PC(R): a decadência do centrismo

Francisco Martins Rodrigues

HÁ PRECISAMENTE dez anos, 160 delegados, jovens na sua maioria, proclamavam numa sala de Lisboa a fundação do PC(R). Apesar do 25 de Novembro, o entusiasmo era grande. Palpitava ainda o ímpeto dos grandes movimentos populares dos meses anteriores. Declarando-se orgulhosamente herdeiro das “tradições revolucionárias do velho PCP de Bento, Alex, Militão e Gregório”, o PC(R) propunha-se ganhar a direcção do movimento operário, criar em torno da UDP uma grande frente popular e avançar para a revolução.

Nos anos imediatos, com um deputado da UDP no parlamento e uma influência apreciável em grandes empresas e bairros pobres, o partido parecia a caminho de se consolidar como um sério rival à esquerda do PCP, capaz de deslocar para as suas palavras de ordem combativas um importante sector da classe operária. A ilusão, porém, não durou muito. O desfazer das esperanças numa nova ofensiva popular e a crise internacional da extrema esquerda após a derrota da ‘‘revolução cultural” na China tiveram virão de cima com dureza os pontos fracos da plataforma do partido. Sucederam-se as lutas internas e os abandonos.

Para a maioria dos que o abandonaram, a crise do PC(R) explicar-se-ia pelo dogmatismo das suas análises e a rigidez esquerdista da sua táctica. Para aqueles, como nós, que abandonaram o partido na sequência da sua última luta interna, o dogmatismo e a rigidez são apenas manifestações de um mal profundo, de natureza política — o centrismo, ou seja, a busca de uma linha de meio-termo entre os interesses revolucionários da classe operária e os interesses reformistas da pequena burguesia.

Nesta busca se tem esgotado o PC(R) nos últimos dez anos. Embora não pareça em vias de extinção, como as outras forças de esquerda que floresceram em 74-\75, a sua queda na órbita do PCP começa a tornar-se evidente.

Neste artigo, que resume as conclusões de um debate há meses promovido pelo colectivo de ‘‘Política Operária”, pretendemos, não fazer uma história do PC(R), mas mostrar, na origem da sua crise, a vacilação perante a luta de classes central da nossa sociedade — a luta entre proletariado e burguesia.

O “25 DE ABRIL DO POVO”

A luta por um “25 de Abril do Povo”, por um novo auge de massas que anulasse o 25 de Novembro e levasse ao poder um governo “antifascista e patriótico”, foi durante anos a bandeira que identificou o PC(R).

Hoje é fácil ver que esta perspectiva exprimia o apego de um sector da vanguarda popular às ilusões de Abril, a sua incapacidade para tirar, a frio, a lição dos acontecimentos. Em vez de concluir que o proletariado se deixara “comer” pela sua menoridade política face à pequena burguesia “revolucionária”, agarrava-se à esperança numa reedição melhorada do “milagre” de 75.

Esta visão frouxa da luta de classes, que marcava um recuo em relação a 1964 (quando a “Revolução Popular” lançara os primeiros alicerces da ruptura com o revisionismo), é que está na origem do PC(R) ter vindo a encontrar-se sem espaço político.

Isto, naturalmente, não transparecia nos primeiros tempos. Política oportunista, na medida em que iludia as tarefas do proletariado sob uma cortina de devaneios populares, o 25 de Abril do Povo revestia apesar disso em 1976-78 um cunho radical e combativo, com a sua oposição irreconciliável ao 25 de Novembro e a sua aposta numa “reabertura popular da crise”.

O êxito relativo da campanha eleitoral de Otelo, poucos meses depois da fundação do partido, e o desaire aí sofrido pelo PCP, pareceram por momentos confirmar estas ilusões. O PC(R) lançou-se com ardor à tarefa de desalojar os “revisas” das empresas e, apoiado na UDP, conquistar a direcção de uma corrente popular ofensiva. A sua intervenção nas lutas reivindicativas, nas manifestações da CGTP, no parlamento (onde Acácio Barreiros granjeou amplo apoio popular), permitiu-lhe conservar as forças quando toda a esquerda revolucionária estava já em decomposição.

