A revolução que não pôde ser socialista

Francisco Martins Rodrigues

Há os que amaldiçoam a revolução russa como “totalitária”, há os que a idealizam como a aurora do socialismo – é mais que tempo de uma visão realista da sua grandeza e dos seus limites históricos.

Durante um debate recente promovido pelo colectivo Emancipação do Trabalho, vários camaradas mostraram-se chocados com a afirmação de que a revolução russa não foi nem podia ter sido socialista; alguns julgam mesmo ver nisto um abandono das nossa antigas lutas, uma concessão às campanhas burguesas que visam enterrar a revolução e o leninismo. Volto por isso ao tema, só para sistematizar algumas ideias gerais, já expostas mais desenvolvidamente numa série de artigos anteriores nesta revista.

Ao longo deste século, a União Soviética foi, aos olhos dos trabalhadores mais conscientes, a “pátria do socialismo” e a cabeça do “campo socialista”, o país onde o governo pertencia aos trabalhadores, guiados pelo partido comunista, a esperança de uma sociedade nova livre da exploração. Mais tarde, já abalado o prestígio da URSS pelas denúncias que entretanto se iam acumulando sobre o terror no tempo de Staline, ela continuava contudo a ser vista como um poderoso país socialista, como uma sociedade de novo tipo que estreitava continuamente o campo de acção do sistema capitalista. Por isso, a sua conversão súbita e pacífica ao capitalismo, há dez anos, causou um choque devastador de que ainda não se recompuseram os revolucionários por todo o mundo – e isto contribui em larga medida para a crise que atravessa o pensamento comunista.

A “PODEROSA PÁTRIA DO SOCIALISMO”

Pode o socialismo evaporar-se? Uma posição aparentemente intransigente mas que revela o desconcerto a que chegou o pensamento marxista neste fim de século é a dos que insistem que o socialismo existiu mesmo no “país dos sovietes” (embora com graves imperfeições, admitem), e que só a pressão imperialista apoiada em maquinações de dirigentes corruptos (Gorbatchov, Krutchov…), teria levado ao cansaço e desorientação do povo e à desagregação da URSS. Ideias deste tipo encontram-se sobretudo no PCP e na UDP mas também frequentemente no que resta da extrema-esquerda.

Não creio que vamos longe com esta visão, que rebaixa as lutas sociais ao nível do enredo policial. É de facto inconcebível que se o socialismo fosse a forma de viver na URSS, como se dizia, esta pudesse retroceder à lei do capital sem poderosas convulsões sociais; ora, elas não existiram. De um dia para o outro, mediante um golpe de palácio, o país do “socialismo avançado” converteu-se ao capitalismo selvagem e mafioso; o “socialismo” desapareceu como engolido por um alçapão, no meio da apatia da massa da população. Como nestas questões não há milagres, isto só pode significar que a “propriedade socialista de todo o povo” simplesmente não existia na União Soviética.

Socialismo – as provas – Todavia, por muita dificuldade que tenham em explicar as causas do desmoronamento da URSS, aos nossos interlocutores não faltam “provas“ de que ela era mesmo socialista: a totalidade dos meios de produção e de troca era propriedade do Estado; não havia mercado, nem capital financeiro, nem bolsa, nem milionários; a economia era submetida a um plano; os ritmos de trabalho eram baixos, havia pleno emprego e as necessidades básicas estavam asseguradas; o nível educacional era elevado e a criminalidade reduzida; a política internacional da URSS, mesmo que condenável em certos casos, não visava a exportação de capitais e fazia frente às potências imperialistas. Etc. Isto, naturalmente, para além da origem revolucionária do regime, do facto de este ser governado por um partido comunista e amaldiçoado pela burguesia mundial como um “papão”.

Serão precisas mais provas?, perguntam-nos. De facto, são.

