A outra oposição

Francisco Martins Rodrigues

Nos anos 50 começa a sentir-se a projecção da revolução na China, ganham mais ímpeto os movimentos nacionalistas, Bandung, não alinhados. Ao mesmo tempo que declina a imagem da União Soviética como baluarte do socialismo e do anti-imperialismo: 20º congresso, coexistência, passagem pacífica ao socialismo…

Esta concorrência entre dois centros do “socialismo” (aquilo a que no século XX se chamou “socialismo”, o desenvolvimento capitalista promovido pelo Estado apoiado nos operários, camponeses e intelectuais patriotas) reflecte-se no PCP e no nosso movimento antifascista. A confiança incondicional na direcção da URSS, alimentada pelos combates da guerra mundial, começa a ser abalada. Abre-se espaço para duas correntes na área do comunismo. A antiga está instalada, tem experiência acumulada, domina largamente. Mas a nova corrente tem o dinamismo de uma referência renovada às origens, “Viva o leninismo”, crítica às direcções comunistas europeias mergulhadas no reformismo. A crítica inicial do PC China foi muito diferente do rumo que seguiu depois com o auge da revolução cultural.

As ideias da revolução cultural causaram-me muita perplexidade. Enfim, aquilo que se sabia e que não era muito. Parecia-me pouco consistente ideologicamente. Havia também forças revolucionárias no meio daquilo tudo, mas foram também liquidadas.

Aquilo que me sugestionou mais foi, de facto, a fase inicial, a ruptura com a União Soviética. Mesmo aí com muitas limitações, eles nunca se aventuraram muito pela questão do Estaline.

A revolução na China, as revoluções de libertação nacional no Vietname, Índia, Indonésia, depois alastrando a África, subvertem a imagem chauvinista tradicional, implantada mesmo na corrente comunista, que via os povos asiáticos e africanos como infantis, condenados a esperar que o socialismo dos avançados os libertasse. Hoje é difícil reconstituir a imagem degradante dos povos coloniais que era alimentada pela literatura, imprensa, cinema. Até o Avante protestava contra a entrega do nosso património. Nesse tempo ainda não se tinha inventado o “politicamente correcto”, era todo franco e brutal. Descobrimos que esses países atrasados podiam tomar a cabeça da luta contra o imperialismo. Vietname foi uma descoberta electrizante para uma geração jovem.

Argélia comprometeu definitivamente na minha geração a imagem da França das liberdades, da Resistência, etc. Crimes do exército.

Cuba foi outro terramoto. Inicialmente olhados com superioridade, aventureiros da luta armada, à margem do movimento de massas, etc., revelam-se como revolucionários autênticos. O representante reconhecido pelo MCI, o Partido Popular Cubano, ficam numa posição pouco digna. A popularidade de Fidel nos meios populares, Margem Sul, Alentejo, era um facto.

Não vivi de perto a campanha de Humberto Delgado, mas apercebi-me depois do abalo que tinha causado na autoridade política do PCP. Foi prolongada pelo assalto ao Santa Maria e pelo golpe de Beja.

Acabou um período em que a resistência antifascista era “propriedade” incontestável do PC, as concepções sobre a gradual acumulação de forças pelos meios legais começou a ser contestada. Muito mais gente começou a interessar-se pela política, estudantes, até católicos progressistas. Novo tipo de militante operário, muito menos “ortodoxo”, mais impaciente. A repressão também já não consegue sufocar todo como no início dos anos 50. Novo capitalismo já não tem paciência para as ordens da PIDE (Champalimaud), mais flexibilidade, mais diversidade de relações.

Isto abriu a porta ao retorno de concepções do tipo conspiração e golpe militar, mas também a (uma estreita franja) renascimento de ideias revolucionárias: derrube da ditadura por um levantamento popular. É aí que se começa a articular a chamada dissidência “maoísta”, mas que só mais tarde tomou essa coloração. Era a ideia de um retorno a um PCP passado (largamente imaginário), mais proletário, mais revolucionário. Com o desmantelamento do CMLP, a corrente torna-se mais difusa ideologicamente, percorrida pelo guevarismo, depois maoísta, mas alastra na juventude e vem a revelar-se após o 25 Abril, com todas as limitações e contradições do movimento M-L.

Guerra colonial inicia o período final da ditadura e de ascenso da resistência. Mas não foi imediato. Tiveram que passar uns 4 anos de guerra para o choque chegar à direcção do PCP, surgir a ARA, as Brigadas Revolucionárias. A influência directa da luta de guerrilhas no golpe dos capitáes é ainda hoje diluída ou escamoteada, por razões de orgulho patriótico. Não nos fica bem. Foi a grande alavanca da queda do fascismo.

Canal Memória, entrevista a António Louçã. Gravado em 5 Junho 2007

 

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