Implantado em grandes empresas das regiões de Lisboa, Setúbal, Aveiro, Porto, nos assalariados do Douro e nos camponeses pobres da Madeira, com uma influência considerável nos bairros pobres e na intelectualidade e funcionalismo através da UDP, o PC(R) começava a fazer sombra pela esquerda ao PCP.

Porém, à medida que o movimento operário era forçado a consentir recuos, que a animação do movimento democrático se extinguia e que o bloco unido novembrista se diferenciava em três alas, a mística da “via do povo para um novo Abril” entrou em crise.

Nas empresas e sindicatos, a ofensiva “anti-esquerdista” do PCP começou a surtir efeito sobre militantes que viam as massas operárias cada vez mais conformadas. A agitação exaustiva “por um governo do 25 de Abril do povo” revelava-se pura utopia. Os apelos para uma “jornada de luta nacional” não despertavam eco na CGTP. A tentativa de manter a radicalização das acções de rua sofreu uma resposta brutal da polícia, às ordens do PS (assassinato de Luís Caracol e José Jorge Morais).

Em 1978, o PC(R) encontrou-se a braços com a sua primeira dissidência de direita. Uma parte considerável do CC e dos quadros regionais punha em causa o valor das “conquistas de Abril” e a esperança numa reabertura próxima da crise, reclamava uma táctica defensiva, assente na acção sindical e parlamentar, a legalização do partido, a aproximação ao PCP, aos socialistas de esquerda, mesmo aos eanistas.

Para demonstrar o oportunismo desta tendência, seria necessário reconhecer que o partido errara toda a apreciação da crise de 75 e do seu desenlace. O cansaço evidente dos dissidentes, desejosos de abandonar uma trincheira que se tornava incómoda, não podia obscurecer o facto de que eles punham a nu os pontos fracos do vanguardismo do partido. Só dando um passo à esquerda se podia responder efectivamente à crítica da direita.

Esta via estava contudo excluída para o núcleo dirigente, que chegara ao mito do 25 de Abril do povo pelo cruzamento da euforia do “Verão quente” com a linha internacional das frentes populares e das democracias populares. Optou-se por isso, no 3° congresso, por reajustar a táctica do partido, indo disfarçadamente ao encontro das críticas. O 25 de Abril do povo foi dourado como uma “política de milhões”, correspondendo ao “crescente desejo de mudança” que levantaria “cada vez mais amplos sectores, não só da classe operária como da pequena burguesia” (!) Na aparência, a linha do partido não mudava; na prática, tratava de se adaptar ao recuo. Assim, as ilusões ingénuas dos primeiros anos numa nova ofensiva popular começaram a evoluir para o reformismo. O oportunismo “esquerdista” espontâneo de 76-78 começou a transformar-se num oportunismo de direita calculista. Pode dizer-se que, a partir desta luta, ficou traçado o destino posterior do PC(R).

EM BUSCA DE “MILHÕES”

O crescimento eleitoral da UDP nas legislativas de 1979 pareceu ir premiar a deslocação para a direita que se iniciava no PC(R). O partido, contudo, subestimara grosseiramente o impacte da vitória da AD. A ofensiva redobrada do governo e do patronato contra o movimento operário, a agonia da Reforma Agrária, a desmoralização contagiante da pequena burguesia, em pouco tempo abateram as barreiras em que o PC(R) ainda se fazia forte.

E o debate recomeçou no Comité Central, em busca das palavras de ordem que mais facilitassem a conquista das “massas de milhões”. Desistências nas autarquias em 80, proposta de listas únicas da oposição, negociações para um “candidato amplo” às presidenciais, polémica para saber se se devia apoiar um “Governo de Defesa da Constituição” ou um “Governo de Unidade Popular”…

Nenhuma das facções em disputa na direcção do PC(R) se apercebia de que não havia manobras ou propostas, por mais amplas que fossem, capazes de ganhar as massas se estas não fossem polarizadas pela luta enérgica de uma vanguarda operária oposta ao regime. Ora, o que restava dessa vanguarda nas fileiras do PC(R) ia-se desagregando a pouco e pouco, na confusão das manobras políticas de ocasião.

A perda do deputado da UDP em 1980, a derrota de importantes lutas reivindicativas, a redução constante das fileiras do partido, quanto mais este se proclamava “de milhões”, junto com os sintomas de crise do socialismo da Albânia, estiveram na origem da segunda grande dissidência do PC(R) e da crise final em que naufragou o 25 de Abril do povo, nas condições que referimos adiante. A partir daí, o partido encontrou-se sem bandeira.