“Socialismo real” – A URSS era sem dúvida um país diferente mas não a sociedade idílica que imaginam os seus saudosistas. A doutrina oficial socialista não funcionava. Resumidamente, faltava motivação aos de cima, frustrados pela proibição da iniciativa privada e pelas limitações à utilização dos lucros, e faltava motivação aos de baixo, por se sentirem explorados e marginalizados. O motor da sociedade era um aparelho dirigente altamente centralizado, todo-poderoso, apoiado numa burocracia gigantesca, que se tornava por sua vez mais um factor de paralisia. Em resultado dessas contradições, os princípios “socialistas” eram esvaziados no dia-a-dia: a corrida ao lucro entre as empresas estatais, a competição pelas dotações do plano entre os vários sectores da economia, a autoridade dos directores, o tráfico de influências junto do poder, a corrupção dos negócios clandestinos, o afastamento crescente entre a massa do povo e as elites privilegiadas, a desmoralização de um proletariado proclamado todos os dias dono do país e arredado de todas as decisões, a ausência de liberdades políticas, o medo da polícia secreta, um clima sufocante de conformismo e de estagnação ideológica. A URSS era há muito uma sociedade doente. Por isso, a “contra-revolução” de 1989-90 foi tão fácil: limitou-se a pôr as instituições de acordo com a vida real.

E os sovietes? – Um erro corrente é ver esta situação como fruto de “desvios”, que poderiam ter sido corrigidos por uma melhor política do partido comunista. Segundo esta concepção, o socialismo dependeria da aplicação de uma “linha justa” na economia e na política por parte do partido comunista no poder; ficam esquecidas as relações sociais concretas que definem o socialismo.

Ora o socialismo não se define só por uma economia estatizada nem pelo papel dirigente de um partido revolucionário; é também e sobretudo a apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores – o que, por sua vez, pressupõe o exercício do poder de Estado pelos órgãos democráticos das massas, aquilo a que Marx chamou pela primeira vez a ditadura do proletariado. E ninguém ignora que o poder dos sovietes, proclamado em 1917, se tornara há muito uma ficção. Os sovietes eram meros órgãos administrativos, sem qualquer poder político. Na realidade, todos o sabiam, a URSS era governada pela cúpula dirigente do PCUS, em nome e representação dos sovietes, do proletariado e de todo o povo, segundo um conceito autocrático de socialismo. O poder era ditatorial, a “democracia soviética” era um mito, e isso é prova suficiente de que o socialismo também o era.

Capitalismo estatal – Não sendo a ex-URSS socialista, temos então que admitir que era capitalista? Exactamente. Aquilo que ainda hoje parece à maioria das pessoas de esquerda uma aberrante divagação anarquista é que define o regime económico-social reinante na URSS durante várias décadas.

A URSS era capitalista já desde os anos 30 porque, apesar da estatização da economia, toda a vida económica era gerida pela lei do valor; produzia-se para acumular capital, os trabalhadores viviam da venda da sua força de trabalho e o poder era exercido por uma classe administradora do capital nacionalizado, sustentada pela mais-valia do proletariado embora não tivesse direitos de apropriação privada.
Este capitalismo de Estado apresentava sem dúvida características anómalas, o que não tem nada de estranho se tivermos em conta que se erguera a partir de uma gigantesca revolução proletária-camponesa num país atrasado. As marcas deixadas pela revolução coexistiam com os mecanismos capitalistas, deformando-os e emperrando-os, mas a longo prazo eram estes que marcavam o ritmo de toda a vida económica, política e social e que lutavam para impor as suas exigências sem partilha.
Acumulação capitalista primitiva – Na realidade, os vertiginosos anos dos primeiros planos quinquenais e da “colectivização” agrária, vistos pelo mundo inteiro como a passagem da Rússia ao socialismo, corresponderam à acumulação capitalista primitiva que lhe iria permitir descolar do atraso e tornar-se uma sociedade moderna.
A expropriação e deportação de milhões de famílias camponesas lançada em 1929 pela grande “viragem” de Staline, ao mesmo tempo que aniquilou a resistência pequeno-burguesa ao poder, lançou nas fábricas e estaleiros uma multidão de novos proletários, que iriam fornecer a mais-valia necessária ao desenvolvimento acelerado das forças produtivas.

