Bukarine, o precursor

Francisco Martins Rodrigues

Meio século depois de ter sido condenado e fuzilado como chefe de um bando de espiões e sabotadores ao serviço do imperialismo, Bukarine acaba de ser formalmente reabilitado pelo Supremo Tribunal de Moscovo. As acusações contra ele formuladas eram falsas, as “provas” forjadas. Tudo se resumiu a uma monstruosa maquinação para dar cobertura à sua eliminação política.

A luta que opôs Bukarine a Staline volta assim a primeiro plano. E embora as autoridades soviéticas tenham o cuidado de sublinhar que a reabilitação é apenas judicial e Gorbatchov tenha recapitulado. nas comemorações de 7 de Novembro, os “erros de Bukarine”, parece fora de dúvida que o processo da sua reabilitação política está em marcha.

O que é perfeitamente lógico. No momento em que os responsáveis da URSS procuram relançar o crescimento económico combinando a planificação com o mercado, o sector estatal com um renascido sector privado, e libertando a sociedade da canga estagnante de uma burocracia monolítica, as ideias de Bukarine ganham nova actualidade.

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Bukarine defendia a necessidade da cooperação harmoniosa entre as grandes empresas estatais e os pequenos produtores; avisava que o perigo de degeneração do socialismo não vinha tanto da prosperidade da pequena burguesia como do “supermonopolismo de Estado“, que acabaria por asfixiar a concorrência e o crescimento das forças produtivas; batia-se pela liberdade de criação e de discussão, pela paz civil, pela tolerância; no plano internacional, punha em dúvida a proximidade da revolução nos países imperialistas, propunha a colaboração a longo prazo dos partidos comunistas com a social-democracia e apostava no apoio às revoluções nacionais dos países dependentes.

Como poderia ele hoje não surgir aos dirigentes da URSS como um precursor dotado de clarividência quase profética?

Naturalmente, admitem, Staline tinha mais razão em 1930, porque a criação acelerada da grande indústria e a colectivização agrícola eram a condição da sobrevivência da URSS face à iminência da guerra mundial. Mas muitas desgraças teriam sido evitadas se o stalinismo tivesse sido desde início temperado com um pouco de bukarinismo e sobretudo, se lhe tivesse cedido a primazia depois de cumpridas as tarefas prementes da edificação económica.

Passar de Bukarine a Staline e de Staline a Bukarine parece ser o destino dos partidos que ao longo deste século tomaram a cabeça das revoluções proletárias em países atrasados. É como se o leninismo, de que todos se reivindicam, se tivesse bifurcado em duas alternativas extremas, cada uma delas incapaz, só por si, de fornecer a solução para o problema da construção da nova sociedade, mas ambas captando aspectos essenciais.

Mao Tsé-tung foi talvez o dirigente que mais longe levou a tentativa de fundir num sistema único as ideias contraditórias de Staline e de Bukarine, mas o fracasso da revolução cultural retirou à sua “nova via” o crédito internacional de que chegou a desfrutar. E hoje, na URSS como na China, na Europa Oriental ou no Vietname, pode dizer-se que a escola bukarinista ascende vigorosamente. Bukarine vai ter finalmente a oportunidade de mostrar o que vale, 50 anos depois de ter sido caluniado e fuzilado.

Se para nós é certo que daí não sairá mais socialismo do que saiu da via stalinista, nem por isso deixamos de considerar positiva a experiência. Quando as duas teorias tiverem feito a prova da prática será mais fácil compreender porque é que ambas são incapazes de romper os marcos do capitalismo, melhores condições haverá para o marxismo-leninismo sair do dilema em que foi aprisionado há meio século.

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Para os PCs do Ocidente e para todos os “marxistas” mais ou menos social-democratas que lhes estão próximos, a opção está feita de há muito, mesmo que não se declarem expressamente seguidores de Bukarine. O stalinismo aparece-lhes como uma colossal perversão totalitária, que veio interromper brutalmente a marcha da União Soviética em direcção a um socialismo “de rosto humano” e fazer a história recuar de vários decénios.

