Staline de novo

Francisco Martins Rodrigues

Ao passar meio século sobre a morte de Staline, a grande imprensa portuguesa usou mais uma vez o assunto como pretexto para tentar enterrar a revolução russa, o movimento comunista e as ideias do comunismo. Staline foi “um dos monstros mais sinistros do século XX”; o stalinismo foi a “consequência inevitável da teorização leninista do marxismo”; a “dimensão demencial, paranóica, de uma brutalidade assassina” de Staline foi uma forma extrema de uma bestialidade que esteve e está presente em todos os países de governo comunista. Etc., etc.

E, depois da habitual intimação aos “esquerdistas” para que façam a sua autocrítica e reconheçam que não houve diferenças de fundo entre o regime da URSS e o nazismo, estes “arautos dos direitos humanos” aproveitam para “demonstrar” que os maiores admiradores actuais do terrível Staline são justamente… Saddam Hussein e Kim Jong-Il! De onde se conclui que o “Eixo do Mal” já vem de longe e que Bush tem toda a razão em atacar os actuais renegados com os seus exércitos e as suas bombas…

Ninguém esperaria decerto que a nossa “imprensa de referência” fosse capaz de empreender uma avaliação séria de Staline e da sua época. Mas a manipulação dos factos é escandalosa. Para fazer de Staline o “émulo de Hitler”, vira-se do avesso toda a crise que conduziu ao desencadeamento da segunda guerra mundial. Não se diz uma palavra sobre os esforços desesperados da União Soviética, ao longo dos anos 30, para chamar as potências ocidentais a uma frente contra a Alemanha nazi; calam-se as manobras anglo-francesas para empurrar Hitler contra a URSS; omite-se a entrega da Checoslováquia aos nazis em Munique, a entrega da Espanha aos franquistas, a capitulação dos governantes franceses em 1940… Em vez disso, surgem as pobres democracias como vítimas de um plano diabólico de Staline, visando metê-las à bulha com a Alemanha nazi, para ele depois intervir quando ambos os campos estivessem esgotados…

Sobretudo, minimiza-se grosseiramente a resistência da União Soviética à invasão nazi e a grande viragem da batalha de Stalingrado, a ponto de haver quem tenha escrito, repetindo quase textualmente comunicados dos nazis de há meio século, que os russos só venceram porque “os soldados sabiam que se recuassem eram abatidos pelos seus próprios camaradas”!

Agora mesmo, quando passava o 60º aniversário dessa batalha, indiscutivelmente o acontecimento mais decisivo da história europeia no século XX, oito governantes vendidos, entre os quais o anão Barroso, tentaram justificar a colaboração na aventura iraquiana de Bush com o argumento de que “foi graças à coragem, generosidade e visão de futuro dos Americanos que a Europa pôde libertar-se do nazismo”. Assim se reescreve a história…

Ponto de viragem

Em 1941, quando a Alemanha nazi lançou a invasão da URSS, a sua potência industrial era mais do dobro da dos soviéticos. Depois que os nazis conquistaram toda a região ocidental da União Soviética, a desproporção de forças entre os dois países tornou-se esmagadora. No início do Verão de 1942, aproveitando-se da ausência de uma segunda frente na Europa e sabendo que ela não seria aberta tão cedo, Hitler concentrou três quartos dos seus exércitos na frente oriental, ou seja, mais de 6 milhões de homens, 3.300 carros de combate, 3.400 aviões e 43.000 canhões. No fim do Verão, a conquista de Stalingrado, nas margens do Volga, parecia iminente, mas a resistência soviética tornou-se de tal modo encarniçada que o “invencível” exército nazi, que ocupara a França num mês, o mais que conseguiu, ao fim de semanas de combates, foi tomar algumas ruas da cidade, à custa de perdas terríveis.

Na manhã de 19 de Novembro, as salvas de milhares de canhões e morteiros deram início a uma contra-ofensiva soviética que apanhou de surpresa os nazis, pela dimensão do seu potencial. Ao fim do quinto dia da ofensiva, as tropas soviéticas já tinham cercado junto ao Don um grupo de exércitos alemães de mais de 300.000 homens. A 10 de Janeiro começou a etapa final da batalha de Stalingrado e a 2 de Fevereiro o marechal von Paulus rendeu-se com os seus exércitos.

