O que falta para termos um movimento antiguerra

Francisco Martins Rodrigues

Em Portugal há muitas vozes a condenar a guerra que aí vem, mas não existe um movimento de massas. E sem manifestações e protestos envolvendo dezenas, centenas de milhares, é impossível inflectir o rumo da política e obrigar o governo a desligar-se da aventura imperialista.

Esta vergonhosa pasmaceira portuguesa, em contraste com o que vai pelo mundo, será culpa das massas deste país, anormalmente apáticas, alienadas, chauvinistas e ignorantes, ou alguma coisa está mal com a agitação e propaganda antiguerra dos sectores conscientes? Não temos dúvida de que é a vacilação da esquerda que provoca a apatia da massa.

1. Quando muitos dos críticos de Bush põem o movimento antiguerra na expectativa das inspecções da ONU e das “provas” que estão sempre para aparecer, quando admitem o ataque armado ao Iraque desde que não seja “unilateral” mas votado no Conselho de Segurança, quando acham justificada uma invasão para punir o Iraque por transgressões que justamente os “queixosos”, os Estados Unidos, praticam impunemente há décadas – estamos perante uma “oposição à guerra” invertebrada e hipócrita, que na realidade lhe abre caminho.

Impressionam-se alguns com a possibilidade de Saddam ter mesmo armas de destruição maciça. Parece que não se lembram de que os Estados Unidos e Israel, dois autênticos Estados párias, as têm de certeza e de que os EUA já demonstraram que não hesitam em usá-las. Isto para além de todos os outros: Grã-Bretanha, França, Rússia, China, Paquistão, Índia…

Por isso é absurda a consigna “Nem Bush nem Saddam” que alguns na esquerda agitam, julgando-a muito hábil. Saddam ao pé de Bush é um pobre diabo. Os crimes por que o seu regime é responsável são um pormenor ao pé dos milhões que os EUA mataram ou mandaram matar na Coreia, Vietname, Salvador, Guatemala, Chile, Indonésia, Panamá, Iraque, Afeganistão, Palestina, Colômbia… – não vale a pena continuar a lista. Pôr no mesmo plano Bush e Saddam é colocar-se no terreno do imperialismo “esclarecido”, que condena os “excessos de parte a parte” para que tudo continue na mesma.

Outros fazem questão de condenar agora a ditadura que oprime o povo iraquiano, como se o que está em curso fosse um movimento pela sua libertação. Não vêem que as acusações a Saddam são iscos para desviar as atenções do crime que vem sendo cometido contra esse povo, martirizado por doze anos de bombardeamentos e sanções. Não vêem que essa compaixão é um elemento na sórdida campanha orquestrada que visa instalar aí um governo fantoche, igual ao do Afeganistão, e colocar o país sob o protectorado dos EUA, à custa de milhares de mortos e destruições sem conta.

Embarcar no alarido em torno das armas de destruição maciça, dos perigos do regime de Saddam, das resoluções da ONU, etc., é afinal esquecer que o Iraque é um mero peão neste jogo, como ontem foram a Jugoslávia e o Afeganistão, e amanhã será a Coreia do Norte ou o Irão. A partida trava-se entre os grandes blocos imperialistas, entre os EUA e a UE, sobretudo, cuja rivalidade está em crescendo devido à crise do capitalismo. Os Estados Unidos querem afirmar a sua supremacia sobre a Europa, pô-la na sua dependência total, e quem paga a factura são, como sempre, os países do Terceiro Mundo.