As “aberrações” que apontam a Staline, na passagem dos anos 20 para os anos 30, têm sido largamente catalogadas em livros de história, manuais. Revistas, e podem enumerar-se assim:

– Staline tinha a ideia fixa de que uma edificação económica independente só poderia repousar sobre o crescimento “a marchas forçadas” da indústria pesada, sem olhar aos custos humanos que isso acarretaria:

– Staline alimentava uma convicção “maníaca” de que a luta de classes se intensificaria à medida que a União Soviética avançasse em direcção ao socialismo, o que o levou a criar um clima de exasperação desnecessária dos conflitos no país;

– Staline desprezava os camponeses, em que via pequenos capitalistas em germe e que tratou de “reeducar” brutalmente pela colectivização forçada; rejeitava de facto as ideias de Lenine sobre a aliança operário-camponesa;

– Staline quis descobrir um imaginário “terceiro período” na luta de classes internacional, propício a novas explosões revolucionárias, eliminando em consequência como “direitistas” os dirigentes comunistas que não aceitavam esta tese;

– Staline acusou caluniosamente a social-democracia de ser uma “reserva” e “irmã gémea” do fascismo, e com isto tornou-se responsável pela divisão da classe operária alemã e pelo ascenso do nazismo;

– Staline reduziu o marxismo a um amontoado de fórmulas estereotipadas e dogmáticas, ao serviço do seu voluntarismo cego, que asfixiou toda a vida interna do partido bolchevique;

– Staline tinha um carácter dúplice e desconfiado, que o levou a suprimir por meios bárbaros todos os opositores e a mergulhar a União Soviética num regime de terror.

Todas estas acusações foram feitas no seu tempo por Bukarine. De modo que adquire agora um interesse renovado, no momento da sua reabilitação, recordar as críticas que fazia, as soluções que propunha, os interesses que defendia e as condições em que foi desalojado do poder. Desse confronto resultará talvez mais claro que nem Staline era um demónio nem Bukarine um santo, como tende a crer a democracia pequeno-burguesa. E que, se o stalinismo fracassou na sua tentativa desesperada de edificar uma URSS socialista, o bukarinismo preparava um desastre de iguais ou maiores proporções.

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Em 1926, o regime soviético, sob a direcção partilhada de Bukarine e Staline, demonstrava com brilho a viabilidade da nova organização social fundada pela revolução. Deixando para trás a miséria e o caos provocados pela intervenção estrangeira e pela guerra civil, a URSS afastava definitivamente o espectro da catástrofe económica, recuperava o nível produtivo de antes da guerra e tomava o caminho da prosperidade.

A propaganda antibolchevista dos meios imperialistas já não conseguia esconder o sucesso da experiência soviética. Subia o nível de vida das massas, consagravam-se direitos até então desconhecidos para a classe operária, faziam-se progressos espectaculares no campo da saúde, da educação, da libertação da mulher. Havia ainda pesadas sequelas da guerra civil – desemprego, prostituição, delinquência juvenil – mas estavam em vias de ser reabsorvidas.

A nova cultura soviética vivia uma autêntica “idade do ouro”, de impacte mundial. No cinema, na literatura, no teatro, na arquitectura, floresciam as escolas e as realizações de vanguarda.

O regime não tinha nada da pesada uniformidade que tomou mais tarde. A ditadura política do Partido Bolchevique não excluía uma grande liberdade de expressão, dentro e fora do partido, e a participação de muitos não-bolcheviques em órgãos superiores do Estado. Nos sovietes, onde se tinham realizado eleições livres, os comunistas eram uma reduzida minoria.

Esta sociedade dinâmica, cheia de diversidade mas harmoniosa, era obra da NEP, instituída em 1921 sob a direcção de Lenine. Combinava um forte sector estatal com uma vasta rede de cooperativas de comércio e consumo e com a liberdade controlada para os pequenos produtores e comerciantes. Conseguira-se que o novo regime instituído pela insurreição operária fosse adoptado pela massa dos camponeses, pela intelectualidade e os empregados, por grande parte da pequena burguesia – era uma verdadeira democracia popular.

