Lágrimas e suspiros

Francisco Martins Rodrigues

Voz do Trabalho, nº 423-424, Março/Maio 1986. Órgão da Liga Operária Católica. Crianças dos 11 aos 14 anos estão a tomar o lugar das mães em muitas fábricas e oficinas de confecções do distrito de Braga. Recebem seis contos por mês, às vezes cinco, nalguns casos apenas 2 500$00. Trabalham sem contrato, não têm Previdência, são obrigadas a fazer horas extras não pagas, não podem ir à casa de banho durante as horas de serviço…

Estas e outras denúncias cruas da selvajaria capitalista que vai por esse país fora, ninguém as encontra no Avante nem nas publicações sindicais, talvez por serem demasiado “primárias”. Mas podem ser lidas em correspondências neste jornal, que se apresenta como órgão do Movimento Operário Cristão e se declara “ao serviço da construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde haja pão para todos”. E que fala do “combate pelo homem trabalhador contra o sistema de exploração e suas estratégias mundiais”.

A Igreja convertida à causa da revolução proletária? Mais devagar! O jornal da LOC denuncia as injustiças do capitalismo, não fala de luta operária. Não há nem uma única notícia de acções reivindicativas, nem uma única palavra de ordem concreta, a indicar saídas para o inferno tão vigorosamente condenado. Os direitos, interesses e aspirações dos trabalhadores, escreve um colaborador, “só se defendem lutando, no bom sentido”. Nada de confusões!

É assim que os apelos à emancipação da classe operária acabam em poeminhas a Jesus Cristo; ataca-se a “avareza dos grandes senhores do Capital” com a proposta do bispo de Setúbal para “uma melhor distribuição dos bens materiais”‘, a grande arma contra a fome em Setúbal está descoberta: é o fundo de solidariedade da diocese. Emociona-se o leitor com a última mensagem de um militante político, “assassinado pelo general Evren na Turquia”, mas não há uma palavra para a luta concreta contra o fascismo e o imperialismo.

As denúncias de Voz do Trabalho são um isco para atrair operários ingénuos, sobretudo jovens, e canalizá-los, através do Amor, da compaixão e da esmola, para o reformismo e a colaboração de classes. A dinâmica real deste “Movimento Operário Cristão” vem expressa com toda a clareza num artigo de fundo do frade dominicano Dr. Jardim Gonçalves. Veja-se só: “É preciso ultrapassar a linguagem fatigante da queixa primária, que acusa, mas é incapaz de rasgar caminhos novos e propor soluções”. “É pela competência que o militante operário e o líder sindical poderão enfrentar-se com as entidades patronais e as instâncias do governo”. “É a formação que os habilita a sentarem-se à mesa das negociações”. Torres Couto e Teixeira da Silva não diriam melhor.

Seria um erro subestimar a ameaça que representam para o movimento operário as actividades da LOC e da JOC. A Igreja está em crise mas defende-se bem e não abandona o terreno. Sobretudo agora, quando o desemprego, a miséria e a incerteza do futuro predispõem tantos trabalhadores a deixar-se ludibriar pelo truque do sobrenatural, do “Amor entre os homens” e da “solidariedade”. A LOC e a JOC começam por agitar os sentimentos de indignação dos trabalhadores para acabar pondo-os de joelhos. É para isso que realizam seminários de formação de quadros, colóquios, inquéritos, festas. A missa é outra, a história é a mesma.

Política Operária nº 5, Maio-Junho 1986

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