A nossa política não pode ser a da pequena-burguesia

Francisco Martins Rodrigues

Cento e quarenta anos depois de um punhado de revolucionários europeus, inspirados no Manifesto do Partido Comunista, terem criado a AIT, com o objectivo de libertar o proletariado da servidão do capitalismo, os tentáculos do capitalismo estenderam-se a todos os recantos do mundo e tornaram-se incomparavelmente mais sufocantes, à custa de uma exploração desenfreada, de matanças mundiais e guerras de conquista como a que está a decorrer no Médio Oriente.

A burguesia percorre o único caminho que tem à sua frente – a corrida cega à acumulação e concentração do capital. Ao fazê-lo, multiplica a capacidade produtiva da sociedade ao mesmo tempo que reduz as massas à miséria. As invenções e progressos do capitalismo tornaram a abundância possível para toda a humanidade – mas o resultado prático foi tornar um milhão de magnates mais ricos que 3.000 milhões de desgraçados. E, como se isso não bastasse, a rivalidade entre os centros do capital, para ver quem domina o planeta, desencadeiam guerras ferozes e devastadoras. O sistema capitalista mergulha sob os nossos olhos no estertor de uma agonia catastrófica.

Parece que já seria tempo de vermos ascender um modelo de uma nova sociedade, livre das taras do capitalismo. Mas os continuadores dos comunistas de 1864 continuam metidos nos subterrâneos, ignorados pelas massas, a tentar a cavar os caboucos do edifício.

Hoje o proletariado vê atrás de si um historial de lutas gloriosas mas também de amargas derrotas. Por razões diferentes, a AIT, depois a II Internacional, mais tarde a Internacional Comunista, naufragaram, deixando atrás de si o cepticismo quanto à capacidade de o proletariado intervir unificado à escala do mundo, segundo um programa político autónomo. Desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, à grande revolução dos sovietes, abortada num regime despótico, à revolução chinesa, tumultuosamente convertida aos valores do capitalismo – a busca da sociedade comunista, livre, igualitária, é hoje geralmente olhada como uma miragem.

Instalou-se no campo anticapitalista uma profunda descrença quanto à capacidade de o proletariado se afirmar na sociedade como “classe para si”, no célebre dizer de Marx. Não admira por isso que a corrente que se afirma nos dias de hoje contra a barbárie do capital seja a dos fóruns sociais mundiais e da “altermundialização”, onde o proletariado desempenha um papel mais que modesto ao lado das outras classes – tanto em activistas como na ideologia.

Isto parece ser tanto mais indiscutível quanto o proletariado, incomparavelmente mais numeroso hoje do que há 140 anos, mas batido pela marcha da concentração capitalista, é hoje fragmentado, precarizado, diminuído face ao saber técnico moderno, passado à reserva – dir-se-ia que a lição que a burguesia tirou das lutas do século XX foi dissolver o proletariado. Isto enquanto ascendem nas metrópoles do capital as classes médias, cuja ideologia invade toda a sociedade.

De derrota em derrota, chegámos a um ponto em que os comunistas são olhados como uma raça em extinção e as massas não lhes dão ouvidos.

Hoje, essa independência política do proletariado ainda é mais difícil de conseguir. A situação tem estado a evoluir aceleradamente com as globalizações, com a pulverização da própria classe operária, a fragmentação, os precários, todos os fenómenos novos que a gente está a ver, e a identidade do proletariado como classe parece uma coisa cada vez mais difícil de palpar. No meu tempo, quando eu era jovem, ainda era possível perfeitamente encontrar núcleos de operários que sabiam a classe a que pertenciam, embora lhes pudesse faltar uma perspectiva política revolucionária. Mas hoje as pessoas sºao eleitores, são membros da população, são cidadãos, e essa consciência, essa identidade de classe está-se a esfumar cada vez mais.

