Já não há portugueses honrados

Francisco Martins Rodrigues

Com a malograda campanha pela eleição dum presidente eanista, o PCP comemorou da pior forma meio século de luta pela unidade democrática. O mais duro para os adeptos de Cunhal não foi ter de engolir o voto em Soares mas ter visto desabar em semanas toda a estratégia de colagem ao eanismo. Mais um projecto unitário do partido a acabar em desilusão.

Nestes dias, Álvaro Cunhal não poderá deixar de reflectir melancolicamente sobre o fracasso da obra a que consagrou toda a sua vida. E os militantes do PCP, se ainda lhes restar algum espírito autocrítico, terão que se interrogar sobre a política em que sucessivas gerações empenharam tantos esforços e sacrifícios. Com efeito, foi exactamente há 50 anos que Cunhal surgiu na direcção do Partido Comunista, animado pela grande esperança de criar uma frente com todos os democratas e patriotas, que tornasse mais fácil a queda de Salazar. Desde esse dia até hoje, sete grandes campanhas se sucederam, nas mais diversas circunstâncias, por aquilo a que Cunhal chamou, com o fogo da sua eloquência, a “unidade dos portugueses honrados”.

Milhares de comunistas desafiaram perseguições, passaram pelas cadeias, na primeira fila da luta operária e popular. Mas a tal unidade parece cada vez mais distante e os destinos da vida nacional cada vez menos nas mãos do PCP. Chega a hora em que até os mais crédulos têm de se perguntar: se em vez de lutar pela democracia, tivéssemos lutado pela revolução, não estaríamos melhor?

O peso do desalento que abate os militantes do PCP tem uma história, ainda que muitos a desconheçam. É a história dessas sete campanhas que aqui recordamos brevemente. Como aviso aos incautos.

1ª CAMPANHA: A FRENTE POPULAR

Em 1936, Cunhal chegou de Moscovo disposto a realizar em Portugal a alternativa nova que Dimitrov propusera aos comunistas: deixemos a luta “sectária” por uma impossível revolução soviética, liguemo-nos aos republicanos e liberais para conseguir pelo menos a democracia e a paz. Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.

O PCP mobilizou-se para a formação de uma Frente Popular semelhante às que em França e Espanha despertavam tantas esperanças. Os resultados, porém, não foram famosos: enquanto se discutia o programa de governo da Frente Popular, a resistência ao fascismo chegava ao ponto mais baixo. A moderação do partido fazia-lhe perder o crédito junto dos operários sem conseguir convencer os republicanos a uma luta que achavam suicida. Assim se chegou ao ano negro de 1939, sem Frente Popular, sem luta antifascista e quase sem Partido Comunista.

2ª CAMPANHA: O M.U.D.

O erro, pensou Cunhal, fora a falta de força do partido para ganhar os aliados. Os republicanos eram honrados mas fracos. Se se concentrasse primeiro o esforço no fortalecimento da influência comunista junto dos operários, os aliados viriam. Assim se fez durante os conturbados anos da guerra e os resultados pareceram de início prometedores. Em 1945, o PCP, dirigente de grandes greves, tornava-se o animador do MUD, Cunhal era ouvido com respeito pelos democratas, o povo manifestava-se contra a ditadura.

Mas uma doença minava esta grande unidade: os republicanos perceberam que a mistura com o PCP não os ajudava junto dos ingleses e americanos; receavam a queda da ditadura por uma insurreição popular; queriam ser eles a subir ao poder, por eleições ou por um golpe militar, mas sem desordens.

Cunhal viveu a amargura da ingratidão. O grande movimento do MUD acabou como um balão vazio na candidatura de general Norton de Matos. Salazar riu-se da Oposição impotente. E o partido, de novo isolado, sofreu tão duros golpes da PIDE que quase voltou a ser destruído.

3ª CAMPANHA: O GENERAL DELGADO

Nos anos seguintes, com Cunhal na cadeia, o PCP começou a ter sérias dúvidas sobre a viabilidade da união com os republicanos, menos interessados do que nunca em lutas radicais. Era o tempo da guerra fria e todos queriam agradar à NATO, ninguém queria nada com os comunistas. O mais que se conseguiu foi reunir uma pequena franja democrática no MND. E o PCP começou a falar numa revolução popular.

