“Em Portugal há pouco conhecimento da Galiza”

A Peneira entrevistou a Francisco Martins, que estivo em Ponte Areas o dia 7 de Maio de 2004 com motivo das II Jornadas Independentistas do Condado, organizadas por NÓS-Unidade Popular.

Francisco Martins nasceu no Alentejo e tem já 76 anos. Foi militante do Partido Comunista Português entre o 1950 e o 1963. Deixa o partido a causa da sua posiçom vacilante ante as guerras coloniais. Estivo 12 anos em prisom até que, depois do 25 de Abril, participa na criaçom da União Democrática Popular que abandonou no ano 1984. Desde entom é director da revista Política Operária.

Fale-nos um pouco da publicaçom Política Operária da qual você é director.

É umha revista de orientaçom comunista que existe há 19 anos. É bimestral, saem 5 números por ano e é teórica e política, isto é, procura fazer propaganda das ideas comunistas e ao mesmo tempo ter noticiário de Portugal e internacional sobre a situaçom em Portugal e no mundo. Aliás há polémica, debate, artigos, discussom sobre os temas mais diversos para os comunistas como a situaçom que aconteceu na Uniom Soviética, situaçom actual do imperialismo. Tem umha tiragem de 1.000 exemplares. Hoje nos meios de esquerda e outros é reconhecida polo seu traballo. O mal principal da esquerda portuguesa é umha tradiçom de medo ao debate. A revista intervém para trocar opinions contrárias sem começar a insultarse os uns aos outros.

Aqui, para os movimentos de esquerda, Portugal é um referente. Como se vê da perspectiva portuguesa? Infelizmente em Portugal há pouco conhecimento da Galiza, nom se pode dizer que as pessoas acompanhem con interesse o que se passe na Galiza. Portanto, a relaçom nom é mútua. Eu creio que o que aconteceu há 30 anos em Portugal, o 25 de Abril, as conquistas populares que se figérom, tivérom um efeito grande no povo galego de simpatia e esperança do que estava a acontecer em Portugal. Infelizmente isso perdeu-se completamente, hoje nom existe nada disso e o que pode continuar a alimentar o interesse da esquerda galega por Portugal talvez seja a simpatia por um povo da península que é independente enquanto que a Galiza pode sentir o peso do centralismo espanhol sobre o país e entom olha para Portugal como exemplo da situaçom que também gostaria de ter.

Como vê neste novo milénio os partidos comunistas? Os partidos comunistas tradicionais estám numha fase de desintegraçom porque procurárom adaptar-se às situaçons difíceis e aquele espírito revolucionário inicial que os animava desapareceu. Entom, creio que hoje a burguesia nom os quer no governo porque nom confia neles e os trabalhadores perdêrom a esperança que eles podam transformar a sociedade. O Partido Comunista Português é visto na Europa como um dos últimos partidos mais radicais. Adaptou-se muito ao sistema, mas continua a ter influência nos trabalhadores na principal força sindical. Penso, de todas maneiras, que deixou de ser um partido revolucionário há muitos anos e eu, por mim, abandonei há mais de 40 anos por me parecer que estava a entrar na deriva. Fora desse grupo, tenho conhecimento de um movimento comunista de influência maoista que existe a escala internacional mas que som pequenas organizaçons. Cuido que se está numha fase de búsqueda de um novo movimento comunista, eu acredito que desta crise do movimento nacional acabará por sair umha nova corrente comunista internacional inspirada no marxismo e que tenha respostas mais eficazes e que ganhe as massas na maioria dos países.

Falou do capitalismo como sociedade que está a chegar ao fínal. Como explicaria esta situaçom?

A concentraçom capitalista extrema fai que os centros de decisom de toda a economia e a política mundial estejam também concentrados, com o que os espaços de experiências diversas de democracia que havia nos vários continentes estám a ser esmagados por esses centros do capital financeiro, subordenam tudo aos seus interesses, provocam a ruina de um país cortando-lhe os depósitos monetários ou invadindo-os. O capital financeiro nom tem moral nem princípios, nem acredita na democracia, só acredita nos seus interesses. Entom, esta sucessom de tragédias em todo o mundo tem umha explicaçom. Nós, em Portugal, por brincadeira pensamos que oxalá nom encontrem petróleo nas nosas costas, senom mandariam um ditador. Nom há ningum país do mundo que esteja a salvo de ser atacado polo imperialismo. Esta situaçom actual é muito mais grave do que foi no pasado. Isto, para nós, é o sinal de um capitalismo agonizante e que se tem que afundir numhas crises cada vez maiores. A única maneira é enfrentar-se a ele. Non haverá um intermédio pacífico.

Como criar iluson na gente para esse novo projecto?

Por propagaçom. Quando se pensa que tem que adoptar-se umha linha política que todo o mundo tem que aceitar, partes de umha ideia errada, vás para o mínimo. As pessoas estám sem umha perspectiva revolucionária, evidentemente, e um partido que surge e procure ter muitos apoios vai apresentar um programa tam mínimo que nom vai alterar nada e ao fim de um tempo as pessoas chegam à conclusom que nom alterou. Foi sempre umha ideia dos comunistas que nom tem nada de antidemocrático, ao contrário, que se há um núcleo que tem umha perspectiva e umha audácia de que esta sociedade tem que ser alterada, sendo umha minoria tem que encetar um processo de propaganda para engrossar as suas fileiras. O mal dos revolucionários foi sempre nom ter a paciência e a confiança de esperar que a madureza medre e metem-se nas instituiçons e renunciam a transformar na sociedade e acabam por entrar dentro do sistema. Eu cuido que é preciso ter persistência na certeza de que ela acabará por medrar e dar frutos.

 (Entrevista por Antón F. Escuredo)

 

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