OS OPERÁRIOS NO COMANDO?

Para um partido que se pretendia vanguarda da classe operária, o decisivo era implantar-se nas grandes concentrações operárias. Fortes células nas principais fábricas e empresas, acção política da classe operária, uma corrente sindical combativa e independente na CGTP, eram as armas para desalojar o PCP do lugar hegemónico no movimento operário. Contudo, apesar de toda a demagogia sobre “os operários no posto de comando”, esta orientação não foi aplicada. Para conseguir projecção nacional à altura do 25 de Abril do povo, dispersaram-se pelo país os melhores quadros operários, desfalcando irremediavelmente a implantação na cintura industrial de Lisboa. As iniciativas políticas do partido, em vez de partirem das fábricas e terem em vista a educação do proletariado, eram sistematicamente entregues às campanhas eleitorais da UDP, ou a acordos unitários com personalidades reformistas. As células do partido definhavam, reduzidas à acção sindical. A formação de quadros operários em “cursos de marxismo-leninismo” na Albânia saldou-se por um fracasso.

Assim, as alternativas radicais no movimento sindical e a intervenção positiva do PC(R) em diversas lutas de resistência operária, como na Mocar, no STCP, Petroquímica, Panasqueira, Previdente, Cometna, nas duas greves gerais de 82, etc. não foram suficientes para aglutinar uma corrente operária comunista que servisse de coluna vertebral ao partido.

A incapacidade para uma disputa coerente da classe operária ao revisionismo manifestou-se com nitidez na frente sindical. Começou-se por dissolver a prometedora corrente sindical de esquerda que se agrupava em torno do jornal Tribuna Operária, sob acusações de tender para um “partido sindical paralelo”, mas na realidade porque era um foco de resistência às concessões da “grande política”. A partir de 78, a representação da corrente sindical foi entregue à UDP (!), para facilitar a negociação de um consórcio oposicionista no seio da CGTP. O resultado foi o Centro “O Trabalho”, cúpula dominada pelo reformismo, que tem vindo a vegetar sem qualquer expressão, e inclusive se pôs à margem das greves gerais. Por fim, a busca de “espaço” pelos dirigentes do PC(R) virou-os para a tentativa de serem legalizados como tendência na central sindical.

Ou seja: ensaiaram tudo, menos animar núcleos sindicais nas empresas, ligá-los entre si, apoiá-los no lançamento de uma plataforma-programa e da sua imprensa própria. Aqui também vigora a ideia de que os acordos “por cima” são a via para romper o isolamento e facilitar o trabalho “por baixo”. Não é de estranhar o crescimento das tendências oportunistas.

DA UDP VERMELHA À UDP REFORMISTA

A dupla filiação dos marxistas-leninistas portugueses em duas organizações paralelas — o PC(R) e a UDP — é uma das manifestações típicas do seu centrismo.

Fundada em Dezembro de 1974, a UDP foi justificada como um instrumento para romper com o sectarismo tradicional dos grupos, penetrar nas massas e impulsionar a unificação dos comunistas no partido. Há que dizer que o objectivo foi cumprido. Com um deputado eleito na Assembleia Constituinte (1975), promovendo grandes comícios e manifestações, editando um semanário, a UDP alargou rapidamente a influência dos comunistas e tornou irresistível a tendência unificadora que triunfou no congresso de formação do PC(R).

Contudo, uma vez fundado o partido comunista, já encerrada a crise revolucionária pelo golpe do 25 de Novembro, verificou-se que a UDP criara o seu espaço político próprio e exigia continuidade — ela era o “partido dos pobres”, cuja influência penetrava muito para além dado PC(R). E isto não acontecia por acaso. O seu carácter político difuso e a sua estrutura diluída, eram os que melhor se adaptavam ao populismo do “novo Abril”. O PC(R) encontrou-se assim politicamente entaipado atrás da UDP, que pretendia utilizar como seu instrumento. Em nome da UDP eram (e são) popularizadas as propostas políticas; listas da UDP concorriam às eleições sindicais; boletins da UDP agrupavam os operários nas empresas; a UDP e não o PC(R) era aos olhos das massas o opositor de esquerda ao PCP.

