Terror “vermelho” no Camboja

Francisco Martins Rodrigues

O morticínio ocorrido no Camboja sob o regime dos “khmers vermelhos” correu mundo como um exemplo terrificante do que são capazes os comunistas quando deixados à solta.

Livros, artigos e filmes difundiram a “informação” de que os “khmers vermelhos” teriam exterminado dois a três milhões de pessoas, numa orgia de loucura (1). Num filme de grande impacto várias vezes premiado pela Academia norte-americana de cinema, “Terra sangrenta” (“Killing fields”), de Roland Joffe, os espectadores viram assombrados macabras pilhas de caveiras e execuções sumárias gratuitas. Os horrores do Camboja mártir comoveram todos os quadrantes da opinião política. Com poucas variantes, liberais, social-democratas e humanistas passaram a citar os “khmers vermelhos” como o exemplo do fanatismo sanguinário dos comunistas. Os revisionistas alinharam no coro, atribuindo as atrocidades, não obviamente ao comunismo, mas ao “ultraesquerdismo”, culpado de todos os excessos.

Hoje, que o Camboja já saiu da ribalta política e as associações humanitárias já se cansaram de recolher fundos e alimentos para os khmers “vítimas do comunismo”, a guerra no Camboja continua. Desta vez sem publicidade. Porque os Estados Unidos, que há anos denunciavam Pol Pot como um novo Hitler, apoiam-no agora na luta contra o regime pró-vietnamita instalado em Pnom Penh. A questão do Camboja há-de ser sinistra até ao fim. Entretanto, a acumulação de testemunhos que se vão filtrando permite começar a levantar a ponta do véu. E afirmar que a opinião pública internacional foi manipulada por uma vasta campanha de propaganda, destinada a ilibar o imperialismo, desacreditar a causa da revolução e paralisar o apoio às lutas de libertação nacional.

Não porque os massacres do Camboja tenham sido inventados. Eles são uma das realidades mais negras da época contemporânea. Mas porque as imagens de horror difundidas por todo o mundo serviram para mistificar as questões de fundo: quem cometeu o genocídio no Camboja? o que eram os “khmers vermelhos”? como se chegou à situação caótica incontrolável de 1977-78?

Com este artigo, baseado em grande parte num trabalho há tempos publicado no jornal comunista norte-americano The Workers’ Advocate (2), tentamos avançar alguns elementos de resposta a estas questões.

O pesadelo do Camboja foi detonado pela agressão norte-americana. Este é o primeiro facto que importa estabelecer quando se procuram responsabilidades pelo genocídio do povo khmer.

TAPETES DE BOMBAS

A guerrilha dos “khmers vermelhos”, iniciada em 1967 próximo da fronteira da Tailândia, foi originada em revoltas camponesas contra a opressão e a miséria esmagadora que sofriam sob o príncipe Sihanuk. Milhares de camponeses apossavam-se das terras, executavam os senhores e os carrascos, instituíam reformas igualitárias, criavam os seus governos locais. Foi para esmagar esta revolução popular, que ameaçava a sua retaguarda no Vietname, que os Estados Unidos instalaram em 1970, através de um golpe da CIA, a ditadura fantoche de Lon Nol. Aqui começou o primeiro acto da tragédia cambojana. Como as áreas libertadas alastravam e já ameaçavam de cerco a própria capital, os generais do Pentágono chegaram à conclusão de que já não eram suficientes os massacres e torturas em massa infligidos aos camponeses (e que, a propósito, o filme de Joffe se “esquece” de apresentar) Em 1973 resolveram experimentar em escala ampliada o sistema dos “tapetes de bombas” que já tinham usado no Vietnam. Pode-se afirmar que este segundo passo na escalada americana contra o Camboja foi uma das maiores empresas de extermínio maciço dos tempos modernos Meio milhão de toneladas de bombas foram lançadas metodicamente durante seis meses sobre as aldeias cambojanas, com o objectivo de aniquilar a guerrilha pela supressão pura e simples da população, dos recursos agrícolas e de todas as formas de vida. Entre meio milhão e um milhão de pessoas pereceram sob as bombas e a fome e as epidemias que se seguiram. Mas desse acto de genocídio americano no Camboja não há em geral muito para dizer, fora das discussões técnicas sobre o melhor ou pior emprego dos bombardeamentos.

TRIUNFO E AGONIA

Curiosamente, aqueles que se apressam a comparar os “khmers vermelhos” aos nazis não notam que essa classificação se aplica ta com muito maior propriedade aos EUA. Suportando perdas terríveis e sacrifícios sobre-humanos, os “khmers vermelhos” acabaram por se apossar da capital, obrigando o embaixador e os “conselheiros” americanos e os seus lacaios mais chegados a fugir em pânico. A sequência da fuga dos helicópteros do aeroporto de Pnom Penh, em “Terra Sangrenta”, é uma homenagem involuntária à invencibilidade da guerra de massas, perante a qual toda a tecnologia militar imperialista se tornou impotente.