Não era de estranhar por isso a derrota das últimas resistências dos oposicionistas “de esquerda”, que apontavam deformações e perigos, mas não tinham nenhuma alternativa real a oferecer para a via da NEP.

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Bukarine atingia então o auge da influência e popularidade. As suas capacidades teóricas tinham-no elevado a chefe de uma corrente de pensamento que dominava no partido e no Estado. Tinha grande autoridade no Bureau Político, onde contava com o apoio de Rikov, o chefe do governo, e de Tomsky, líder da organização sindical. Os bukarinistas tinham as posições-chave na imprensa central e no aparelho ideológico do partido, assim como nos órgãos económicos centrais. O comité de Moscovo do partido era completamente dominado pelos seus apoiantes.

Ao ser designado para a direcção da Internacional Comunista em substituição de Zinoviev, Bukarine passou a dispor de poderes vastíssimos, no plano interno e internacional, para levar à prática as suas ideias.

Depois que ultrapassara as suas teses “ultra-revolucionárias” desesperadas de 1918, quando entrara em conflito com Lenine a propósito da paz de Brest-Litovsk, Bukarine adaptara o seu pensamento às condições de isolamento da revolução russa. Fortalecera-se na convicção de que não havia alternativa para a integração lenta e gradual da pequena economia camponesa no socialismo: a NEP era o “Brest- Litovsk camponês”.

Mais: a NEP surgia-lhe agora, não como um compromisso de recurso, mas como uma política a longo prazo, a forma particular e original da ditadura do proletariado nas condições da Rússia atrasada, a transição segura para o socialismo.

Concluíra que o crescimento em direcção ao socialismo seria um longo processo de decénios, conseguido pela paz civil sob direcção do proletariado, pela competição pacífica entre o sector estatal e o sector privado, em que o primeiro se imporia gradualmente pela própria superioridade que lhe dava a organização centralizada. O capitalismo seria batido no seu próprio terreno, como dissera Lenine, sem necessidade de supressão violenta.

Tratava-se, dizia Bukarine, de “ultrapassar o mercado através do mercado”, mesmo que isso implicasse construir o socialismo “a passo de tartaruga”.

Que perigos principais ameaçavam esta via? Para Bukarine, o perigo de falhar existiria se não se fizesse uma combinação tolerante e harmoniosa dos interesses privados com o interesse geral, e não se soubesse pôr os camponeses, os artesãos, mesmo a burguesia, ao serviço do projecto de industrialização socialista.

E aos que o acusavam de “neopopulismo”, de idealizar a NEP, de substituir a revolução pelo evolucionismo, Bukarine retorquia que a sua perspectiva nada tinha de reformista porque assentava nas conquistas da revolução. Os bolcheviques detinham as alavancas do poder – era isso que abria possibilidades ilimitadas de evolução gradual, pela “extinção progressiva da luta de classes”.

Nos camponeses, que constituíam a esmagadora massa da população, via a pedra de toque do regime soviético. “Sob a direcção do proletariado, o campesinato tornar-se-á – está já a tornar-se – a grande força libertadora da nossa época”. O desenvolvimento industrial promovido pela Estado tinha que ser ligado à prosperidade dos camponeses e à expansão do mercado rural. Os planos “hiperindustrialistas” da oposição pareciam-lhe aberrantes, porque encaravam o campesinato como uma espécie de carne de canhão numa guerra entre o proletariado e a burguesia. Os oposicionistas, acusava, queriam romper a aliança operário-camponesa e isso levaria a revolução ao desastre, ao suicídio.

Mas defender a liberdade sem peias para a economia camponesa era defender a pequena burguesia. Em 1925, no calor da polémica, Bukarine teve a frase que mais tarde viria a ser-lhe dirigida como acusação: “É preciso repetir a todas as camadas do campesinato: enriquecei, acumulai, desenvolvei a vossa economia “.