Os países europeus tinham feito a sua acumulação capitalista primitiva ao longo de vários séculos de expansão marítima e “descobertas”, guerras, pilhagens e esclavagismo; a Rússia, que ficara para trás, teve de fazê-lo no espaço de uma década, por intermédio do Estado. É por isso inteiramente deslocado apreciar este processo brutal à luz dos princípios do socialismo ou da democracia, como fazem as escolas burguesas; se comparada com a acumulação capitalista europeia, a da Rússia foi mais espectacular pela rapidez com que foi executada, mas certamente menos custosa em vidas humanas.

A revolução de Staline – Quando em 1936 Staline proclamou o “triunfo do socialismo”, como resultado da “segunda revolução”, que fez emergir subitamente a Rússia como um poderoso país industrializado, dotado de uma agricultura moderna, com uma ciência, uma tecnologia e uma educação modernas – foi justamente quando desapareceram todos os vestígios que ainda restassem da ordem social criada pela revolução e dela só restaram afirmações de fé.

O crescimento de uma nova classe operária “soviética”, os milhões de kolkhosianos que tomavam o lugar dos antigos camponeses, em vez de testemunhar, como se dizia, a base social do socialismo, fizeram emergir um numeroso proletariado moderno, base do florescimento e consolidação do capitalismo ascendente. Uma nova classe dirigente consolidou o seu poder no país, formada pelo aparelho dirigente do partido e do Estado, e submetendo ferreamente os assalariados às leis de acumulação do capital.
Essa colossal e tumultuosa transformação que instituiu uma nova ordem social fundada na acumulação capitalista e na exploração dos trabalhadores assalariados só pode ser classificada como uma revolução burguesa, sejam quais forem as suas peculiaridades.

Regime de contrastes – Não era fácil para os comunistas na época (muito menos para os próprios soviéticos) entender a natureza deste regime sem paralelo na história que reunia aspectos avançados com um poder despótico, a arregimentação dos trabalhadores com as proclamações comunistas. Houve todavia quem compreendesse que este capitalismo de Estado era uma etapa necessária na situação a que chegara a Rússia, como foi o caso do comunista holandês Anton Pannekoek, o qual observava em 1935: “O conjunto da burocracia de funcionários, que dirige e governa o país … cumpre as funções e as tarefas que foram ocupadas na Europa e na América pela burguesia: desenvolver a indústria e a produtividade do trabalho. A eles pertence transformar a Rússia, de país agrícola e bárbaro, em país civilizado e moderno(…)”. E comparando a revolução Russa com a Revolução Francesa, escrevia: “A Revolução não fez da Rússia, como pretende uma propaganda enganadora, um país onde os trabalhadores são os senhores e reina o comunismo. Mas ela fez-lhe realizar um progresso de enorme importância.”

Capitalismo anti-imperialista – Na época era, todavia, difícil avaliar o lugar original da União Soviética na luta de classes mundial. Os marxistas que empreenderam a crítica do estalinismo resvalaram em regra para o terreno do democratismo burguês e adoptaram alinhamentos reaccionários. Não compreenderam que a natureza deste capitalismo tardio, nascido de uma grande revolução, defrontando o cerco das grandes potências e a ameaça cada vez mais palpável de invasão, lhe ditava uma política externa anti-imperialista e a busca do apoio no movimento operário mundial e nos povos oprimidos. A classe dirigente “soviética” tinha um antagonismo real com a burguesia internacional que tentava por todos os meios derrubá-la. As suas profissões de fé socialistas e “marxistas-leninistas” não eram mera propaganda; exprimiam a consciência equivocada que ele tinha do seu papel. E, fossem quais fossem os ziguezagues do nacionalismo de Staline, a URSS foi obrigada para sobreviver a bater-se com o império nazi – sofrendo um Holocausto bem maior que o dos judeus e de que hoje não se fala – e afirmou-se aos olhos dos trabalhadores de todo o mundo como uma força de libertação, imagem que consolidou depois da guerra com o apoio aos movimentos anticoloniais. Nada tem de estranho portanto que o grosso do movimento operário tomasse como real a denominação socialista da URSS, apesar dos sinais alarmantes que daí chegavam.

