internacional da classe dirigente soviética.

Esta é uma outra confirmação da trans­formação social que se operou na URSS. No tempo de Lenine, o poder revolucioná­rio instaurado na Rússia dirigia-se auda­ciosamente aos operários de todo o mundo, por cima das cabeças das suas burguesias, e apelava sem disfarces à revolução prole­tária para destruir o imperialismo. Era a única estratégia possível para o governo dos operários e camponeses.

Hoje, o realismo impõe que se esque­çam as declarações de guerra ao capital. Hoje, o ponto de apoio externo que o regi­me da URSS procura já não é a luta do proletariado internacional pela revolução. A URSS, explica Gorbatchov, não tem pro­pósitos subversivos, não pretende “expor­tar a revolução” (págs. 165-168), não pre­tende “provocar o caos nas relações inter­nacionais” (pág. 232). Ou seja, muito sim­plesmente: a URSS actual já não deseja ver surgir em qualquer ponto do mundo uma revolução proletária, que só serviria para desestabilizar as suas relações com o impe­rialismo.

Em vez disso, aposta numa solução muito menos arriscada – a mobilização dos contingentes operários de cada país pelas suas pequenas burguesias, em torno de bandeiras democráticas, patrióticas, pacifistas, antimonopolistas, cingindo-se às formas de acção legais e parlamentares.

É essa a grande tarefa atribuída aos par­tidos “comunistas”, mas não só; Gorbat­chov dirige-se com particular calor aos partidos social-democratas, a todas as per­sonalidades democráticas. A conquista da pequena burguesia reformista exige uma perspectiva ampla. O PCUS não hesitará em passar por cima dos seus fiéis porta-vozes “comunistas” no exterior sempre que eles se mostrem incapazes para materiali­zar a grande aliança que busca.

ATENÇÃO! PERIGO DE EXPLOSÃO!

Igualmente reformista é a postura de Gorbatchov perante os sacrifícios tremen­dos a que os povos dos países dependentes são submetidos pela selvajaria do imperia­lismo. Depois de fazer uma vibrante conde­nação moral do neocolonialismo, ele tem o cuidado de frisar: “Embora não aprovemos as características das actuais relações entre o Ocidente e os países subdesenvol­vidos [não é uma forma educada de pôr a questão?], não incitamos à ruptura (pág. 156).

E as razões porque aqui também se impõe uma atitude “ponderada” e “respon­sável” são expostas com toda a franqueza. O grande problema com o Terceiro Mundo, segundo Gorbatchov, é que os capitalistas ocidentais, que há muito reconheceram a necessidade de condicionar a busca do lucro máximo às reivindicações do movi­mento operário, ainda não compreende­ram a necessidade de uma limitação seme­lhante nas suas relações com as ex-colónias.

Daí a estagnação destas, a miséria das massas e a acumulação de dívidas externas monstruosas, o que é verdadeiramente brincar com o fogo. E avisa a burguesia: “A divida dos países em vias de desenvolvi­mento transformou-se numa espécie de bomba-relógio. A detonação dessa bomba pode ter resultados catastróficos. Está a preparar-se uma explosão social com uma força destrutiva tremenda (pág. 192).

A revolução dos povos oprimidos con­tra o imperialismo, lançando ao mesmo tempo pelos ares as suas próprias burgue­sias “nacionais” traidoras, eis o grande perigo que Gorbatchov divisa para o seu plano de pacificação mundial. Para esse perigo alerta pedagogicamente todos os burgueses esclarecidos.

A URSS, pela sua parte, fará o que esti­ver ao seu alcance para evitar essa catástrofe. E, como prova de boa-fé, Gorbatchov assegura que “a União Soviética por princípio reprova o terrorismo e está disposta a colaborar energicamente com os outros Estados para a erradicação deste mal”, incluindo “acordos bilaterais especiais numa frente de combate comum ao terro­rismo internacional(!) (págs. 193-194).

Numa época em que o terrorismo de Estado da burguesia atingiu níveis de ban­ditismo inimagináveis algumas décadas atrás, oferecer a colaboração da URSS para combater o terrorismo anti-imperialista – pode haver confirmação mais obs­cena da degeneração burguesa do antigo país dos sovietes?

RECUO ESTRATÉGICO

O “novo pensamento” de Gorbatchov é um produto dos sucessivos desaires sofridos pela URSS, da crise da sua economia, do declínio da sua influência internacional.

Durante 30 anos, após o 20° Congresso do PCUS, a burguesia soviética acalentou a ilusão de que o regime de capitalismo de Estado teria capacidade para competir com o campo imperialista em todas as fren­tes, desgastá-lo e acabar por conduzi-lo ao esgotamento. Agora chegou o momento em que já não é mais possível manter essa ficção.

Se a paridade em armamento nuclear foi mantida, o decorrer das últimas déca­das demonstrou que a corrida com os EUA está a ser perdida em todos os outros terre­nos. O sistema de planificação e o aparelho burocrático que o sustenta tornaram-se um autêntico colete de forças, que bloqueia o crescimento das forças produtivas e a mo­dernização tecnológica. Sujeito a severas restrições à concorrência, o capitalismo soviético asfixia.

Como resultado desta crise interna, o auxílio económico e técnico com que a URSS tentava comprar a aliança das bur­guesias nacional-reformistas saldou-se por um fracasso. Por toda a parte – na Europa oriental e no Vietname, nos países árabes, em Angola e Moçambique, em Cuba – as classes governantes chegam à con­clusão de que só do campo ocidental pode­rão obter capitais e tecnologia, mesmo à custa de se submeterem ao garrote do FMI. A “comunidade socialista” desagrega-se. As ambições imperialistas de Brejnev nau­fragam num aborto.

Chegou pois para os chefes da URSS a hora da autocrítica. Já não têm dúvidas de que é forçoso um recuo em toda a linha, para reconverter o sistema económico, começar a libertar a concorrência, recupe­rar do atraso em que se encontram.

Isto significa que, no campo externo, os regimes “populares” que eram a sua ponta de ataque vão ser abandonados à sua sorte. O que se está a passar no Afeganistão, na Nicarágua, em Moçambique, Angola, etc., é o começo de uma derrocada. A margem de manobra agressiva dos Estados Unidos aumenta de dia para dia.

Os pequeno-burgueses de todo o mun­do que, com a cegueira habitual, se felici­tam pela “abertura Gorbatchov” descobri­rão, dentro de pouco tempo, o seu verda­deiro significado. É preciso que também os operários percam as últimas ilusões no bastião “socialista” e retomem a luta por sua própria conta – pela revolução prole­tária, banida desde há meio século como “impossível”.

Política Operária nº 14, Mar/Abr 1998

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