Mas os americanos ganhavam num aspecto: deixavam aos “khmers vermelhos” um país faminto, devastado, despovoado. E este foi o terceiro acto da tragédia. A tarefa gigantesca de reorganização total da economia e da vida social que se colocava aos “khmers vermelhos” era muito superior às suas capacidades. Lançaram-se em acções convulsivas, que agravaram ainda mais a situação, mas que nada tinham de demente, como pretende fazer crer a propaganda imperialista. A evacuação forçada da população urbana para os campos foi uma dessas tentativas desesperadas para enfrentar a catástrofe alimentar em que o país fora deixado. Além disso, após anos consecutivos de guerra feroz, as cidades tinham-se tornado focos da contra-revolução. Pnom Penh, como Saigão, era, na hora em que foi abandonada pelos norte-americanos, um vespeiro de fascistas, traficantes, bandidos e prostitutas.

Com os campos de trabalho agrícola, os rebeldes tentaram fazer face às ameaças da fome e da contra-revolução. Mas só conseguiram foi dizimar novos milhares de vidas pela fome e pelas epidemias e começar a perder a base de apoio popular de que inicialmente desfrutavam.

As medidas utópicas da abolição da moeda e da administração, em nome de um “comunismo puro”, agravaram o caos. É assim que, em 1977-78, à medida que se acentua o descalabro económico e se começam a registar revoltas camponesas contra o novo regime, os “khmers vermelhos” vão afundar-se na repressão e nas lutas entre facções rivais. É o epílogo da tragédia. O terror indiscriminado e as execuções sumárias tomam vastas proporções nalgumas regiões. (Note-se que Vickery, insuspeito de simpatia pelos “khmers vermelhos”, considera, com base numa grande massa de testemunhos de refugiados, que é absurdo o número de centenas de milhares de execuções divulgado no Ocidente).

O regime dos “khmers vermelhos” agoniza na violência desesperada. Como constata com amargura o “bom” americano no filme de Joffe, “subestimámos a loucura que iria ser desencadeada por sete biliões de dólares de bombas”. O mais que os liberais conseguem é lamentar os excessos do imperialismo.

FRACASSO DE UMA REVOLUÇÃO CAMPONESA

“Seja como for — argumentam os moralistas de consciência limpa — ficou provado que a ditadura dos comunistas é propícia para desencadear extremos de horror”. Quer dizer, os comunistas de todo o mundo deveriam sentir-se em falta por os “khmers vermelhos” terem sido incapazes de tirar o país do inferno em que fora mergulhado.

Além do seu cinismo evidente, este argumento repousa numa outra mentira que é necessário desfazer. Os “khmers vermelhos”, movimento revolucionário camponês, copiaram uma série de medidas e palavras-de-ordem dos comunistas, em especial do PC da China, mas nunca seguiram uma orientação marxista.

O chamado PC do Kampuchea constituiu-se em 1960 pela junção de um grupo de estudantes nacionalistas regressados de França (Pol Pot, leng Sary, etc.) com o núcleo cambojano do antigo PC da Indochina, entretanto desmembrado em ramos nacionais. Travou-se a partir daí no seio do partido uma luta, a princípio surda, depois cada vez mais explosiva, entre a tendência nacionalista radical de Pol Pote a tendência revisionista dos pró-vietnamitas.

Acossado pela repressão do príncipe Sihanuk (o famoso príncipe “neutralista”, então como hoje acarinhado pelos chineses) e forçado a actuar apenas nas zonas mais recuadas, o partido não declarou publicamente a sua existência e os seus objectivos, para não despertar a hostilidade dos camponeses. Actuava nas aldeias como uma sociedade secreta, conhecida sob o nome de “Angka” (“A Organização”) e foi-se modelando pouco a pouco, não como um partido comunista mas como um partido camponês.

Sem uma política comunista, sem base operária, os “khmers vermelhos” acabaram por ganhar um acentuado cunho nacionalista, voluntarista e puritano, isto é, pequeno-burguês, típico das organizações revolucionárias camponesas. Não se guiavam por um programa marxista para a revolução mas pela mística do renascimento da pátria através do trabalho agrícola. Glorificavam os camponeses como a vanguarda da revolução e endeusavam a espontaneidade das massas. Formaram assim uma poderosa corrente social, inspirada nos traços mais negativos do maoísmo, condenada a perder as potencialidades revolucionárias iniciais à medida que a luta de classes lhe ia colocando tarefas mais pesadas.

Como revolucionários camponeses, com um horizonte ideológico limitado, os “khmers vermelhos” encaravam os operários das cidades como estranhos ao campo, tão merecedores de desconfiança como os burgueses, e lançaram-se a “reeducá-los” pelo trabalho agrícola. Com maior rigor ainda actuaram contra os empregados e intelectuais, que consideravam em bloco como parasitas gerados pelas cidades corruptas, e muitos dos quais foram exterminados nos campos de trabalho.

