Bananas­

Francisco Martins Rodrigues

FICA BEM a um chefe de governo em visita aos EUA reunir-se com o chefe da CIA? Deve esse chefe de governo permitir que, durante um encontro com a imprensa, o embaixador norte-americano lhe dê conselhos em voz alta sobre o que deve dizer?

Os comentadores afectos à oposição acharam que não. Cavaco Silva foi vivamente criticado pela imagem pouco dignificante que deu da nossa soberania. Portugal, protestaram, ainda não é uma república das bananas.

Eu gostava de os ver no lugar dele. O homem foi aos EUA pedir investimentos e mercados para os nossos produtos. Com a conjuntu­­­ra internacional como está, todos calculam como a tarefa é ingrata. Ora bem: se os funcionários da Casa­­ Branca sugerem uma pequena reunião de trabalho com a CIA, para trocar informações sobre Angola e Moçambique, o que havia ele de fazer? Recusar? Poderia ser muito digno mas ia estragar logo à partida o ambiente de boa vontade e confiança mútuas. Cavaco aceitou. Não é culpa dele se os americanos, com a sua conhecida falta de tacto, começaram ainda antes da viagem a divulgar um encontro que se deveria manter secreto. Veio depois a reunião com os homens de negócios americanos. Negociantes, já se sabe, querem números, não discursos.

Cavaco deu-lhos: o custo médio de um trabalhador em Portugal foi em 1985 de 1,43 dólares/hora, contra 4,78 em Espanha, 7,67 em França, 9,55 na Alemanha…

Sensação na sala: 1,43 dólares à hora, que pechincha! Cavaco triunfa modestamente, no orgulho de pertencer a um tal país. “Mas, e a instabilidade social, e as greves constantes?” pergunta um desconfiado. Cavaco desfaz o equívoco com um sorriso sereno: no ano passado registou-se uma perda de apenas 0,01% dos dias de trabalho por motivo de greves. São mais as vozes do que as nozes…

A visita termina em clima optimista. Mais uma vez, não foi culpa de Cavaco se o embaixador Shakespeare, eufórico, resolveu pedir-lhe que repetisse os números aliciantes diante dos jornalistas. Cavaco cumpriu. Só o podem negar os que se deixam cegar pelo partidarismo. O que lhe censuram afinal? Foi não ter mantido as aparências. Como se fosse fácil!

Esquecem que uma coisa é ser Cavaco Silva, aqui em Portugal, mago das finanças, benfeitor dos reformados, ousado timoneiro que traça metas para o ano 2000, outra coisa é ser Cavaco Silva na América, a pedinchar dinheiro aos donos do mundo. A distância entre uma coisa e outra é que nos define precisamente como uma república das bananas.

A oposição democrática, como não está no governo, aproveita para fazer a rábula do patriotismo. Não se lhe pode levar a mal. Mas eu acho muito positivo que o primeiro-ministro tenha revelado com tanta clareza a missão de Portugal no mundo: oferecer a carne dos operários portugueses como a mais barata e a mais tenra.

Política Operária  nº 6, Set-Out 1986

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