E este partido, que é criação do PC(R) e que se sustenta à custa dos seus militantes, tornou-se simultaneamente um veículo de pressão oportunista sobre ele. Para resolver esta contradição, era necessário reconhecer que a UDP cumprira a sua missão, fazer reverter o grosso das suas forças em benefício do partido e lançar iniciativas pontuais de frente, realmente amplas, em torno de lutas parciais.

Em vez disso, a concepção dimitrovista de encostar o partido a uma Frente Popular permanente levou a tentar “desavermeIhar” a UDP por dois processos igualmente errados. Consistiu o primeiro em pretender integrá-la num consórcio frentista alargado (negociações para a constituição do MUP, em 1976, e para a criação da FUP, em 1980). Fracassadas ambas as tentativas em lutas de cúpula pela hegemonia, passou a prevalecer no partido a tendência para abrir espaço à UDP pela adopção de plataformas cada vez mais recuadas. Reduzida actualmente a uma mera sigla eleitoral do PC(R), perdida a dinâmica popular combativa dos primeiros anos, a UDP funciona como instrumento do sector mais oportunista do partido e banco de ensaio das aproximações ao PCP. Foi assim que no seu 6º congresso, em 1984, aprovou um programa reformista para a “República Popular”, destinado a combater a corrente de esquerda que se levantava no PC(R).

A HERANÇA DE ARRUDA

É bem conhecida a influência exercida sobre o PC(R) pelo dirigente do PC do Brasil Diógenes Arruda. Arruda acelerou a fusão dos grupos no partido, formou o seu aparelho dirigente e o seu estilo de vida interna, impôs a política do 25 de Abril do Povo contra as resistências vindas da direita e da esquerda. Moldou com mão de ferro o PC(R) na esperança de erguer um partido de massas, dotado de uma táctica “ampla e flexível”, que servisse de exemplo à débil corrente marxista-leninista internacional.

Mas o projecto de Arruda assentava na velha concepção centrista de fazer política “revolucionária” pela fusão dos interesses divergentes do proletariado e da pequena burguesia. Esta atitude de compromisso, disfarçada com toneladas de retórica marxista, infectou toda a política do partido, no plano interno como no internacional:

lições de 75 – em vez de denunciar fácil vitória do 25 de Novembro a duplicidade e impotência da “revolução” pequeno-burguesa, descobriu-lhe virtualidades “democrático-revolucionárias”;

estratégia – não contrapôs à “Revolução Democrática e Nacional” do PCP a luta pelo socialismo e pela ditadura do proletariado, que sabia inaceitável para a pequena burguesia; em seu lugar, teorizou a etapa intermédia da “Revolução Democrático-Popular”, na qual caberia aos operários pôr-se ao serviço da “unidade do povo”;

táctica – em vez de empenhar o partido na resistência operária independente ao novembrismo, declarou com o “25 de Abril do Povo” uma ofensiva popular unitária que desgastou forças e criou condições favoráveis para a ressaca oportunista quando se desmoronaram as ilusões de Abril;

movimento operário – para não reconhecer que o movimento está dominado pelo reformismo, falseou de forma triunfalista a consciência dos operários e minimizou a influência do PCP como uma “camarilha em decomposição acelerada e irreversível”;

campesinato – perante a dificuldade em implantar o partido nos assalariados e camponeses pobres, tentou erguer um “movimento democrático camponês” com base nas reivindicações da pequena burguesia rural;

União Soviética – a pretexto da defesa de Staline contra os ataques revisionistas, bloqueou a investigação às raízes sociais do 20° congresso e à formação da nova burguesia soviética e misturou no legado de Staline a sua fase bolchevista com a fase nacional-reformista;

China – para não reconhecer que o revisionismo chinês nasceu da “Democracia Nova” e do 7° congresso da IC, passou da adesão incondicional ao maoísmo para a sua negação total, quando não se pôde ocultar mais a degeneração capitalista da China;

revisionismo – em vez de criticar Dimitrov e a política das frentes populares como precursores do revisionismo moderno, ocultou a degeneração gradual dos partidos e pretendeu que estes teriam mudado subitamente de cor por acção de golpes internos;

imperialismo – para fugir à órbita do revisionismo soviético, atacaram-se as duas superpotências como inimigos iguais, apagando a hegemonia e agressividade dos EUA e caindo numa posição próxima da social-democracia de esquerda;

libertação nacional – denunciou-se a “via de desenvolvimento não-capitalista” como uma fraude revisionista mas, para não cortar as pontes com as burguesias nacionalistas, atribuiu-se-lhes um falso carácter revolucionário anti-imperialista;

movimento ML – em vez de procurar pelo debate aprofundar o corte com o revisionismo, esconderam-se as chagas oportunistas e sectárias dos partidos e alinhou-se com o slogan albanês de que “o movimento marxista-leninista cresce e fortalece-se”.