O Terror – Durante muitos anos ignorado ou minimizado pelos comunistas, primeiro por julgarem que fosse uma invenção da propaganda imperialista, mais tarde, quando já não podia haver dúvidas, por recearem, ao admiti-lo, dar armas ao inimigo – o Terror nos anos 30 tem que ser entendido no seu carácter social. Aqui não se tratava do terror dos primeiros anos, para a defesa da revolução contra o terror branco; o regime estava já solidamente implantado e não havia lutas sociais de envergadura. E é absurdo que ainda hoje pretendam alguns “explicar” os processos de Moscovo, a deportação de milhões de camponeses, o Gulag, as execuções sumárias de centenas de milhares de inocentes, como “desvios da legalidade socialista”. Pela sua dimensão gigantesca, o Terror é um indicador certo de um poder ditatorial sem freio, não sujeito a qualquer controlo democrático dos trabalhadores – e portanto estranho ao socialismo.

O Terror foi a argamassa da edificação do capitalismo de Estado. Como escrevemos noutra altura , uma sociedade que pela primeira vez na história centralizava forças produtivas tão poderosas, suprimindo a acção reguladora das leis do capitalismo sem lhe substituir a apropriação colectiva e a auto-administração pelos produtores, só pelo terror podia impor ordem no caos”. A burocracia fez a sua estreia como classe dominante através de uma “depuração” gigantesca porque precisava de meter a sociedade no colete de forças do monopólio total: preservar a sua autoridade absoluta como árbitro entre as classes em presença, assegurar-se do monolitismo integral, suprir a ausência de coacção económica capitalista pela coacção policial, ceifar a contestação operária e a corrupção burguesa privada como ameaças igualmente intoleráveis para o regime”.

Um problema ideológico? – Disse-se a certa altura que o problema da URSS de Staline era o de uma sociedade socialista onde as transformações económicas não tinham sido acompanhadas pela elevação correspondente das relações sociais, da democracia socialista, da consciência das pessoas, etc. O maoísmo apostou bastante nesta ideia, lançando na China, como correctivo ao fracasso soviético, um vasto plano de “educação socialista” das massas. Mas esta era uma perspectiva idealizada, condenada ao fracasso: o problema não era de educação, era de poder. Justamente porque o capitalismo não estava a ser liquidado mas a desenvolver-se sob a forma ilusória de estatização da economia (e repita-se, não podia ser de outra forma), as relações sociais socialistas, a democracia proletária, a “revolução cultural”, a consciência, etc., ficavam reduzidas a arremedos, na União Soviética como na China.

Isto explica também que o partido comunista, de força revolucionária dos oprimidos, se tivesse transformado em administrador do capitalismo e que se tivesse encerrado no dogmatismo e dotado de poderes ditatoriais os dirigentes à altura da tarefa: Staline, Mao … Foi a sociedade que moldou o tipo de partido, a ideologia, os líderes e não o contrário.

A correcção dos erros – A vida demonstrou que a condenação dos “crimes de Staline” e a “correcção dos erros” promovidos pelo XX Congresso eram impotentes para suster a marcha do regime “soviético” para o descalabro; mais: aceleraram-na.
O período de Staline, com toda a sua violência, correspondeu à fase inicial florescente do capitalismo de Estado, à explosão das novas forças produtivas. Porém, uma vez realizada essa tarefa, o sistema começou a exigir a libertação da concorrência, do mercado, do reinvestimento dos lucros; na ausência destes, a inovação tecnológica e a produtividade emperravam; os operários não eram empurrados pelo aguilhão da concorrência no mercado de trabalho; a burocracia afogava os mecanismos económicos que precisavam de liberdade. As reformas gradualmente introduzidas a partir dos anos 60, não podendo tocar no tabu da propriedade estatal, eram inoperantes. E à medida que a nova burguesia de gestores e aparatchicks tomava forma acabada, diluía-se inexoravelmente o antigo radicalismo anti-imperialista da URSS, crescia a sua atracção pelo Ocidente, proliferavam as correntes revisionistas no marxismo, tomavam forma as aspirações de grande potência – tendências irreprimíveis que o modelo “socialista” frustrava.

