A segunda morte de Chico Miguel

Francisco Martins Rodrigues

A morte, aos 80 anos, de Francisco Miguel Duarte, fez perder à direc­ção do PCP talvez o mais destacado sobrevivente dos seus tempos heróicos. Com 21 anos passados nas cadeias e no Tarrafal, quatro evasões audaciosas, a vida toda entregue ao partido, ele tornara-se uma figura lendária de resistente.

Mas era já só uma sombra do velho Chico Miguel de outros tempos. Reduzido a uma função decorativa no Comité Cen­tral, ninguém diria que este velhinho apa­gado que era mostrado nos comícios e que produzia lamentáveis livros de versinhos “populares” fora em tempos um comba­tente comunista e antifascista indomável. É essa trajectória de derrocada que interessa sobretudo lembrar no momento da sua morte, para entender como foi possível.

Nos anos 40, se os operários do partido respeitavam unanimemente Álvaro Cunhal pela sua “cabeça”, era contudo para Fran­cisco Miguel que ia o seu afecto caloroso. Não apenas pela sua origem proletária e pela sua simplicidade, mas porque ele era como que um concentrado do ódio de classe à burguesia.

Nas cadeias fascistas, onde passou boa parte da sua vida, ele era o mestre infatigá­vel das novas gerações de comunistas, a quem transmitia os rudimentos do mar­xismo e sobretudo a sua lucidez cortante, que não consentia ilusões sobre a luta de classes. No Aljube, em Caxias, em Peniche, ouvi-lhe repetir com paixão sempre os mesmos argumentos: o que faz a força dos capitalistas não são as armas deles mas a estúpida esperança que conseguem espa­lhar no nosso campo em meios-termos que não existem; quando chegar a hora da ver­dade, ou nós os liquidamos, ou eles massa­cram milhares dos nossos para se conser­varem no poder;  os democratas que que­rem manter a luta contra o Salazar nos limites da ordem têm mais medo do povo do que do fascismo; querem servir-se de nós como escada, e o pior é que há comu­nistas tão parvos que estão prontos a fazer-Ihes esse frete…

Mas os tempos não iam propícios à luci­dez. Com as forças operárias revolucioná­rias a decrescer e o reformismo burguês a invadir tudo, Chico Miguel começava a fazer figura de visionário, mesmo entre os seus camaradas. A grande viragem refor­mista da União Soviética no final dos anos 50 foi um golpe de que nunca mais se recompôs. Romper com a URSS era coisa que estava fora dos seus horizontes. E submeteu-se.

Em 1960 ainda ridicularizava com ironia cáustica a linha do afastamento pacífico de Salazar e da “reconciliação nacional”. Depois, levado para Moscovo, foi encon­trando argumentos para aceitar o “novo pensamento” e conviver com o revisio­nismo. Em meados dos anos 60, foi talvez o seu último sobressalto de velho revolucio­nário: retornou à clandestinidade, onde veio dirigir as acções da ARA contra a guerra colonial.

Por fim, com o 25 de Abril e a euforia “democrática nacional” que parecia vir dar razão às teses de Cunhal, Francisco Miguel rendeu-se e deixou definitivamente de pen­sar como comunista. Destroçado ideologi­camente, deixou-se usar como um dócil instrumento pela linha reformista. Apare­cia nas reuniões e comícios a papaguear conselhos e alertas contra o “esquerdismo” e a justificar todas as cedências do partido.

Assim morreu esquecido pela classe operária aquele que fora um dos seus melhores representantes. A sua fibra de lutador não foi suficiente para o salvar da lenta degeneração do partido comunista e do movimento comunista internacional, que arrastou na voragem do reformismo o exército mundial proletário que fora posto de pé pelo leninismo. Razão tinha ele quando respondia, noutros tempos, rindo maliciosamente, aos que o acusavam de “esquerdista”: “O perigo é rendermo-nos à burguesia.”

Política Operária nº 15, Mai-Jun, 1998

Livros disponíveis de Francisco Martins Rodrigues

Anti-Dimitrov (2009, 2ª ed., 328 págs. – 21 €)

Os Anos do Silêncio (2008, 120 págs. – 11 €)

História de uma Vida (2008, 320 págs. – 13,65)

Abril Traído (1999, 120 págs. – 8,40 €)

A Conspiração dos Iguais de Ilya Ehrenburg (186 pp.), tradução de FMR (2004, 190 págs., 12 €)

Envios à cobrança

Pedidos a elaporelaeditora@gmail.com

 

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