Incapazes de compreender o papel da classe operária, incapazes de fazer uma diferenciação entre os diversos sectores da população urbana, que lhes permitisse distinguir entre os elementos a isolar, neutralizar ou a atrair, incapazes de manobrar politicamente, os “khmers vermelhos” acabaram por só ter à sua frente a via da repressão maciça. Isto constitui um elemento de acusação, não, como se quer fazer crer, contra os comunistas, mas contra os desvios do comunismo.

NO PÂNTANO DO NACIONALISMO

O outro grande factor de degeneração política dos “khmers vermelhos” foi a sua mística nacionalista, que gradualmente evoluiu para um chauvinismo exacerbado ao colocarem como reivindicação a recuperação das regiões que em séculos passados tinham sido integradas pela força no Vietname. A China, pela sua parte, tratou de criar o clima propício para envenenar as disputas de fracções entre os adeptos de Pol Pot e os pró-vietnamitas. A partir de 1977, as execuções em massa começaram a atingir todos os suspeitos de simpatias pelo Vietname. Com a tentativa de revolta dos “khmers vermelhos” pró-vietnamitas, no ano seguinte, a repressão chauvinista tomou novas proporções e todos os grupos étnicos vietnamitas começaram a ser massacrados. Criou-se assim uma situação caótica que foi explorada pelo Vietname para a invasão de 1979 e para instituir um regime alinhado com Hanói e com a União Soviética.

Quando foi desintegrado pela invasão vietnamita, o regime de Pol Pot, em crise insolúvel, começava a voltar-se para as velhas classes dominantes das cidades, em busca de apoio para reorganizar a produção e o comércio. O “comunismo” camponês, ultra-radical e utópico, ia desaguar no capitalismo. Se não tivessem sido derrubados, os “khmers vermelhos” terminariam como um regime burguês nacionalista. De resto, a passagem das forças de Pol Pot, nos anos recentes, para o serviço da CIA, atesta a sua decomposição política irreversível.

OS COMUNISTAS ACUSAM

Face à tragédia do Camboja, os comunistas não se desculpam mas acusam. Acusam o imperialismo norte-americano como o sucessor do nazismo, o maior criminoso da história da humanidade e o grande responsável pelo holocausto do povo khmer. Exigir que sejam castigados os governantes e generais assassinos dos EUA é a marca de uma atitude de princípio face à questão do Camboja.

É isto que iludem os críticos liberais e reformistas do imperialismo, com a sua aparente imparcialidade entre ambos os campos. Condenam os horrores do imperialismo apenas como excessos, lamentáveis e injustos, mas que fazem parte das realidades deste mundo. Quanto à violência produzida pela revolução não querem saber das causas que a desencadearam e pintam-na como um ultraje ao género humano. Tornam-se assim, em nome dos “valores humanos”, apologistas da manutenção da ordem capitalista.

Os revisionistas pró-soviéticos são mais refinados. Apresentam os massacres do Camboja como produto de “excessos revolucionários esquerdistas” e traçam um quadro idílico do actual regime “democrático-popular” no qual a exploração da pequena burguesia sobre as massas populares é restaurada diariamente. Apoiado no exército de ocupação vietnamita, o governo burguês de Heng Samrin tenta chegar a um compromisso com as forças de Sihanuk e de Son Sanu, ligadas à China e aos EUA.

Assim, o abismo que parece haver à primeira vista entre o anticomunismo primário do Readers’ Digest e as pregações do diário acerca do Camboja reúne, em duas versões extremas, a mesma mensagem essencial: cuidado com a revolta das massas oprimidas, porque ela traz um desencadeamento incontrolável de horrores.

Para nós, a tragédia do Camboja não pôs em causa a necessidade da revolução mas confirmou-a. A revolução cambojana naufragou sob o assalto feroz do imperialismo por estar privada de uma direcção operária comunista. A experiência dos “khmers vermelhos” demonstrou que hoje, mais do que em qualquer outra época da história, a revolução camponesa, entregue a si própria, só pode terminar em desastre.

O Camboja provou uma vez mais, se tal ainda fosse necessário, que, na luta para derrubar o capitalismo e o imperialismo, não há alternativa para a ditadura do proletariado.

 NOTAS

(1) Podem citar-se John Barron e Anthony Paul (Murder of a gentle land) e François Pouchaud (Cambodia year zero) entre os peritos do anticomunismo primário; a obra de William Shawcross é um exemplo da versão liberal imperialista; Michel Vickery (Cambodia 1975-82) e Chandler (Revolution and its aftermath in Kampuchea) produziram análises na linha do revisionismo pró-soviético.

(2) The Workers’ Advocate, órgão do Marxist Leninist Party, USA, de 1 de Abril e 1 de Julho de 1985.

Política Operária nº 5, Maio-Junho 1986

 

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