O capitalismo de Estado foi assim passando inexoravelmente ao declínio nos anos 70, e por fim entrou na agonia e decomposição, quando se tornou um obstáculo às necessidades de reprodução do capital e de remodelação da sociedade.

A contraprova – Nada de estranho, portanto, se a queda do capitalismo de Estado não foi obra de uma revolução proletária, como profetizavam alguns, mas de um miserável ajuste de contas entre líderes vendidos: a tarefa na ordem do dia no chamado “campo socialista” era a libertação do capital amordaçado pela estatização, o desabrochar de um capitalismo que já não cabia no casulo estatal. As tarefas essenciais da revolução burguesa estavam realizadas – desenvolvimento das forças produtivas, acumulação de capital, proletarização da massa da população; para passar a uma nova fase, o capitalismo russo precisava de derrubar os entraves à propriedade privada herdados do passado. Foi o que fez a mal chamada “revolução” de 1989.

Isto permite compreender o carácter equívoco da dissidência “democrática” que crescia na sociedade russa e que o Ocidente aplaudia: o exercício das liberdades democráticas abria caminho à “livre iniciativa”, à plena liberdade para o capital, sem peias de qualquer espécie. Mesmo as revoltas com forte participação operária na Alemanha, Hungria, Polónia, se inscreveram inconscientemente nessa função de aceleradores do parto capitalista privado.

O carácter anárquico, “selvagem” e mafioso do novo capitalismo russo testemunha as dificuldades desta evolução. Mas a partir de agora, varridos os últimos vestígios ad revolução que atravancavam a sociedade, pode antever-se que essa burguesia de nascimento clandestino entra finalmente na maioridade.

A REVOLUÇÃO ESTRANGULADA

Lenine traído? – O carácter capitalista e anti-operário da “segunda revolução” de Staline levou alguns a concluir que este teria traído “o legado de Lenine, a Grande Revolução Socialista de Outubro”. “Talvez o respeito pelas indicações de Lenine tivesse permitido um progresso mais seguro …”. Esta opinião não tem em conta as transformações ocorridas na Rússia entre 1917 e 1929 e, desde logo, a natureza da própria revolução.

É preciso recordar que Lenine foi o primeiro a definir o regime instaurado pela revolução como um capitalismo de Estado. Como marxista que era, Lenine sabia que, se a revolução visava o socialismo, as tarefas que defrontava no imediato inscreviam-se no capitalismo. Nas Teses de Abril, tantas vezes citadas depois como pedra angular do seu alegado “plano socialista”, Lenine precisava que a nacionalização da terra e de todos os bancos e trusts dos capitalistas ou, pelo menos, o estabelecimento do controlo imediato dos mesmos pelos sovietes de deputados operários, deveriam ser levados a cabo por via revolucionária, mas “não significam de modo algum a implantação do socialismo”. E, nos conturbados anos seguintes, insistiu uma e outra vez que a tarefa do novo regime consistia em criar um “regime de transição” “sob capitalismo de Estado”, capaz de ultrapassar a anarquia da pequena produção e “resistir até à vitória do socialismo nos países mais avançados” porque “não somos suficientemente civilizados para passar directamente ao socialismo”.
Isto porque havia, ainda nas palavras de Lenine, uma “desproporção entre o económico e o político”, ou seja, o proletariado que assumira o poder não podia evitar uma etapa de transformações económicas de carácter burguês.

A falência da República burguesa – A tese, depois muito divulgada nos manuais soviéticos, de que a revolução burguesa teria sido levada a cabo em Fevereiro de 1917 e que a partir daí teria surgido a necessidade e a possibilidade de passar ao socialismo é de uma inconsistência flagrante: circunscreve a revolução burguesa à mudança do poder político quando esta era apenas o prólogo a uma profunda transformação de todo o regime económico-social, em primeiro lugar do regime da terra. E foi justamente porque a burguesia republicana se recusou a fazê-lo (como aliás já acontecera na revolução de 1905) que os partidos burgueses perderam o apoio da maioria dos operários e camponeses e estes aderiram às propostas dos bolcheviques.