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A NEP trazia no bojo dos seus êxitos os factores de uma grande crise e era nos campos que ela se gerava. O equilíbrio de classes conseguido não era estável e o seu dinamismo próprio conduzia à sua ruína. Tudo se resumia a isto: o sector privado revelava maior vitalidade e crescia mais aceleradamente do que o sector estatal. A pequena burguesia, insaciável, reclamava sempre mais e a classe operária não tinha força para lhe opor formas socialistas eficazes. A “guerra de posições” da NEP estava em risco de ser perdida, tal como fora perdido o assalto frontal do “comunismo de guerra”.

Primeiro foram as concessões iniciais de 1921: a requisição estatal de cereais fora substituída por um imposto, para interessar os camponeses no cultivo das terras; autorizara-se o reaparecimento do capital privado; numerosas empresas tinham sido desnacionalizadas e devolvidas aos antigos proprietários.

Três anos depois, perante as más colheitas e o descontentamento dos camponeses, foi necessário alargar as concessões. Reduziram-se os impostos agrícolas e a intervenção do Estado nos preços do trigo, levantaram-se entraves administrativos à liberdade de comércio, alargaram-se os prazos de arrendamento das terras, legalizou-se o emprego de trabalho assalariado mesmo fora da época das colheitas.

Mas tudo continuava em questão. A realidade da NEP saía para fora dos limites traçados na lei com força indomável. Dizia-se que a reforma agrária fizera da Rússia um país de camponeses médios, firmes aliados do proletariado, mas a influência dos camponeses ricos, dos kulaks, tornava-se determinante nas aldeias, no comércio, nos sovietes. Só eles dispunham de gado em abundância, de máquinas agrícolas, de capital. As cooperativas de comercialização tornavam-se na prática um veículo do seu enriquecimento. Em muitos casos, os camponeses pobres e médios eram obrigados por falta de meios a dar as terras de renda aos ricos, a trabalhar à jorna para eles, a alugar-lhes o gado. Assim, se os kulaks eram apenas 3% das famílias do campo, eles vendiam ao Estado 20% do total do trigo comercializado, ocupando um lugar-chave na economia.

Além disso, os comerciantes privados, que pagavam os produtos agrícolas a melhor preço do que os organismos estatais, já detinham mais de um terço do volume dos negócios no comércio a retalho e alimentavam a especulação e a corrupção. Os nepmen enriqueciam, ganhavam influência nos órgãos do poder soviético, tornavam ilusórios os planos do partido.

A democracia popular soviética revelava-se menos estável e harmoniosa do que supunha Bukarine. Preparava-se nela uma prova de força. O controlo a que se sujeitava a economia de mercado tinha que ser levantado, como reclamavam os novos burgueses, ou drasticamente reforçado. Esta a realidade social que geralmente omitem ou minimizam os que discutem as alternativas de Bukarine e Staline como se elas fossem um debate entre ideologias e não a expressão de uma luta de classes acesa que já não consentia mais meios-termos.

A prova de força que fora lançada contra a pequena burguesia não tinha porém outra alternativa senão desdobrar-se em medidas cada vez mais violentas para lhe quebrar a resistência, justamente porque não dispunha de um forte sector operário socialista que lhe servisse de apoio. A tendência irreprimível dos stalinistas, para não perder a batalha, era recorrer aos meios repressivos do estado numa escala cada vez mais vasta. A “grande viragem” ia varrer tudo à sua frente.

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Uma grande crise fermentava na política internacional, sob a aparência enganosa da estabilização do capitalismo, mas também aqui Bukarine não se apercebia dela.

Assumindo a chefia da IC, Bukarine deu novo desenvolvimento às concepções já antes elaboradas por Zinoviev. Em sua opinião, a estabilização do capitalismo não devia ser vista como um fenómeno passageiro mas como o produto de alterações estruturais geradas pela concentração e centralização dos capitais. O capitalismo imperialista conseguia aquilo que parecia impossível -“racionalizar os elementos irracionais que contém”.

Este retorno às suas teses de 1915/16, em que previra que as capacidades organizadoras do “capitalismo colectivo” fariam evoluir o sistema para uma etapa de capitalismo de Estado, implicava de facto a ideia de que a burguesia conseguiria superar as crises cíclicas e as convulsões nos países imperialistas. Queria isto dizer que Marx se enganara?

