Mês do coração

Mário Fontes [i]

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) escolheu Maio como o mês do coração. Na TV, uma vez por semana, o manso prof. Pádua (que leva 10 contos por consulta, segundo os jornais) vem dizer aos portugueses e portuguesas que comam menos, que não abusem dos farináceos e das gorduras, que façam exercício, etc…

Simultaneamente, um estudo de alguns sociólogos há pouco publicado mostra que 40% dos portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza absoluta (isto é, não têm que comer) e mais de 50% abaixo do limiar da pobreza relativa (quer dizer, têm rendimentos mensais inferiores a 75% da média nacional, o que por sua  vez quer dizer que, com as despesas vitais, tais como alimentação, habitação — em barracas e tugúrios — água, electricidade — os que a têm — gastam praticamente todo o seu orçamento mensal).

Aí fico inquieto! Afinal quem tem razão? A SPC ou os sociólogos? É que parece que as coisas não jogam. Comam menos, diz a SPC! Não temos que chegue para comer, respondem, pela voz dos sociólogos, cerca de cinco milhões de pessoas. Façam exercício, exorta a SPC. Mas nós já trabalhamos como mouros, respondem os operários industriais e agrícolas e muitos outros assalariados. Ou então: mas nem sequer nos deixam fazer exercício, dizem os nossos 500 mil desempregados.

Não comam farináceos e gorduras, adverte a SPC e milhões de pessoas repontam: mas nós só temos pão, batatas e arroz para comer e, vá lá, um cheirinho de carne de porco ou carapau de quando em vez.

Um médico meu amigo contou-me que tentou uma vez dar esses conselhos dietéticos a um reformado e que ele lhe respondeu: E o que é que como, doutor, merda?!

Algo está podre na República de Portugal! Estou a ouvir as vozes sardónicas que me dirão que isto é um exagero. É gente de bem, que ouve atentamente o prof. Pádua e que prefere que Maio, em vez de ser o mês do 1° dia, seja o mês abençoado e televisivo do coração.

Mas os factos, como dizia um russo de barbicha chamado Ulianov e que por razões factuais adoptou o nome de Lenine, têm cabeça dura.

E recordo que nos 17 meses “quentes” que se seguiram ao 25 de Abril, naquilo a que os analistas de pacotilha chamaram PREC, isto mudou para melhor apesar de tudo. Os salários aumentaram (tanto mais que os operários meteram a lei da greve do Spínola no caixote do lixo), chutaram os patrões, ocuparam empresas e puseram-nas a funcionar, os operários rurais do Alentejo e Ribatejo expulsaram os latifundiários e puseram a terra a render pão, os especuladores e intermediários encolheram-se, o rendimento nacional foi deslocado para os que produzem, etc.

Depois veio a tragicomédia do 25 de Novembro. Com a “consolidação democrática” tudo começou a desandar. Os monopólios foram sendo cautelosamente reconstruídos, no ambiente inevitável e por assim dizer natural de corrupção e vende-tudo; entrámos na CEE e hoje temos cinco milhões de pessoas que não têm que comer.

Não deixa de ser instrutivo notar que o inquérito sobre a pobreza não cobre os últimos anos, em que se institucionalizaram, repito institucionalizaram, os salários em atraso e os contratos a prazo, isto é, a fome e a insegurança…

Aí eu, que não sou de meios tons, chapo no focinho asséptico da SPC a sua grande mentira. E como não sou também de meias palavras, mando-os à bardamerda.

[i] Um dos pseudónimos de Francisco Martins Rodrigues.

Política Operária nº 4, Mar-Abril 1986

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