Quando Kautsky condenou a tomada do poder pelos bolcheviques com o argumento de que estes “tentavam forçar a marcha da história”, já que as forças produtivas estavam insuficientemente desenvolvidas e as tarefas da revolução eram burguesas, ele omitia o essencial – que só a revolução proletária se mostrava capaz de levar a cabo essas tarefas burguesas.

Os bolcheviques não tentaram “forçar a marcha da história” – pelo contrário, foram o único partido que correspondeu às necessidades históricas da sociedade russa e por isso foram elevados ao poder pelas massas. A lenda do “golpe de Lenine” repisada por todas as escolas do Ocidente é uma falsificação grosseira da história. Os bolcheviques ganharam a maioria nos sovietes através de eleições democráticas no Verão de 1917. A tomada do poder pelos sovietes foi votada num congresso amplamente representativo dos operários, camponeses e soldados de todo o país, perante a paralisia e desagregação dos órgãos de poder burguês.

A República do Trabalho – De imediato, a revolução dos sovietes pôs termo à guerra imperialista e distribuiu a terra aos camponeses, as duas aspirações mais prementes do povo. Um governo de coligação de bolcheviques e socialistas-revolucionários de esquerda instaurou liberdades democráticas sem paralelo com o que até então se fizera em qualquer país: poder dos sovietes, comités de fábrica, controlo operário, comunas, comités de camponeses pobres, cargos públicos sujeitos a eleição e revogação, plena liberdade de expressão e de criação, livre acção dos partidos que reconhecessem o novo poder soviético. Sob o lema “quem não trabalha não come”, aboliram-se os direitos de propriedade e de herança. Foram adoptadas leis para a libertação da mulher, houve uma explosão na criação intelectual e artística, foram anulados os tratados com as potências…

Com plena razão os comunistas continuam a ver na atitude perante a revolução de 1917 um critério para separar o campo da burguesia do campo do proletariado.

Premissas do socialismo – Mas porque não podiam os trabalhadores acabar com o capitalismo, se eram senhores do poder? Porque o capitalismo não pode ser abolido por decreto; o socialismo só poderá ser instaurado numa sociedade onde tenha sido banida a escassez e onde, por conseguinte, a subordinação de toda a sociedade às necessidades de acumulação do capital comece a surgir como obsoleta, como um vestígio de tempos ultrapassados.

Marx previu o surgimento da sociedade comunista, com a sua etapa socialista transitória, não por aspiração utópica a uma sociedade perfeita, mas porque o estudo do Capital lhe permitiu antever que o processo de acumulação capitalista coma sua corrida ao lucro acarretaria uma explosão sem paralelo das forças produtivas e da proletarização (a que estamos assistindo) e com ela a abundância de bens, a substituição dos trabalhadores pelas máquinas, a centralização do capital, o declínio da taxa de lucro e o consequente esgotamento do sistema.

Como esta não era, nem de perto nem de longe, a situação da Rússia em 1917 a economia só podia ser baseada numa combinação de capitalismo de Estado, de pequena produção mercantil, de economia natural camponesa e de capitalismo privado ou cooperativo (numa parte da agricultura, artesanato, pequeno comércio, etc.). Tratava-se, em qualquer caso, de produção capitalista, baseada na venda da força de trabalho, governada pelas necessidades de acumulação do capital, só que levada a cabo, pela primeira vez na história, sob ditadura do proletariado. Esse carácter proletário do poder permitiria – esperavam os comunistas – que o desenvolvimento das forças produtivas desembocasse, não numa nova ditadura burguesa, mas na socialização.

1918-20: o desastre – A ditadura do proletariado tornou-se, porém, quase de imediato puramente nominal. As forças do proletariado, já de si diminutas, foram varridas pela intervenção imperialista, pela guerra civil e pela catástrofe económica que se abateu sobre o país. A contra-revolução apossou-se de grande parte do território, a actividade económica paralisou, milhões morreram à fome. Impotente para derrubar o governo bolchevique, a burguesia internacional conseguiu contudo desarticular por completo a sociedade russa e levá-la à exaustão. (“É preciso estrangular a criança antes que saia do berço”, filosofava Churchill, espelhando o estado de espírito da burguesia perante a inaudita ousadia dos trabalhadores russos).