Eu sei que a insistência nesta ideia, que me parece a única de acordo com o marxismo, a ideia da necessidade de independência política do proletariado, não parece realista à massa dos militantes. Mas é a única que faz sentido: se este sistema não vai evoluir, nem vai desaparecer por si, nem vai entregar o poder, a única perspectiva que existe é do seu derrubamento pela força. E não vale a pena dizermos que “a esmagadora maioria da população é contra o capitalismo, logo a coisa pode-se fazer pacificamente”… Isto funciona por camadas. Tem que haver um núcleo, um sector de classe, cujos interesses próprios de classe lhe permitam ver que para além deste regime podemos organizar um regime socialista, podemos expropriar a burguesia para criar o nosso sistema. Depois há outros sectores que estão descontentes, que vão aderir, mas que não podem assumir essa visão de classe. Se não têm essa visão de classe, tem-se que fazer distinções. Tem que haver forças revolucionárias e aliados de primeira ordem, e aliados de segunda ordem, e forças a neutralizar, e forças a hostilizar e por aí fora.

Essa separação, essa gradação das várias camadas, eu vejo que hoje na esquerda repugna a toda a gente. Considera-se que isso divide, isso cria espírito de seita, isso não dá frutos políticos, etc. Então, ofereçam-me uma alternativa do ponto de vista marxista, com um mínimo de racionalidade de vermos a saída disto. Como é? Não vês, só vês respostas que são uma versão actualizada das mesmas asneiras antigas. São versões pequeno-burguesas de tentar uma saída sem violência através duma moderação dos objectivos, dum apagamento dos conflitos mais agudos. É o espírito da pequena burguesia que penetra naturalmente em todas as camadas, no próprio proletariado. Quando se está perante um inimigo tão poderoso é inevitável que se gere na grande massa uma tendência para procurar saídas não muito dolorosas: “Os gajos não olham os meios, usam bombas atómicas, gases, guerras, massacram as pessoas de qualquer maneira, que é que se há de fazer? Vamos ver se levamos isto devagarinho, com jeito.” Mas essa ideia é uma ideia errada, equivocada, não conduz a nada. Eu sinto que hoje a continuidade da defesa destas opiniões, como o artigo que escrevi na última PO sobre o problema do proletariado, deixa mesmo na nossa área muitos camaradas um pouco reticentes. Não estão directamente contra, mas não lhes cheira: “Isto não dá, isto dá isolamento. Onde é que arranjamos forças a falar desta forma? Quem é que adere?” . Por causa deste espírito é que a PO anda há vinte anos a remar sozinha.

Eu sei, temos que procurar uma solução para avançar na prática. Mas eu, depois de ver tanta burla feita aos trabalhadores em nome do marxismo, tenho uma grande preocupação em não embarcar de novo nas coisas em que embarquei na juventude, que era seguir cegamente um partido que é comunista, que segue a União Soviética, que é socialista, logo está porreiro. Acho que isso é desastroso. Temos que procurar raciocinar como marxistas, procurar respostas que façam sentido. Resposta que faz sentido é esta: o proletariado é a única força que pode intervir numa perspectiva para além do capitalismo. Para o proletariado assumir isto, tem que ter a sua identidade própria. Para ter a sua identidade própria tem que se demarcar dos outros, e dos mais próximos é que é preciso se demarcar, como dizia o Lenine, que são aqueles com os que a gente se confunde. A gente não se confunde com os banqueiros, a gente confunde-se com a pequena burguesia que está ao nosso lado. Temos que fazer essa demarcação. A nossa política não pode ser a deles. Tem que ser diferente, mesmo que eles não gostem.

Encontrei num dicionário recente “terrorista” como sinónimo de “pessimista”. Ponham-se a pau.

(Texto com data de 15/10/2004 encontrado por Ana Barradas em disquete com o título “intervenção AIT Porto”. Há um grupo anarco-sindicalista na zona do Grande Porto filiado na Associação Internacional de Trabalhadores que naquele ano convidou FMR para um debate.)

 

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