Depois do 25 de Abril venezuelano caminhamos para o seu 25 de Novembro?

Francisco Martins

Há na corrente trotskista, como se sabe, as mais díspares posições quanto ao “chavismo”, desde os fortemente críticos aos francamente entusiastas, como é o caso de Alan Woods, autor do artigo “Os marxistas e a revolução venezuelana”. Com extensas citações de Trotsky e do falecido teórico Ted Grant, que fundou o grupo inglês The Militant, Woods procura demonstrar o papel original de Hugo Chávez no movimento revolucionário venezuelano. Interessa sobretudo neste caso é a comparação que o autor faz com o processo revolucionário em Portugal. 

Pense-se o que se pensar de Chávez, diz, há que reconhecer que ele rompeu as comportas, atreveu-se a enfrentar a oligarquia e o imperialismo norte-americano, deu um exemplo de coragem, e com isto arrancou à sua apatia as massas.

Estamos certamente de acordo com isto. O nosso problema começa com o “colossal entusiasmo e devoção”, o “fervor quase religioso” que Chávez desperta nas massas. Essa relação, que o autor considera “muito complexa e dialéctica”, assenta no seguinte: na ausência dum partido marxista revolucionário de massas, as forças da revolução agruparam-se em torno de Chávez e do movimento bolivariano. E é precisamente esse sintoma de debilidade política, o facto de um indivíduo poder desempenhar um papel “absolutamente decisivo”, como sublinha o autor do artigo, que nos preocupa.

Diz ele que não nos devemos basear em ideias preconcebidas sobre como “deveria ser” uma revolução. Critica os “esquerdistas” e “sectários”, que acusam de “populismo” o movimento bolivariano. Acusa-nos de cultivarmos um marxismo “sem alma revolucionária, estéril, de terminologia radical, agarrado a ideias rotineiras”… Mas o seu marxismo com alma, não rotineiro, em que consiste?

Woods, como marxista, tem que reconhecer as limitações do Movimento Bolivariano. Ele sublinha que o seu programa e a sua política são os de uma democracia pequeno burguesa revolucionária. Ele está consciente de que Chávez levou a cabo um programa ambíguo de reformas no interesse das massas, mas não aboliu o capitalismo. “Esta é a sua principal debilidade e a maior ameaça para o seu futuro”. Ele lembra que grande parte da velha burocracia permanece no seu lugar; o sistema judicial é o que foi herdado, a polícia “actua como um estado dentro do estado”, a lealdade de sectores dos oficiais da classe média é duvidosa.

Mas a isto contrapõe o entusiasmo e a confiança das massas em Chávez (que em sua opinião não deve ser caracterizado como “um burguês” – porquê?), e a previsão de que as camadas inferiores dos comerciantes, camponeses e intelectuais, poderão pôr-se ao lado da revolução socialista. Pelo que uma inversão da situação actual “só se poderá dar com uma luta feroz e uma guerra civil”.

LIRISMOS LUSITANOS

Entra aqui em consideração o processo atravessado por Portugal há trinta anos, “extraordinariamente semelhante” ao da Venezuela, porque a revolução se desencadeou com um golpe lançado por oficiais de esquerda. Em Portugal, sublinha, chegaram a ser nacionalizados 80 por cento da economia (valor fantasista). Até generais e almirantes aderiram à revolução, o que revela “o génio inventivo da história”. E tudo isto porque, após a perda do império, o “capitalismo se havia esgotado” em Portugal.

Ora, esta visão do nosso 25 de Abril é puro lirismo. O capitalismo não se tinha esgotado em Portugal mas estava a fazer uma agitada transição do colonial/fascismo para a modernização capitalista. A adesão dos “generais e almirantes” à revolução apenas indicou a sua percepção de que deviam caminhar com ela até ter condições para a entregar, amarrada de pés e mãos, à burguesia. As nacionalizações não foram o controle da economia pelos trabalhadores, mas o Estado “revolucionário” agiu como seu fiel depositário, até chegar a hora de as devolver aos capitalistas. E a “paralisia das organizações operárias” mencionada por Woods a propósito do PC e do PS, e inclusive da extrema-esquerda, correspondeu à sua colaboração, mais ou menos activa e consciente, nessa transição.

Não se reuniram as condições para um ataque frontal ao capitalismo. Asseverar que o poder real estava nas mãos dos trabalhadores e soldados, deslumbrar-se com um editorial do The Times de Londres que fazia parangonas sobre a “morte do capitalismo em Portugal”, é confundir uma crise de poder potencial com uma crise real.

Só poderíamos dizer com Woods que a reacção venezuelana “entrou em colapso como um castelo de cartas” se as suas forças vivas tivessem sido golpeadas. E isso não aconteceu. Depois de ter fracassado sucessivos golpes contra-revolucionários atabalhoados, a burguesia teve que se conformar com a via mais demorada da aproximação lenta. É o que vem fazendo na etapa actual.

Por isso mesmo a situação não está completamente polarizada entre esquerda e direita, nem “se cavou um abismo insuperável entre classes antagónicas, ricos e pobres, chavistas e ‘escuálidos’, revolucionários e contra-revolucionários”, ao contrário do que imagina Woods. Para isso seria necessário que o confronto real, nas ruas, nas forças armadas, na economia, se elevasse a um nível longe de se ter atingido.

Escreve o nosso autor que os comunistas não se devem manter à margem, com o argumento de que a revolução em curso na Venezuela é burguesa. Absolutamente de acordo. Mas para falar em “aplicação enérgica da política de frente única”, em “unidade militante do proletariado socialista com a democracia revolucionária pressuporia que o proletariado estaria à altura de exercer o papel motor, unido em torno do seu partido da revolução – e todos sabemos que estamos muito longe dessa situação.

A necessidade de empreender a defesa incondicional da revolução venezuelana, o apoio crítico à democracia revolucionária e a Hugo Chávez contra a oligarquia e o imperialismo, o apoio à ala esquerda do Movimento Bolivariano contra os reformistas e social-democratas – tudo isto estará certo se tiver como eixo a firme defesa da expropriação da oligarquia e o armamento das massas, e, para isso, a construção de um partido comunista capaz de ganhar uma influência decisiva no proletariado e nas grandes massas. Parece que estamos longe disso, infelizmente.

E nesse caso perguntamos: não indica o exemplo português que existe outra possibilidade para a burguesia de vencer a crise, sem guerra civil e sem luta feroz? Não tem a burguesia venezuelana em marcha neste momento o seu 25 de Novembro?

Política Operária nº 113

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