Nos seis meses que durou a maior batalha da história, a Wehrmacht perdeu 1,5 milhões de soldados, e não voltou a recompor-se desta catástrofe gigantesca. A partir daí, iniciou-se o recuo que só viria a terminar com a entrada dos exércitos da URSS em Berlim. Por isso, o mundo inteiro compreendeu que, sem Stalingrado e sem os 20 milhões de soviéticos mortos na guerra, a Europa não se teria libertado da barbárie nazi.

De tal modo isto era incontestável que, em 30 de Janeiro de 1943, Churchill reconhecia na Câmara dos Comuns que “todas as nossas operações militares estão numa escala insignificante se comparadas com o esforço gigantesco da Rússia” e, numa carta a Staline, manifestava o seu “reconhecimento” e prometia “fazer o mais possível para vos ajudar”. Porém, os desembarques aliados em França e na Itália – a segunda frente cuja abertura Staline pedira em vão quando era preciso travar a avançada nazi – só se deram quando os anglo-americanos se alarmaram com o avanço imparável dos exércitos soviéticos para Ocidente.

E o Gulag?

Claro, toda esta campanha mal-intencionada assenta num suporte histórico – o regime repressivo instaurado por Staline na União Soviética, a omnipotência da polícia secreta, os processos de Moscovo, o Terror, o Gulag. Pode dizer-se que existem razões de sobra para recordar e tentar compreender esse cataclismo que custou milhões de vidas humanas.

Mas é justamente isso que esta campanha não faz.

Primeiro, ao colocar Staline no mesmo plano de Hitler falseia-se por completo a natureza do regime soviético. Na URSS, o regime ditatorial, com a sua tremenda máquina burocrática, nasceu da sucessão de catástrofes causadas pelo cerco, boicote e invasão das potências capitalistas, e nas quais se afundaram as conquistas da revolução popular e o regime dos sovietes. As relações sociais em que assentava o regime stalinista nada tinham de comum com a situação da Alemanha, onde a ambição expansionista da grande burguesia, ansiosa por escravizar a Europa para dominar o mercado mundial, elevou ao poder o bando de gangsters nazis e lhes permitiu destroçarem pelo terror o movimento operário.

Apresentar ambos os regimes e os seus dirigentes como semelhantes é tentar fazer esquecer o papel diametralmente oposto que desempenharam na cena mundial. Na época, todas as pessoas com o mínimo de consciência, comunistas ou não, sabiam que a URSS era a única grande potência que se erguia contra o nazismo e contra o desencadeamento da guerra. Isso, aliás, explica a admiração que todo o mundo progressista da época tinha pelo regime soviético e pelo próprio Staline.

Pela nossa parte, no colectivo da Política Operária, temos travado longos debates e publicado numerosos artigos sobre a questão, partindo do princípio de que a nossa crítica ao regime da URSS não tem qualquer ponto de contacto com a crítica burguesa. Resumidamente, podemos dizer que nem embarcamos no coro anti-stalinista dos ideólogos da democracia imperialista, nem sofremos de complexos de stalinismo envergonhado, como acontece com o PCP. Sabemos que Staline, militante revolucionário de valor na juventude, chefiou mais tarde a edificação na União Soviética de um regime de capitalismo de Estado, sem nada de comum com o socialismo, marcado por tremendas violências e crimes e pela supressão das liberdades populares que a Revolução instaurara. Repudiamos a imagem de Staline como discípulo e continuador de Lenine. Mas isso não nos leva a perder de vista que esse regime continua a ser odiado pela burguesia porque foi durante algumas décadas, e apesar das suas contradições, um obstáculo no caminho do imperialismo e um ponto de apoio na luta dos trabalhadores e dos povos.

Recusamos por isso “dar a mão à palmatória”, como nos exigem os ideólogos da burguesia. Não temos dúvidas de que as acerbas condenações do stalinismo pelos nossos “democratas humanistas” têm por objectivo fazer passar mais facilmente crimes e barbáries bem mais recentes e de uma dimensão muito maior – falamos do rasto sangrento que o imperialismo ianque tem derramado e continua a derramar através do mundo ao longo do último meio século, em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”.

Política Operária nº89

 

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