Bukarine tinha uma resposta para esta objecção. Sem dúvida, admitia, a anarquia e as contradições inerentes ao sistema persistiam, mas tinham-se transferido para um plano incomparavelmente mais vasto e manifestavam-se agora nas relações entre os centros imperialistas e os países coloniais e dependentes. E usou pela primeira vez a imagem dos países avançados como as “cidades” mundiais e as colónias como os “‘campos”. Era a partir desses “campos” miseráveis que a revolução mundial teria a sua nova onda.

Isto implicava duas conclusões politicas de grande alcance para a orientação dos partidos comunistas. Nos países imperialistas, devia considerar-se afastada a perspectiva de conflitos sociais violentos; os comunistas deveriam concentrar esforços em superar a “tragédia da divisão da classe operária”, lutar por uma frente comum com a social-democracia, dado que ela mantinha sólida implantação no movimento operário e sindical. Acordos a nível de direcção com os partidos social-democratas eram vigorosa mente defendidos por Bukarine, que exigia que se pusessem de parte velhos complexos “esquerdistas”. Mesmo depois que a clamorosa traição dos chefes trabalhistas ingleses à greve geral de 1926 desencadeou uma onda de críticas à sua linha. Bukarine manteve-a sem vacilação.

Quanto aos países coloniais e semicoloniais, defendia uma ruptura com o que considerava velhos preconceitos “esquerdistas”. O atraso do capitalismo nesses países obrigava os comunistas a uma política muito ampla de alianças que os projectasse como força preponderante do movimento nacional-revolucionário. A resistência às frentes unidas com as pequenas burguesias e as burguesias nacionalistas parecia-lhe um sectarismo suicida. E dava como exemplo o espectacular crescimento do PC da China, por se manter flexivelmente integrado no Kuomintang e ter derrotado o “esquerdismo” nas suas fileiras.

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Em 1927/28, todo o sistema de ideias políticas que Bukarine edificara, à frente do Partido Bolchevique e da IC, sofreu um rude abalo, que marcou o começo do fim da sua autoridade como principal teórico do bolchevismo.

A derrocada do bukarinismo começou precisamente na China, onde o massacre de milhares de comunistas na Primavera de 27 lançou por terra as suas perspectivas optimistas sobre a marcha gradual da revolução chinesa sob a direcção do Kuomintang. Tentou ainda, com o apoio de Staline, salvar a aliança dos comunistas com uma fracção de “esquerda” do Kuomintang, mas em breve foi forçoso reconhecer aquilo que lhe parecera uma aberração inventada pelos “esquerdistas”: a burguesia nacional atraiçoava a luta pela sua própria emancipação e não hesitava em aliar-se ao imperialismo para esmagar a classe operária. Toda a política das frentes unidas estava posta em causa.

No Verão, começou a tornar-se claro que se caminhava para nova crise na frente agrícola, com os kulaks a tomar a direcção dos camponeses médios e a fazer novas exigências. A oposição, que já desde a colheita anterior começara a alertar para a “greve dos kulaks“, redobrou nas críticas acerbas a Bukarine, Rikov, Tomsky, esses “nepistas a 150% “, que insistiam em sonhar com uma sociedade de harmonia quando se desenhavam grandes confrontos de classes.

No Outono, começou a viver-se uma atmosfera de crise no país e na direcção do partido. Com os desaires na frente internacional, com as reservas de cereais do Estado reduzidas a menos de metade do ano anterior, com as manobras ameaçadoras das grandes potências ocidentais, surgia em primeiro plano a urgência de pôr termo à política de concessões, de reforçar o poder económico do Estado e de avançar por qualquer meio na industrialização, como base de uma indústria de defesa eficaz.

O 15º congresso do partido, em Dezembro desse ano, iniciou a ruptura da aliança que ligava Staline a Bukarine. Muitos que até aí tinham apoiado as teses de Bukarine começaram a demarcar-se dele, Staline em primeiro lugar. Para lançar finalmente as bases da indústria pesada, era preciso ir buscar o dinheiro à burguesia e minar a influência dos kulaks pelo apoio às cooperativas de produção agrícola. Adiar por mais tempo medidas radicais seria abrir as portas à fome, à contra-revolução ou ao esmagamento da União Soviética na guerra que se desenhava.