2. A forma como esta crise tem vindo a ser fabricada, manipulada e avolumada, a compra de votos no Conselho de Segurança a troco de dólares, o debate despudorado sobre a condução das operações militares, o destino a dar aos refugiados, a composição do futuro governo “amigo” a instalar no país, a partilha do território e do petróleo – já permitem enfileirá-la entre os exemplos mais revoltantes de banditismo imperialista. O que impede então a esquerda de apontar as guerras de pilhagem como necessidades intrínsecas do próprio sistema, denunciar o capitalismo como um sistema terrorista e Bush como o chefe dos bandoleiros? Porquê a contenção que certa esquerda revela perante os EUA, dando-lhes um aval “democrático” mesmo quando os criticam? Porque vacila a esquerda em filiar o expansionismo guerreiro norte-americano na linhagem do expansionismo hitleriano? Porque chega ao extremo grotesco de as suas acusações ao imperialismo serem com frequência mais recuadas que as de algumas personalidades moderadas? Porquê as reticências em apoiar incondicionalmente a resistência heróica do povo palestiniano ao genocídio? E donde surgiu esse argumento fantástico de certos adversários da guerra: “Se os EUA estão preocupados com as armas de destruição maciça, então porque não atacam a Coreia do Norte em vez do Iraque?” Sugerir ao grande salteador que assassine A em vez de B – aí está de facto uma maneira original de “lutar contra a guerra”!

Deixando-se arrastar pela tendência para marcar o seu distanciamento em relação aos regimes que são alvos do Pentágono, a fim de “não dar o flanco” às acusações de conciliação com as ditaduras e o terrorismo, a esquerda mete-se justamente na armadilha em que a direita a quer encurralar: põe-se na defensiva, mostra-se “respeitadora dos valores democráticos”, admite no fim de contas a legitimidade de o campo imperialista governar o mundo em nome da “democracia” e dos “direitos humanos” – desde que o faça “com moderação”!

Nada disto é casual. A esquerda enreda-se em falsas questões em vez de dizer que o mundo está nas mãos de uma clique de criminosos, às ordens do grande capital, porque dizê-lo é pôr em causa toda a ordem social. De facto, se se reconhecer que somos governados por criminosos, a pergunta seguinte é: que espécie de regime é este, que escolhe chefes mafiosos para seus dirigentes? Mas é justamente essa questão que devemos levar à consciência das massas: pôr termo à barbárie actual implica ir à luta directa contra o capitalismo.

3. A busca instintiva de uma oposição à guerra que não saia do âmbito do que é aceitável para a burguesia empurra muitos na área da esquerda para procurar apoio nos grandes poderes que possam fazer barreira aos EUA: Alemanha, França, Rússia, China, o Papa… Falando claro: tentam apoiar o movimento anti-imperialista num bloco imperialista!

As contradições de Chirac e Schroeder com Bush são reais, mas a ideia alimentada por um certo europeísmo “progressista” de que a União Europeia possa fazer uma oposição genuína à política de conquistas dos Estados Unidos, em nome de valores democráticos, pacíficos e humanitários, é puro ópio para o povo. A UE opõe-se à conquista do Iraque por recear ficar na dependência energética total dos EUA. A única meta dos governantes europeus é alcançar o poderio militar e a capacidade económica dos EUA, a invejada eficácia ianque na exploração e controle dos trabalhadores. Por isso é suicida pôr o movimento na dependência de interesses que não hesitarão em fazer uma reviravolta quando virem que os EUA levam a sua avante. As potências que agora se opõem a Bush-Blair passarão depressa da rábula da “legalidade internacional” à lógica do “se não podes com eles, junta-te a eles”. Foi o que aconteceu na Jugoslávia e no Afeganistão.

Discutir a legitimidade da guerra no plano de quem respeita ou desrespeita  as resoluções da ONU é ocultar o que está em jogo. O que importa é dar consciência às massas do reaccionarismo exacerbado de todas as grandes potências e alertar para o perigo de o proletariado das metrópoles se encostar às vantagens comparativas que o imperialismo lhe oferece para este fechar os olhos ao genocídio dos povos subjugados, que se vai sucedendo, com este ou aquele pretexto.

E isto, a esquerda não o está a fazer. Visivelmente acomodada à tranquila “normalidade democrática” e às suas pequenas batalhas institucionais, a nossa esquerda não quer abrir os olhos para os gigantescos embates que se avizinham entre blocos imperialistas, para a escalada no genocídio dos povos das “periferias”, para a fascização das instituições e para o ataque em toda a linha aos trabalhadores.

4. Até agora, a reacção do nosso movimento antiguerra à cedência da base das Lajes, à assinatura pelo governo da “Carta dos Oito”, às declarações de Barroso, a querer fazer passar o seu servilismo pró-americano por prova de “independência”, não está de modo nenhum à altura do envolvimento real do país na aventura.

