A peste

Francisco Martins Rodrigues

 No fim da guerra mundial, era difícil encontrar na Ale­manha quem reconhecesse sem relutância a bestialidade do genocídio nazi. Uns por­que se tinham “limitado a cumprir ordens”, outros por­que “não sabiam”, outros ainda porque teimavam em duvidar – todos se refugia­vam em desculpas para não assumir a sua parte na respon­sabilidade colectiva pela mon­tagem da máquina de exter­mínio.

Nisto pensámos ao assistir ao debate sobre as guerras coloniais, finalmente promo­vido pelo programa “Con­cordo ou talvez não”, depois dos tragicómicos adiamentos e arranjos impostos pela di­rectora da produção, a senhora de Nuno Rocha.

Lado a lado, em civilizado diálogo, defensores e oposito­res do colonialismo trocaram piropos em estilo parlamen­tar, como se o que estivesse em causa fosse uma ninharia e não um crime colectivo.

A tese fascista foi defendida por um brigadeiro e um coro­nel que, abordando a guerra de um ponto de vista “estrita­mente técnico”, a considera­ram um bom trabalho; se não fosse a intromissão das super­potências, o “inimigo terro­rista” leria sido batido e hoje reinaria a paz na África portu­guesa.

No campo oposto (?), tive­mos um capelão que falou com orgulho dos seus proble­mas de consciência, uma se­nhora que contou pequenas histórias sentimentais para valorizar o seu sofrimento como mulher de um oficial, e o inevitável Manuel Alegre, sempre o mesmo demagogo profissional, a condenar com brio a acção da PIDE para assumir com orgulho o seu passado de antigo combatente.

A responsabilidade pelos milhares de mortos, pelas aldeias queimadas a napalm, pelos massacres e torturas, pelos horrores dessa guerra infame que todos nós não sou­bemos impedir, evaporou-se na animação do diálogo.

E foi este o debate a que tivemos direito, treze anos depois do fim das guerras. Os ingénuos incuráveis, que reve­renciam tudo o que soe a plu­ralismo, não vão perceber que assistiram a uma sessão de propaganda colonialista. Os brigadeiros e os coronéis, esses, vão continuar a mover as pedras, com insolente segu­rança, com vista ao próximo massacre técnico.

Política Operária nº 15, Mai-Jun 1998

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