O nosso programa

Francisco Martins Rodrigues

NÃO FOI FÁCIL este primeiro ano de publicação de Política Operária. Demos só os primeiros passos tacteantes de uma caminhada que exige muito mais de nós. O nosso propósito — procurar os contornos de uma política operária comunista, demonstrar a actualidade da revolução proletária, repensar, criticar e pôr em questão toda a herança que recebemos no último meio século — está só aflorado. Pouco mais fizemos do que demarcar as fronteiras que nos separam das outras correntes de denominação marxista. Os grandes temas do marxismo actual continuam à nossa espera.

Não podemos também gabar-nos de um sucesso de público (que aliás não esperávamos). Para a maioria dos operários que nos lêem, a revista é demasiado teórica. Para os intelectuais não- alinhados que ainda restam, é utópica e redutora. Para os militantes ditos comunistas é trotskizante. Para os trotskistas é semi-stalinista. Conseguimos contudo aquilo que há um ano parecia impossível: editar uma revista onde se distinguem os interesses da classe operária dos interesses democrático-reformistas da pequena burguesia; romper com a tradição dogmática que sufoca o marxismo e abrir um espaço de debate; criticar o podre “marxismo” oficial, não pela direita como já se tornou tradicional, mas pela esquerda. E conseguimos, por isso mesmo, assegurar um público regular que adere à nossa linha editorial e segue com interesse e esperança a concretização do projecto que enunciámos. Podemos pois dizer que a PO está a iniciar no nosso p>ais uma corrente de ideias marxistas, vivas e não empalhadas, operárias revolucionárias e não popular-democráticas ou liberal-imperialistas. Acreditamos que esta iniciativa terá reflexos políticos no futuro.

PENSAR política em termos de revolução proletária, no Portugal de hoje, é para muitos sinal de “dogmatismo esquizofrénico”. Não é a direita que o diz, porque a direita faz por nos ignorar. São muitos dos garbosos leninistas de 1975, novíssimos “arrependidos” da burguesia, cheios de comiseração pela nossa recusa a abrir-nos às realidades da vida…

A nossa esquizofrenia reduz-se contudo a muito pouco. Não vemos nas assombrosas maravilhas da revolução tecnológica mais do que a reprodução ampliada das mesmas leis da acumulação capitalista formuladas por Marx há cem anos. Não vemos na ameaça nuclear mais do que a confirmação do imperialismo como última etapa necessária do capitalismo. Não vemos que o fracasso das experiências revolucionárias deste século seja mais do que a lenta aproximação por tentativas do caminho da revolução proletária. Não vemos que o apodrecimento do “marxismo” pequeno-burguês prove algo mais do que a validade do marxismo revolucionário. Não vemos na actual alienação pequeno-burguesa do proletariado mais uma etapa transitória da formação da sua consciência de classe.

Vemos diante de nós um mundo em que a produção se socializa sem cessar e que portanto exige a abolição de todas as formas de exploração, o domínio consciente das relações sociais pelos próprios produtores, a revolução. é o que nos leva a não dar um chavo pelas descobertas da moda, superadoras do marxismo por todos os lados… Não vemos nelas mais do que evasão da luta de classes, defesa de mesquinhos privilégios, ajoelhar perante a barbárie imperialista, medo.

PROCURAR por aproximações parciais, com modéstia mas também com audácia, o quadro actual da luta de classes em Portugal e da luta de classes internacional, que nos permita traçar as grandes linhas de um programa comunista — é este em resumo o nosso objectivo. Pode parecer um projecto teoricista. Mas a experiência militante mostrou- nos que é desse programa, muito mais do que de intervenções políticas de conjuntura, que depende a formação de um partido comunista operário digno desse nome.

Nesta linha de ideias vamos tentar alargar o estudo e o debate sobre as questões prementes da corrente marxista-leninista. Entre os temas e preparação para os próximos números destacamos desde já: a estrutura das classes e Portugal, a história da conquista do PCP pela pequena burguesia, os grandes processos de Moscovo, a NEP, a revolução cultural chinesa… Além dos habituais comentários sobre o movimento operário, a actualidade política nacional e internacional, a revista de imprensa, de livros, cinema, etc.

Neste segundo ano de publicação que agora se inicia, apelamos a todos os leitores, amigos, correspondentes e assinantes da PO para que tornem possível com o seu apoio e as suas críticas a realização deste projecto. Pela nossa parte, faremos o que pudermos para chamar mais operários a abandonar a expectativa e a envolver- se no debate: trata-se duma causa sua e não apenas de alguns pequenos grupos.

Política Operária nº 5, Set-Out 1986

 

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One thought on “O nosso programa

  1. A corrente marxista-leninista tem que chegar ao conhecimento do proletariado. Temas; sobre a actualidade, política nacional e internacional que nos permita traçar um programa para a revolução socialista.
    O artigo FMR resume o essencial, a luta de classes está em erupção; As guerras,o êxodo, a Europa em contestação pelo proletariado mas incapaz de encontrar o seu caminho.

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