O mérito do “arrudismo” foi afinal ter revelado plenamente em Portugal as contradições em que assenta a corrente marxista-leninista. Ele demonstrou involuntariamente que a política comunista é incompatível com a defesa da tradição centrista do movimento comunista e que o apagamento das fronteiras entre proletariado e pequena burguesia só pode conduzir os comunistas para a proximidade do revisionismo e da social-democracia. Quando os dirigentes do PC(R) insistem hoje em venerar a memória e os “ensinamentos” de Diógenes Arruda, é esta herança centrista que tentam preservar, porque ela é a própria base sobre a qual está edificado o PC(R).

AS “ERVAS DANINHAS”

Na acidentada vida interna do PC(R) têm-se sucedido as lutas e convulsões. De entre elas sobressaem a campanha de “proletarização” de 1976, que remodelou por métodos ilegais todo o núcleo dirigente, a expulsão do grupo de J. Moreira J. Espada em 1979, a expulsão do grupo Melro-Amadeu em 1982, a expulsão do grupo “anarco-trotskista” em 1984.

Os conflitos internos em si nada teriam de anormal, tendo em conta o lento declínio da onda revolucionária nos últimos dez anos. O carácter invulgar da crise de 1974-75 fez convergir para dentro do partido uma amálgama de tendências revolucionárias e tendências moderadas, cuja unidade fictícia acabaria por explodir. Era inevitável uma luta de classes aguda nas fileiras do partido e a emigração de elementos pequeno-burgueses desmoralizados para o campo do reformismo.

O que tornou esta luta desgastante foi o facto de ela ser conduzida como uma batalha em duas frentes. As sucessivas “vitórias” sobre os dissidentes deixaram o partido numa situação cada vez mais confusa porque repunham sempre o mesmo dilema: a política do partido era demasiado radical para alargar o espaço eleitoral e sindical, como queria a ala direita; mas era demasiado ecléctica para dar corpo a uma corrente operária revolucionária e a um partido bolchevizado, como queria a ala esquerda. Ela combinava pedaços de política revolucionária e de política reformista, acabando por não servir a uma nem a outra.

Resultou daqui o crescimento constante do oportunismo nas fileiras partidárias apesar da caça incansável às “ervas daninhas” e da aparente derrota estrondosa imposta às duas fracções de direita. A maioria do CC era incapaz de responder aos argumentos oportunistas, porque eles nasciam da lógica da linha do partido Esforçava-se por abafar a luta de tendências por meio de compromissos que tornavam a sua situação cada vez mais insustentável. E acabou por ter que enfrentar a guerra aberta com as duas fracções, guerra de que o partido saiu de ambas as vezes mais incerto quanto ao seu rumo político.

À medida que se foi tornando patente a incapacidade da maioria centrista para contrapor uma alternativa coerente à pressão da direita, começou a despontar a ala esquerda do partido. (Na realidade, ela iniciara-se com o manifesto “O oportunismo e a revolução”, de 1977, o qual não chegou a ter repercussão no partido).

Começando por defender a integridade da linha do 2º congresso contra os ataques que lhe eram desferidos pela direita e a vacilação do centro, a corrente de esquerda acabou por descobrir os compromissos de classe em que assentava a política do partido: primeiro na táctica, depois na estratégia, em seguida na desnaturação do centralismo democrático, por fim em toda a linha da corrente marxista-leninista internacional.

CENTRALISMO DEMOCRÁTICO EM CARICATURA

Os métodos patriarcais e autocráticos de Arruda, impostos a coberto de uma demagogia “democrática” desenfreada, mataram o espírito crítico, a independência de opinião e a disciplina revolucionária, que eram as melhores marcas da juventude do partido.