Bukarine viu-se forçado, pela evidência dos factos e pelo receio de perder o apoio no CC, a concordar com as “medidas extraordinárias contra os especuladores” propostas por Staline: confiscação das reservas de cereais escondidas, agravamento dos impostos sobre a pequena burguesia, vigilância sobre a negociação clandestina de terras, limitação do trabalho assalariado e da duração dos arrendamentos, restrições aos direitos eleitorais dos kulaks nos organismos de aldeia.

Um mês depois, já protestava, apoiado por Rikov e Tomsky, contra os excessos e violências cometidos na aplicação da lei, que atingiam em muitos casos os camponeses médios. Ao longo de 1928, os três travam a sua batalha perdida em defesa da NEP. Tentam demonstrar que “por muitos anos ainda o abastecimento em cereais dependerá da economia camponesa privada” e que a ideia de cobrir o país com uma rede de quintas colectivas é um sonho insensato que conduzirá na realidade à “exploração militar e feudal do campesinato”; aceitam o projecto de industrialização e planificação da economia, mas pretendem que se desenvolvam a um ritmo “razoável”, deixando algum espaço ao jogo do mercado; reconhecem que há um perigo de direita a combater, mas alertam contra a tendência para o arbítrio.

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Assim se tornou Bukarine, “o mais eminente teórico do partido” no dizer de Lenine, no representante político da pequena burguesia da NEP em luta pela sobrevivência.

A evolução parece tão absurda aos “marxistas democráticos” do nosso tempo que a atribuem a invenção malévola de Staline e procuram fazer crer que Bukarine se situava na linha de continuidade do leninismo “autêntico”, apresentando para esse efeito diversos escritos de Lenine dos anos 1921/22. Não tomam em conta que Lenine se pronunciou sobre os passos iniciais da NEP e não pode ser chamado como testemunha na luta que se travou mais tarde. E omitem que, batendo-se pela adopção da NEP como único recurso de sobrevivência do regime soviético, Lenine nunca deixou dúvidas sobre a concessão que representava.

Já em 1918, poucos meses depois da revolução, intervindo na polémica que se gerara em torno dos perigos do capitalismo de Estado, Lenine tocara no fundo da questão:

“Não é o capitalismo de Estado que está em luta com o socialismo, mas a pequena burguesia e o capitalismo privado que lutam, lado a lado, simultaneamente contra o capitalismo de Estado e contra o socialismo. A pequena burguesia opõe-se a qualquer intervenção da parte do Estado, a qualquer inventário, a qualquer controlo, quer emane de um capitalismo de Estado ou de um socialismo de Estado”. (Oeuvres, tomo 27, p. 351).

Esta era a raiz do conflito que viria a explodir em 1927. Que os actuais bukarinistas não a consigam divisar, nada tem de estranho. Quando está em jogo a perda das conquistas revolucionárias e a recuperação do capital, os ideólogos da pequena burguesia tendem sempre a considerar os perigos da reacção burguesa como imaginários, descobrem sempre novas razões para “ter esperança”, opõem-se a tudo o que restrinja o campo de acção da burguesia.

Era o que se passava com Bukarine e por isso a resistência pequeno-burguesa se polarizava à sua volta. Em pouco tempo, os kulaks e comerciantes, os funcionários que deles dependiam, os quadros técnicos não-bolcheviques, os burocratas do aparelho sindical, aperceberam-se do alcance da polémica que opunha Bukarine a Staline e tomaram partido pelo primeiro.

Bukarine tornou-se contra sua vontade o porta-voz da pequena burguesia. O seu desabafo com Kamenev em 1928 é eloquente: “Se nós dizemos – este homem conduz o país à fome e à ruína, ele responde – vocês defendem os kulaks e os nepmen”.