Mas, em 1958, a ruptura do general Humberto Delgado com o regime e o grande movimento em torno da sua candidatura despertaram de novo a esperança na unidade. Os discípulos de Álvaro Cunhal na direcção do PCP jogaram tudo por tudo para facilitar a passagem à democracia que parecia próxima. Propuseram a saída pacífica a Salazar, apoiaram conspirações militares, apelaram à reconciliação nacional. Tentaram desagregar o fascismo namorando os fascistas.

Tudo em vão. A agitação dos trabalhadores, mais ampla do que nunca, esgotava-se por falta de direcção revolucionária. O regime que parecia moribundo ultrapassou a crise, Delgado teve que se exilar. O PCP encontrou-se de novo isolado e desacreditado perante os operários que começavam a achá-lo incapaz de derrubar o fascismo.

4ª CAMPANHA: A FRENTE PATRIÓTICA

Ao retomar a direcção do partido em 1960, Cunhal atribuiu os desaires políticos ao desnorteamento dos seus amigos que diluíra o campo democrático. O caminho para deitar abaixo Salazar, explicou, não passava nem pelo namoro aos fascistas nem pelo insurreccionismo que já fermentava nas fileiras do partido. Era preciso retomar o trabalho persistente para juntar o movimento dos operários com o movimento dos republicanos, reconstruir o bloco da unidade democrática.

Mas a Frente Patriótica não fez mais pela queda do fascismo do que tinham feito as anteriores. O povo continuava a lutar nas empresas, nas ruas, nas “eleições”, mas a FPLN pouco mais produzia do que pequenas intrigas. Não havia ninguém que quisesse ou soubesse dirigir a luta para uma insurreição.

Foram afinal os guerrilheiros das colónias que acabaram por resolver o problema insolúvel para a Oposição Unida portuguesa. À custa de rios de sangue, criaram uma situação insustentável ao regime e forçaram uma parte do exército a agir para evitar o descalabro total. O 25 de Abril, apregoado como o coroamento de decénios de luta democrática, foi-nos oferecido pelos povos de África.

5ª CAMPANHA: A ALIANÇA POVO/MFA

No meio da euforia da liberdade, Cunhal pôde convencer-se e convencer os demais de que o 25 de Abril fora um prémio de meio século de Unidade. Agora só faltava mais unidade para consolidar a democracia.

Aconteceu contudo o que não previra: a derrocada do Estado fascista abriu brechas por onde os operários e assalariados se internaram sem regras nem normas: manifestações, greves, ocupações e exigências inconcebíveis. Cunhal seguia-os, fingindo que os conduzia para não dar parte de fraco. Mas o seu instinto dizia-lhe que todo aquele tumulto não ia dar em nenhuma Democracia Nacional. A desunião era cada vez maior. Estava em risco de se perder o esforço de quase meio século.

A aliança Povo/MFA foi a nova tradução da estratégia da Unidade. Podia-se confiar nos capitães de Abril, nos seus ideais democráticos, na sua moderação e bom senso, na sua força. Amparada a eles, a democracia salvar-se-ia das minorias reaccionárias como das “esquerdistas”.

Mas, para surpresa de Cunhal, os militares de Abril mostraram-se incrivelmente fracos e divididos perante a direita. Além disso, quanto mais se evitava dar pretextos à reacção, mais ela crescia. E assim o sonho de Abril naufragou no 25 de Novembro sem ser disparado um tiro. Ia ser preciso recomeçar de novo.

6ª CAMPANHA: A MAIORIA DE ESQUERDA

Não havia que dramatizar os acontecimentos, pensou Cunhal. Perdera-se a utopia da revolução mas ganhara-se um Estado democrático avançado. Os socialistas, agora livres da psicose dos tumultos, compreenderiam a vantagem de colaborar com um forte PCP bem implantado no parlamento, nos sindicatos, no Alentejo, nas autarquias. A própria vida imporia a Mário Soares a necessidade de se apoiar numa maioria de esquerda para fugir à ameaça da direita.

