Regresso ao lar

Francisco Martins Rodrigues

 O SOCIALISMO QUE EU VIVI — Cândida Ventura, Edições “o jornal”, 1984. Ainda vale a pena discutir o testemunho de Cândida Ventura sobre a sua publicação passado um ano? Cremos que sim, porque se integra numa corrente muito em moda entre certa intelectualidade que pretende enobrecer a sua adesão à social-democracia invocando os desapontamentos lhe foram causados pelo comunismo” de estilo soviético. Finta ideológica que ilude não poucos operários e que merece ser analisada.

Antes de mais, assinale-se que, como documento, as confissões de C.V. são uma desilusão completa. Dos seus quase 40 anos de militância no PCP não conseguiu extrair uma linha que fosse acerca do movimento operário e popular contra o regime fascista, sobre as lutas internas no partido, sobre a evolução das suas próprias ideias. Nem sequer sobre a passagem pela PIDE e pela prisão, que optou por calar — talvez para não despertar ódios inoportunos…

Se retirarmos a esta obra o “dossier” sobre a Checoslováquia, com algumas informações úteis, umas nitidamente obtidas por empréstimo, o que sobeja da experiência política de C.V. é um deserto desolador. Dá vontade de perguntar: por onde andou Cândida Ventura entre 1937 e 1964? Como pode uma dirigente do Partido Comunista dar um testemunho tão vazio acerca de lutas políticas em cujo epicentro viveu?

O caso não é único (pensemos nas áridas memórias deixadas por Pires Jorge e Francisco Miguel) e diz muito sobre a degradação do pensamento no PCP desde a época em que Bento Gonçalves, no Tarrafal, prestes a morrer, ainda rascunhava no papel dos sacos de cimento o balanço da sua experiência.

Neste caso concreto, não arriscamos muito se dissermos que C.V. escreveu muito mais para esconder do que para revelar a sua experiência. Ela riscou da sua memória uma prática de luta que, hoje, vista pelos seus novos óculos social-democratas, lhe aparece como repreensível, dogmática, estalinista, etc. E tudo o que procura é justificar-se (sem êxito, aliás) por ter demora­­­do tanto tempo a renegar o “totalitarismo”.

De facto, é para se justificar aos olhos dos seus novos amigos que C.V. dá tanto realce ao processo do seu saneamento do Comité Central do PCP, em 1954, assumindo a postura de vítima portuguesa do “estalinismo”. Fizeram-lhe acusações injustas, havia um clima doentio no partido, imperava o “culto demente dos chefes” e a “mística do Partido”, a ponto de quase se sentir enlouquecer, etc.

Isto soa, sem dúvida, como pura melodia aos ouvidos do dr. Mário Soares. Querem melhor prova da “desumanidade inata do comunismo”? Contudo, se descermos ao terreno da política real que C.V. preferiu esquecer, o episódio surgir-nos-á a outra luz.

O que acontecia nesses primeiros anos da década de 50 era a “luta mais ampla e mais severa contra o comunismo”, prometida por Salazar desde que metera Portugal na NATO. Militão Ribeiro morria na Penitenciária e os tribunais plenários despachavam sentenças de prisão perpétua. O Partido Comunista resistia sozinho, meio desmantelado, assediado pela polícia.

Neste partido acossado, ameaçado de destruição, criou-se um clima quase paranóico de “espionite” e “fraccionite”, cujos efeitos C.V. sentiu de perto. Mas parece-nos indecente que ao referi-lo hoje, esqueça três aspectos da questão:

1º — A rigidez, o conspirativismo exacerbado, a intolerância, a desconfiança eram reacções defensivas, embora por vezes doentias, contra uma perseguição implacável. Podem falar sobranceiramente do “estalinismo” do PCP nessa época intelectuais pedantes que nunca arriscaram nada; Cândida Ventura não.

2º — Os democratas cuja tolerância tanto enleva C.V., como Sérgio, António Macedo, Mário Soares, etc., eram tolerantes porque não eram perseguidos, e não eram perseguidos porque não lutavam. O seu oposicionismo, cada vez mais gaguejante, misturava-se com profissões de fé no “mundo livre” e até com excomunhões do comunismo (como as de Cunha Leal, que eram, queira-se ou não, uma ajuda moral às torturas nos gabinetes da PIDE).