O mesmo aconteceu quando a luta de tendências que se travava no Partido Bolchevique se alargou à Internacional Comunista. As teses de Bukarine sobre a estabilização estrutural do capitalismo, de colaboração com a social-democracia e com as burguesias nacionalistas, tinham levado aos lugares cimeiros da organização e dos partidos comunistas os elementos mais propensos ao reformismo.

E à medida que se definiam os contornos do novo período, marcado pela grande crise, pelo ascenso do fascismo, pelo papel reaccionário da social-democracia, pela traição da burguesia chinesa, pela preparação acelerada de nova guerra mundial imperialista, revelava-se o carácter direitista dos bukarinistas da IC. Brandler, Talheimer, Ewert, Lovestone, Togliatti, Droz, Tasca, não tinham outra resposta para a nova situação a não ser alargar a política da “concessão permanente”, para tentar a todo o preço ganhar alianças do lado da pequena burguesia.

Por isso, se a viragem imposta por Staline na IC a partir de Julho de 1929 devesse ser responsabilizada pelos desastres posteriores, como pretende o actual anti-stalinismo de direita, cabe perguntar quais teriam sido as consequências para o movimento operário internacional se tivessem levado a melhor os partidários de Bukarine.

Staline não errava quando afirmou, no decurso da polémica: “Se o desvio de direita triunfasse no nosso partido, nada deteria as forças do capitalismo; as posições revolucionárias do proletariado seriam minadas e o capitalismo poderia voltar a instaurar-se no nosso país”.

9

E contudo, Bukarine também tinha a sua parte de razão. A história demonstrou-o. Quando insistia que o perigo de degeneração do socialismo não vinha apenas do lado da pequena burguesia e entrevia no horizonte a ameaça de uma burocracia todo-poderosa que poderia afogar a ditadura do proletariado, ele antecipava o que veio a suceder sob Staline.

Num ponto a sua lógica era inatacável: o salto prodigioso para o socialismo que entusiasmava os stalinistas, não estando reunidas as condições económico-sociais necessárias, só poderia ter como resultado a elevação da casta de administradores a uma nova classe dirigente, reinando despoticamente sobre toda a sociedade. A revolução soviética evitaria o derrubamento contra revolucionário mas conheceria uma degenerescência trágica, desembocando num Estado policial sem precedente histórico.

Também não o convencia a ideia de que, mediante o preço da centralização absoluta de poderes, se poderia assegurar uma verdadeira explosão das forças produtivas e encontrar de algum modo o caminho para o socialismo: o “supermonopólio de Estado” acabaria por arrastar, mais cedo ou mais tarde, a “decadência inerente a este tipo de estrutura”.

Foi o que na realidade aconteceu. Depois de ter criado uma economia “socialista” moderna à custa de uma tremenda repressão na qual foi aniquilada a pequena burguesia mas também o poder da classe operária, a URSS é hoje forçada a regressar à encruzilhada de 1928 e a procurar no renascimento do mercado o dinamismo de que carece a sua economia estatizada. A meio século de distância, Bukarine vinga-se de Staline. Os nepmen ressurgem na Rússia.

Quem tinha razão, finalmente? Hoje, instruídos pelo desastre histórico da URSS, não nos é difícil concluir que nenhum dos dois caminhos antagónicos, o de Bukarine e o de Staline, podia conduzir ao socialismo, pela simples razão de que na URSS de 1927, privada do apoio da revolução internacional a que se adiantara brilhantemente, já não havia caminho para o socialismo. O retorno à via da acumulação capitalista, pela contra-revolução burguesa, ou pela degenerescência do capitalismo de Estado, tornara-se inevitável.

Por isso mesmo, seria absurdo para os comunistas do tempo presente declarar-se herdeiros de Bukarine ou de Staline (Trotsky, que conserva os seus fiéis, representou uma variante particularmente incoerente entre as duas linhas extremas). No que respeita à experiência russa, a tarefa actual dos comunistas é compreender plenamente as causas da perda da revolução. E isso passa pela denúncia da campanha pseudomarxista em curso de recuperação do bukarinismo e da via da NEP, como pretensa alternativa “leninista” ao stalinismo.

Política Operária nº 15, Maio-Junho 1988

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