A experiência do PC(R) comprova que o centrismo não suporta a democracia interna. O atropelo ao tão decantado centralismo democrático tem sido o traço invariável de toda a vida interna: remodelações sucessivas no Comité Central eleito, sancionadas por reuniões ampliadas convocadas “ad hoc”, expulsões precipitadas sem direito de defesa dos visados, rejeição radical de propostas políticas cujo conhecimento é vedado ao partido, manipulação do 3º congresso através de “reuniões de quadros” que se sobrepuseram às conferências regionais, recurso arbitrário à dissolução de comités eleitos, campanhas de difamação, etc.

Estes métodos de seita são os únicos adequados a uma linha política incapaz de se bater em terreno aberto. De facto, não se encontra, no caudal de resoluções sobre luta interna, uma só polémica séria. Em seu lugar, amontoam-se as denúncias pessoais, os preceitos morais e regras de conduta, a invocação de normas disciplinares, com a fanfarronice “bolchevique” a suprir a pobreza de ideias.

Assim, ao sabor destas lutas veio sendo modelada a vida interna do partido segundo normas “monolíticas” que nada têm de comum com o leninismo e com os próprios estatutos.

Os secretários das células e comités, nomeados de cima na generalidade dos casos, agem como controleiros; a autonomia e iniciativa dos organismos, inclusive do CC, é inexistente e todos os poderes se concentram num pequeno grupo dirigente; vigora o princípio da compartimentação, como se o partido estivesse em rigorosa clandestinidade; proíbe-se a discussão nos organismos de questões acerca das quais o CC não tenha definido posição; impõe-se aos secretários a disciplina de voto nos seus próprios comités.

Estas deformações, já clássicas nos velhos partidos comunistas desde os primórdios da sua degeneração, são sustentadas com o apelo demagógico à “defesa da unidade do Partido”. A vida mostrou que os militantes que se deixam prender nesta armadilha perdem o espírito crítico, tomam horror à luta de ideias, embrutecem no culto à fidelidade ignorante e deixam estiolar todo o vigor revolucionário.

Com a sua “disciplina de ferro” ao serviço do compromisso de classe, o PC(R) tornou-se um autêntico triturador da vanguarda revolucionária saída da crise de 1974-75. O ultracentralismo, justificado para impedir a penetração da ideologia burguesa, permite a esta desenvolver-se sem entraves. A fortaleza é tomada por dentro.

Bloqueado o debate, e com ele a vigilância de classe, prosperam no partido as concepções de um núcleo dirigente imbuído de preconceitos pequeno-burgueses, obcecado pelo perigo do “esquerdismo”, treinado na produção de hipócritas frases comunistas para consumo de operários crédulos.

SOBRESSALTO TARDIO

“O Partido chega ao 4º Congresso numa situação de grave crise, que tem origem na sua linha política “O 25 de Abril do Povo encobria a questão do poder”. “Trata-se de um desvio de direita na política geral do Partido”, “…tendência para concessões políticas e ideológicas a fim de não afugentar a pequena burguesia”. “Esta atitude tem em germe o espírito de colaboração de classe próprio do revisionismo. Ê uma atitude centrista”. “A política do Partido em todos os campos deve antes de mais ser política operária a partir das empresas”.

Estas críticas do 4º congresso (Março 1983) pareciam abrir uma fase nova na vida do PC(R). Pela primeira vez, posições claras de esquerda ganhavam a maioria. Todas as análises anteriores do partido quanto à crise de 1974-75, à “via do 25 de Abril do Povo”, à luta interna, à disputa da classe operária ao revisionismo, foram submetidas a uma crítica demolidora, que chamou a primeiro plano a diferenciação dos interesses políticos operários, da massa do progressismo “popular”. Apesar de alguns compromissos, o congresso lançou os elementos para uma táctica revolucionária.

A esquerda agrupava contudo apenas 1/5 dos delegados. O triunfo das suas posições ficou a dever-se ao vazio momentâneo de autoridade aberto por um CC em crise. Abalado pela cisão recente do grupo Melro-Amadeu e pela rejeição dos seus projectos de resolução na maioria das conferências regionais, desautorizado pelos chefes do PC do Brasil, que achavam o “25 de Abril do Povo” ainda “esquerdista”, o CC acabou por sucumbir às críticas da esquerda, deixando-as passar no congresso e incorporando-as na linha do partido.