E na ausência do proletariado (“o proletariado já não existe como classe”, constatava Lenine em 1922), era todo o plano de uma aliança operário-camponesa que se desmoronava. Os camponeses, que só momentaneamente tinham aderido à revolução, exigiam liberdade de comércio e não se submetiam à estratégia revolucionária do poder. Os partidos da pequena burguesia levantaram-se contra o governo e foram ilegalizados. Os sovietes, em grande parte camponeses, perdiam o cunho revolucionário, pelo que o partido teve que se lhes substituir como estrutura de governo. A grande esperança numa revolução, essa sim, socialista, vinda da Alemanha ou do resto da Europa, revelou-se infundada. A revolução proletária russa morreu de facto no berço.

A longa agonia – Os bolcheviques, contudo, sustentaram-se no poder e tentaram colmatar a fraqueza do proletariado combinando o poder absoluto do seu partido com algumas concessões à burguesia (a NEP). Era decerto uma aposta arriscada mas, na época, a única alternativa a isto seria capitular e chamar de volta os capitalistas para tomarem posse do país.

A esperança de que a Rússia pudesse chegar um dia ao socialismo através da combinação do capitalismo de Estado com a formação de cooperativas sustentou Lenine nos últimos anos em que dirigiu a Rússia. Iludia-se, porque a ditadura do proletariado fora varrida à nascença pela contra-revolução e se resumia ao poder de um partido comunista que procurava manter-se fiel aos interesses do proletariado e ganhar tempo até que uma eventual revolução europeia viesse arrancar a Rússia ao impasse em que mergulhara.

O partido, porém, mudava de natureza social, como era inevitável. Tornava-se o administrador do capitalismo de Estado sobre o proletariado e o campesinato. As lutas que ao longo dos anos 20 envolveram Staline, Trotsky, Bukarine, etc., exprimiam a insolúvel crise em que se afundava o poder, uma vez fracassado o projecto inicial de avançar para o socialismo através do capitalismo de Estado sob ditadura do proletariado. Gradualmente, o carácter democrático-popular do regime desapareceu, definiram-se os contornos do que viria a ser o regime ditatorial de Staline.

SUMÁRIO

Observada agora à distância, do seu prodigioso começo ao seu miserável desenlace, a grande revolução russa surge-nos como uma revolução burguesa dum tipo novo, típica de um século imperialista, cuja missão histórica foi implantar o capitalismo numa sociedade atrasada, mas que, para isso, teve que recorrer às forças do proletariado, devido à impotência da burguesia.

Reconhecendo nessa revolução a manifestação mais avançada da luta social, verdadeira alavanca (com a revolução chinesa) da transformação sofrida pelo mundo no século XX, podemos agora encará-la de um ponto de vista histórico. Foi uma grande revolução dos oprimidos, com uma dimensão nova na história, mas que não podia ir além das limitações económico-sociais dessa sociedade – varreu a velha ordem baseada na servidão, mas não pôde cumprir a sua aspiração ao socialismo e ficou-se pelo lançamento das bases do capitalismo.

Porque é tão importante desmistificar definitivamente o carácter “socialista” da ex-URSS? Porque sem isso o pensamento comunista não poderá sair do eclipse em que foi mergulhado pela longa agonia desse regime. Se o movimento comunista recebeu dele inspiração e apoio na luta contra o capitalismo, ficou também preso nas contradições sociais, políticas e ideológicas que o enleavam.

O saudosismo idealizador da União Soviética (ou da China de Mao) não é uma prova de firmeza face à ofensiva da burguesia. Os proletários não precisam de ser consolados por uma imagem idealizada do passado; só se “digerirem” esse tremendo terramoto que foi a revolução russa estarão à altura de enfrentar os novos combates que se avizinham.

Publicado no n. º 61 da revista Política Operária, Set/Out 1997

 

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