3º — No processo que levou ao afastamento de C.V. do Comité Central do PCP não houve só paranóia “antifraccionista”; é um facto que C.V. defendia uma inflexão política moderada, cedendo à pressão que se exercia sobre o partido; ela foi uma precursora dos grandes abandonos que levaram o PCP a propor, três anos mais tarde, o “afastamento pacífico do dr. Salazar”…

O grande argumento de C.V. para dourar a sua conversão à social-democracia é a descoberta, que teria feito em Moscovo e em Praga, da falsidade do socialismo em que até aí acreditara. Mas também aqui a inconsistência das suas posições é patente.

Não sendo possível comentar aqui o “dossier” checoslovaco, que forma a maior parte deste livro e que requer apreciação mais demorada, assinale-se apenas que C.V. escolhe como heróis e mártires aqueles que combatiam o aberrante “socialismo” de Gottwald e Novotny pela direita. Com efeito, Slansky, London, Dubcek, pelo facto de terem sido vítimas de processos forjados, não deixaram de constituir a oposição liberal a um regime que se entrincheirava na polícia para se defender simultaneamente da burguesia e do proletariado, do capitalismo e do comunismo…

Se C.V. tivesse alguma vez andado a lutar no PCP por algo mais do que “pela Verdade e pelo Amor entre os Homens” (tudo em maiúsculas!), o choque sofrido com a revelação da grande mentira do socialismo soviético e checoslovaco ter-lhe-ia provocado outras crises, outras reflexões: como fora possível que sobre a luta pela liquidação da burguesia tivesse nascido uma nova burguesia? Que novos caminhos trilhar para impedir a perversão da revolução proletária pelos Novotny e também pelos Dubcek?

Para isto teria procurado resposta C.V. se o seu “comunismo” fosse algo mais do que um tacanho antifascismo pequeno-burguês coberto com “generosos ideais”, tão generosos como difusos. A crise de consciência de C.V. foi a derrocada do “marxismo” cor-de-rosa, “democrático, popular e patriótico”, que fizera escola no PCP, sobretudo a partir de 1935.

E porque foi uma derrocada e não uma superação crítica, arrastou-se ao longo de 20 anos de “rompimento interior”, em que, apesar de se sentir “queimada por dentro pelas verdades que era preciso revelar”, C.V. não deixou de colaborar como dirigente do partido nessa grande mentira, a que não fez qualquer oposição significativa.

A “libertação” de C.V. é, pois, uma rendição incondicional à burguesia. Há que dizê-lo, por muito brutal que isto pareça a ouvidos delicados. Veja-se a sua classificação do regime soviético como “a mais eficaz estratégia de opressão do homem que a História já conheceu” (coitados do Hitler, Reagan, Suharto, Pinochet, Franco, Salazar…). Registe-se a sua insinuação de que o imperialismo americano não passaria de invenção comunista (pág. 188) e o protesto contra o receio e indiferença que campeiam nos países livres” acerca do perigo soviético. Merecia honras de publicação nas Selecções do Reader’s Digest...

Em resumo: o livro de C.V. não tem factos nem ideias nem estilo. Recolhe apenas as renegações lacrimejantes de uma senhora que tinha sonhado fazer o bem aos pobrezinhos e acabou por se desgostar com a fealdade da política. Paz à sua alma!

O mais elucidativo nesta capitulação ainda é o prudente silêncio do PCP. Cunhal e os seus amigos nem sequer tentaram denunciar frontalmente a passagem da sua ex-camarada para o campo da social-democracia. Teriam de se explicar acerca do “marxismo-leninismo” de pacotilha que produz tais misérias. Por isso ocultam o processo da degeneração de Cândida Ventura como uma chaga vergonhosa. Haverá melhor contraprova do compromisso de classe que envenena a sua política?

 Política Operária nº 1, Set-Out 1985

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