Nos subterrâneos do desanuviamento

Francisco Martins Rodrigues

Passaram despercebidas entre nós as recomendações para uma nova estratégia americana nos anos 90, divulgadas em Janeiro por uma comissão de alto nível, por encargo do Departamento de Estado e do Conselho Nacional de Segurança dos EUA. No momento em que as atenções se voltam esperançosas para as negociações Reagan-Gorbatchov em Moscovo, seria bom tomarmos em conta o recado contido no relatório produzido pela comissão.

Considerando que as hipóteses de con­flito global na Europa parecem afastadas por agora, o relatório prevê o agravamento dos conflitos armados “de fraca intensi­dade” em países do Terceiro Mundo e pro­põe novas tácticas de intervenção america­na em regiões longínquas, sem depender do apoio de bases militares. Concreta­mente, pede o reforço do auxílio militar aos regimes “amigos” e a criação de “forças de cooperação”, compostas por destacamen­tos americanos e aliados para intervir nes­ses conflitos regionais.

Apoiando vigorosamente a doutrina Reagan, que prevê a criação de movimen­tos rebeldes anticomunistas, do tipo dos contras da Nicarágua, o relatório afirma: “Os Estados Unidos deverão apoiar insur­reições anticomunistas onde quer que haja interesses americanos a defender e onde se preveja que a nossa intervenção pode ter efeitos positivos”. Principais zonas visa­das: a América Central, a África austral, a região do Golfo e o Sueste asiático.

Além disso, tendo em vista compensar a previsível inferioridade numérica das “for­ças da liberdade”, o relatório aconselha o seu equipamento com armas convencio­nais “inteligentes”, armas cuja precisão, potencial destrutivo e longo alcance as equiparam às armas nucleares tácticas.

Desenha-se assim um renascimento da estratégia de “dissuasão” dos anos 50, de que foram mentores Foster Dulles e Kissinger, e que visava a distribuição pelas zonas nevrálgicas do mundo de forças de inter­venção rápida. Foi, como se sabe, essa doutrina da resposta “contra-insurreccional” às guerras de libertação que lançou Kennedy na aventura do Vietname. Hoje, esquecido o choque da derrota, e com os novos regimes pós-coloniais atolados na crise, os estrategas do Pentágono começam a sonhar com novas aventuras,

E não se trata apenas de sonho. A sim­patia calorosa com que os dirigentes do Partido Democrático encaram estas pro­postas indica que o risco de novas escala­das agressivas é bem real.

Será que os arautos do pacifismo anti-imperialista ainda não perceberam que a euforia do desanuviamento gorbatchoviano está a abrir a porta a nova onda de crimes americanos, tal como o desanuvia­mento kruchovista de há 30 anos facilitou o começo da guerra do Vietname?

Política Operária nº 15, Mai-Jun 1998

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