A esquerda, porém, acordava tarde demais. Num partido desmoralizado por sete anos de combinações e recuos, não foi difícil ao bloco centrista ganhar o apoio da maioria dos delegados, ansiosos por estabilidade, limitar a amplitude da crítica e fazer eleger um Comité Central “de consenso”.

A manobra do centro seguiu o esquema clássico, que já fora ensaiado no congresso anterior: amparou-se primeiro na esquerda para a neutralizar e fazer frente aos cisionistas de direita; passou depois, durante o congresso, à aliança com a direita “fiel ao partido” para isolar a esquerda e limitar a sua representação no CC; por fim, após o congresso, desencadeou uma campanha activa para expulsar a esquerda, o que veio a conseguir em fins de 1984. Desforrou-se daquilo que fora obrigado a ouvir no congresso.

Nesta manobra, os dirigentes centristas tiveram o apoio e o estímulo do PC do Brasil e do PT da Albânia, dispostos a impedir por todos os meios que o PC(R) fosse tomado pela contestação “esquerdista”. Deles veio o arsenal de fraseologia “antitrotskista” com que o PC(R) falseou o debate em curso.

É necessário dizer porém que a fraqueza da esquerda não resultou só da sua pequenez. A esquerda chegou ao congresso sem posições próprias sobre uma série de questões decisivas — nomeadamente, a estratégia da revolução em Portugal, a crítica à intervenção do PC do Brasil na vida do PC(R), as origens da crise da corrente ML internacional, a apreciação sobre o socialismo albanês, etc. Estas lacunas não podiam deixar de torná-la vulnerável ao ataque conjugado do centro e da direita.

UM PARTIDO EM QUEDA PARA O REFORMISMO

Estes episódios explicam a particularidade, à primeira vista estranha, de o 4º congresso ter feito uma ruptura espectacular com o oportunismo para, passados poucos meses, retomar a derivação à direita. O congresso foi um acidente na evolução de fundo de uma política que tende irresistivelmente para o reformismo. Foi o que veio confirmar a súbita deserção para o PCP de Frederico Carvalho, fundador e principal ideólogo do partido, responsável pelo Bandeira Vermelha. Caminhando um passo à frente dos seus camaradas, Frederico Carvalho tirou a consequência lógica da guerra ao “sectarismo” ao concluir que o PC(R) está a mais, que o PCP é a verdadeira vanguarda do proletariado português e que a União Soviética, afinal, nunca deixou de ser socialista…

O silêncio embaraçado do PC(R) em torno deste escândalo só aviva a inquietação da sua base operária, que sente rondar o perigo de ser absorvida pelo PCP. Tanto mais que a maratona eleitoral neste dobrar de 85 para 86 acelera na direcção de Eduardo Pires o engodo por um pragmatismo escorregadio: o slogan “temos soluções” que serviu de mote à campanha das legislativas, as suspeitas desistências a favor da APU em certas autarquias, o alinhamento subalterno atrás da candidatura de L. Pintasilgo à presidência, por fim, o lento acercamento ao PCP na busca de representação nas cúpulas da CGTP, configuram um alinhamento político novo. Resignado aos limites de força de pressão, o PC(R) procura ganhar espaço fazendo-se acreditar como servidor fiel da causa da “unidade dos democratas contra a direita”. Vão longe os fumos revolucionários de 75. Tudo leva a prever que o 5º congresso, que deverá realizar-se no ano corrente, será chamado a sancionar o enterro de um revolucionarismo “popular” indefinido, que não se atreveu a evoluir para um autêntico revolucionarismo operário, marxista.

Ao terminar este breve balanço à experiência do PC(R), resta-nos assinalar que a tendência para a corrente marxista-leninista voltar a cair na dispersão dos grupos é sem dúvida um sintoma de crise, mas que já não pode ser detido com apelos à coesão partidária. Os erros de dez anos cobram o seu preço. Em vez de lamentar o retorno ao grupismo, vai ser necessário pôr em questão as teses que serviram de plataforma ao PC(R) e procurar uma base nova para o reagrupamento dos comunistas. Da seriedade desse debate depende o renascimento de um Partido Comunista em Portugal, capaz de cumprir o projecto falhado do PC(R).

                 Política Operária nº 3, Jan-Fev 1986

 

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