A revolução chinesa nunca existiu?

Francisco M. Rodrigues

Está a fazer sucesso um novo volume sobre Mao, da autoria de uma escritora de origem chinesa, em parceria com um professor universitário norte-americano*. Propagandeado como obra séria de investigação e aplaudido por muitos como a “resposta definitiva para os enigmas da revolução chinesa”, é, apesar da pretensão académica e da abundância de citações de fontes, bibliografia e notas, uma difamação de baixo nível.

A revolução que libertou 500 milhões de seres humanos de um destino trágico – miséria, doenças, analfabetismo, servidão – e trouxe a China para a modernidade aparece rebaixada ao nível de um psicodrama sórdido entre tiranos sedentos de poder. Mao, o líder e pensador revolucionário que inspirou a emancipação de um quinto da humanidade das trevas da servidão, é rebaixado às dimensões de um ditador sanguinário e sem escrúpulos; ele teria programado deliberadamente a morte de milhões de chineses, a sua luta contra Liu Shao-chi não passaria de uma conspiração palaciana; até as vitórias do Exército de Libertação seriam inventadas (o ditador Chiang Kai-chek teria deixado passar a Longa Marcha para não pôr em risco a vida do seu filho, nas mãos de Staline!);  etc.

Assim chega a autora à conclusão desejada: “A revolução foi a origem de todas as desgraças e todos os crimes”; “o comunismo nunca deu nem nunca dará certo em lado algum”.

O “estudo sério” sobre Mao é afinal mais uma peça na infindável produção de de histórias de terror sobre os “ditadores mais sanguinários de todos os tempos”. Só o hábito, já enraizado na opinião pública, de tomar como bom tudo o que se diga contra a revolução e o comunismo leva a que muitos nem se apercebam da grosseira manipulação a que são sujeitos. Engodados pelas “revelações” escandalosas sobre os antigos ídolos, não notam que obras destas não informam mas ocultam o que aconteceu e as causas de ter acontecido. Na realidade, o que hoje se lê sobre os ex-regimes comunistas ultrapassa o que no auge da guerra mundial publicavam os folhetos de propaganda dos nazis. Os políticos, jornalistas e intelectuais que aplaudem estas “corajosas revelações” deveriam, para ser coerentes, reabilitar a causa hitleriana.

Há, é certo, correntes minoritárias, no que resta do movimento marxista-leninista, que persistem em defender a revolução chinesa e a figura de Mao. Mas a coerência não é o seu forte. Não reconhecem que ao auge revolucionário depois da tomada do poder pelos comunistas sucedeu um refluxo burguês. Agarram-se a histórias sobre factores pessoais, erros e traições para explicar uma transformação social regressiva. Alegam que o que se diz sobre a actual situação social na China seria fruto da propaganda da burguesia ocidental, alarmada pela concorrência imparável das mercadorias chinesas. Fazem com a China o mesmo que fizeram durante meio século com a União Soviética, quando recusaram obstinadamente encarar os factos gritantes que de lá chegavam, esperando até ao último minuto que o regime “soviético” defunto “corrigisse os erros”.

A verdade é que os avanços espectaculares conseguidos pela China nos últimos anos estão a reanimar nos saudosistas do ex-“campo socialista”, seduzidos pela força aparente deste regime ainda nominalmente comunista que não entra em descalabro nem se rende ao imperialismo, sonhos de uma “rectificação” salvadora.

Ora, debater, como insistem em fazer com toda a seriedade, se o regime chinês ainda cabe ou não no conceito de socialismo, se é um “socialismo de mercado”, ou um “socialismo com mercado”, susceptível de vir a sofrer uma evolução positiva, dado que o poder continua nas mãos do Partido Comunista – é uma aberração que dá a medida do abastardamento a que chegou o pensamento marxista oficial sobre o socialismo.

A campanha de denegrimento da burguesia não se enfrenta com desculpas mal amanhadas. É preciso explicar como desceram os regimes da Rússia e da China, da audácia das grandes conquistas populares e das visões arrojadas de libertação da humanidade à supressão das liberdades, ao conservadorismo dogmático e ao terror; como degeneraram os partidos comunistas em cliques de burocratas sem alma e os heróis revolucionários em aparatchiks corruptos.

* Mao – a história desconhecida, de Chang Hun e Jon Halliday. Ed. Bertrand, Lisboa.

Política Operária nº 103

 

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