E isto porque muitos preferem ignorar que a luta contra a guerra não é pacifismo abstracto, não é uma mera questão de opinião; é uma luta política entre nós e o nosso governo, que exige um confronto directo contra todos os que usam o nosso nome para colaborar na aventura.

A questão das Lajes devia estar em discussão nas ruas. Se o Governo alega que a cedência da base “é automática no âmbito dos acordos da NATO”, isso obriga-nos a reclamar o fim desses acordos. Se Portugal está envolvido, devido à NATO, na obrigação de servir de porta-aviões atlântico dos EUA em todas as aventuras guerreiras em que estes se lancem, isso significa que a permanência de Portugal na NATO é intolerável.

Alegam alguns que esta será uma reivindicação pouco realista porque as massas ainda não a sentem como viável. Claro que não sentem, e continuarão a não sentir enquanto as forças de esquerda não deitarem mãos à campanha. Será preciso agitá-la e explicá-la até as massas acreditarem nela e a tomarem como sua. Não foi sempre assim que a esquerda ganhou terreno no passado?

Muita da timidez e tacanhez da nossa propaganda antiguerra tem a ver com o isolamento em que nos mantemos. No decurso das acções contra esta guerra, devemos criar laços internacionalistas com outras forças anti-imperialistas consequentes que muito nos podem ensinar em matéria de linha política e de formas de acção, em desafios directos à política governamental e à intimidação policial.

A este respeito, anunciou há dias um partido de esquerda que apresentará uma moção de censura ao governo se este oferecer tropas para a invasão. É só isto que a esquerda tem a dizer numa emergência destas? Mesmo sem enviar tropas, o Governo não está já a colaborar na guerra? E uma moção de censura, nesta situação, não é um acto simbólico que transforma a oposição à guerra numa opereta? Nós propomos que a esquerda apele pública e solenemente à desobediência às ordens anticonstitucionais deste governo, que convide cada cidadão a lutar contra a guerra por todos os meios ao seu alcance.

5. Estão a aparecer muitas personalidades a fazer campanha contra a guerra, o que é óptimo. O que não é bom é ver forças de esquerda, encantadas com este “maná”, ajoelharem-se perante essas personalidades, convictas de que cada “general” que se passe para o nosso lado irá arrastar uma quantidade de “soldados”, e reclamarem silêncio às posições radicais para não deitar a perder a “unidade” finalmente conseguida. É uma velha doença que vem dando os seus frutos envenenados desde o tempo do fascismo. O movimento só cresce com activistas conscientes, dotados de espírito revolucionário, não com massa amorfa atrás das figuras ilustres. O movimento só pode ampliar-se a partir dos mais consequentes para os mais vacilantes e não o oposto.

Mas, queixam-se muitos, há falta de militantes para a campanha antiguerra (na realidade, há falta de militantes para tudo). Talvez seja altura de reconhecer que a esquerda deste país, envergonhada dos “excessos revolucionários” (!?) e na ilusão de chegar melhor às massas, desistiu de formar uma vanguarda. Recuou-se para o nível mais acessível, para o anti-imperialismo de via reduzida, trocou-se a crítica ao sistema capitalista pela crítica aos seus excessos mais gritantes, e o resultado, em vez da prometida “política para milhões”, foi o vazio. A actual luta contra a guerra será uma boa oportunidade para pôr a debate esta aberração.

Por último, uma objecção que ouvi ainda ontem: “Se a guerra já não pode ser impedida, de que serve ir para a rua?” Primeiro, ainda não sabemos se a guerra é inevitável. Mas sobretudo faz uma grande diferença assistir a um crime de braços cruzados ou estar em luta contra ele. A nossa intervenção pode não evitar a guerra, mas faz de certeza uma grande diferença para o nosso futuro, para aquilo que iremos fazer amanhã em novas situações semelhantes, para aquilo que será a esquerda neste país. Por isso, o próximo dia 15 de Fevereiro tem tanta importância. Temos oito dias à nossa frente. Vamos aproveitá-los.

(Debate promovido pela revista Política Operária a 7 de Fevereiro de 2003, na Biblioteca-Museu República e Resistência, em Lisboa)

 

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