Mas o PS só entendia que era preciso devolver a confiança aos capitalistas traumatizados e aos americanos descrentes e para isso golpear o PCP e as “conquistas de Abril”. A mão estendida do PCP foi grosseiramente repelida. O PS aliou-se ao CDS, meteu o país nas mãos do FMI, deu cabo da reforma agrária, fez todos os fretes à direita, até que acabou logicamente por ser derrubado pela AD.

Os trabalhadores descobriram acabrunhados que a “transição para o socialismo” que o PCP diariamente lhes prometia desembocava na direita. A desmoralização alastrou como nunca: para onde vamos agora? Mas nem tudo estava perdido porque Cunhal descobria uma nova estrela democrática a despontar — o eanismo.

7* CAMPANHA: EANES AMIGO

Se o PS se deslocara para a direita de forma tão decepcionante, raciocinou Cunhal, o lugar dos verdadeiros democratas irá certamente ser ocupado por uma nova força. Ainda havia portugueses honrados em Portugal, capazes de se aliar aos comunistas e aos trabalhadores para salvaguardar a democracia.

Durante cinco anos, o PCP acompanhou com desvelo os passos cambaleantes do jovem partido eanista, evitando tudo o que o pudesse perturbar, demonstrando-lhe que o PCP é forte e sem arrogância e modesto nas suas pretensões. Fez-se tudo o que se pôde para derrubar Soares sem assustar Eanes.

Finalmente, em Outubro, numa explosão de alegria, Cunhal julgou ver premiados os seus esforços: o PRD ia roubar a influência ao PS, Soares ia sofrer o castigo por ter voltado as costas ao povo e se ter vendido ao imperialismo, a Unidade democrática iria criar finalmente um regime estável em Portugal.

Em Janeiro, foi o desabar dos sonhos. A 7ª campanha chegava ao fim derrotada de forma ainda mais humilhante que as anteriores. A maioria do povo rejeitava a Unidade e dava preferência aos dois candidatos da direita e do imperialismo, Freitas e Soares. Não houve remédio senão cerrar fileiras em torno do menos mau para evitar o pior. Os militantes do PCP sofreram um abalo político de que tardarão a recompor-se.

VEM Aí A 8ª CAMPANHA

A esta hora, Cunhal repõe, com paciência tenaz, as pedras no tabuleiro unitário desmantelado: talvez Eanes consiga dar novo fôlego ao raquítico PRD; talvez o PS compreenda o perigo da direita; talvez Soares se reconcilie com Eanes… Se o PCP continuar a demonstrar que é uma força necessária e responsável, quem sabe?

A unidade democrática dos bons portugueses já foi tentada em todas combinações possíveis: em fascismo, em democracia, em crise revolucionária; com republicanos tradicionalistas, com socialistas, com generais descontentes e com capitães amotinados; com manifestações, greves, petições, eleições.

Falhou sempre, mas Cunhal não esmorece. Com fé obstinada e obtusa que seria comovente se nela não fossem jogados os destinos da classe operária portuguesa procura o milagre de uma República estável em que todos sejam felizes, os bons operários e os bons patrões, todos em pacífica caminhada para o socialismo.

Cunhal não entende que o seu esquema está de pernas para o ar: não é apelando à unidade que se alcança o socialismo; só se a classe operária for capaz de impor o socialismo, em guerra aberta com a burguesia, conseguirá unir o povo. Não é a Unidade que dá a revolução, é a revolução que dá a unidade. Cunhal errou tudo.

E é incapaz de perceber que, com o seu grande projecto, julgando conduzir a política nacional, tem sido conduzido. E tem levado a classe operária a reboque dos ziguezagues da burguesia democrática e nacional, cada vez menos democrática e nacional. Fez-nos perder meio século.

Mas está firmemente convencido de que tem razão e vai lançar-se na sua 8ª campanha. Com realismo. Vai tentar despertar os brios democráticos do presidente Soares, cativar o PS, amparar o PRD, aceitar a UGT, mostrar-se sensato face às realidades da CEE e da NATO. Vai pôr o movimento operário de joelhos. Aos que o quiserem seguir, bom proveito.

Política Operária nº 4, Mar-Abril 1986

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