A “ameaça coreana”

Francisco Martins Rodrigues

Meio século depois de ter causado a morte de 3 milhões e meio de coreanos, Washington prepara nova agressão a este país mártir. A bem dos “direitos humanos.”

Com a nomeação de Victor Cha, falcão bem conhecido, para chefiar a secção da Ásia do Conselho Nacional de Segurança, George Bush pretende acelerar a criação de uma “coligação punitiva” em torno da Coreia do Norte, classificada por Condoleezza Rice ainda há semanas como “posto avançado da tirania”. Os pretextos são os usuais: a ameaça nuclear que o regime representaria e a sua “violação dos direitos humanos”.

E o facto é que os meios anti-imperialistas do Ocidente, receosos de ser acusados de amigos de um regime de partido único onde se pratica o culto do “grande líder”, quase não falam da Coreia do Norte. Porém, se há povos a necessitar da solidariedade internacional, este é um deles; vítimas do holocausto de 1950-53, os coreanos não cedem às provocações e ameaças dos EUA.

Banhos de napalm

Em 1950, depois de uma sucessão de provocações fronteiriças levadas a cabo pela ditadura instalada por Washington na metade sul da península, Coreia do Norte e Coreia do Sul entraram em guerra. Estava-se em plena “guerra fria” e o Pentágono pretendia “testar” a capacidade de reacção da nova China Popular e da União Soviética. Mas a resposta da Coreia do Norte aos ataques iniciais foi de tal modo arrasadora que, poucos dias depois, Seul, capital da Coreia do Sul, estava prestes a cair. À pressa, os EUA arrancaram ao Conselho de Segurança da ONU uma resolução de emergência e passada uma semana assumiam o comando de um exército expedicionário.

No início de Agosto, contudo, com milhares de guerrilheiros assediando as tropas norte-americanas acantonadas no perímetro de Pusan, no extremo sul da península, o estado-maior decidiu passar aos “grandes meios”. A aviação recebeu ordens para “eliminar” três cidades da região, cujos habitantes pereceram num oceano de fogo. Este foi só começo. No fim de Agosto, os B-29 estavam a lançar sobre o território da Coreia do Norte 800 toneladas de bombas por dia. Ao todo, de Junho a Outubro, foram despejados 3,2 milhões de litros de napalm sobre zonas residenciais, densamente povoadas. Em resposta às denúncias de genocídio feitas pelas autoridades da Coreia do Norte, os responsáveis do Pentágono asseguravam tranquilamente que se tratava de “bombardeamentos de precisão”…

Em Outubro, como a ofensiva norte-americana se aproximasse da fronteira da China, as tropas chinesas acorreram em apoio da Coreia do Norte. O general MacArthur ordenou então que a aviação destruísse todos os “equipamentos, fábricas, cidades e aldeias” no território situado entre a frente de combate e a fronteira chinesa. Em Novembro, as cidades de Sinuiju e Hoeryong foram riscadas do mapa sob centenas de toneladas de bombas incendiárias. No fim desse mês, os relatórios do Q-G de MacArthur registavam que “uma grande parte da região do Noroeste, entre o rio Yalu [a fronteira] e as linhas inimigas ficou a bem dizer em fogo”. A zona tornou-se “uma extensão desértica de terra queimada”.

A ofensiva sino-coreana ia contudo empurrando as tropas americanas de novo para sul, pelo que MacArthur ordenou nova escalada nos bombardeamentos. Em dois grandes bombardeamentos em Dezembro e Janeiro, a capital da Coreia do Norte, Pyongyang, foi transformada num braseiro, morrendo grande parte dos seus habitantes sob os desmoronamentos e nos incêndios.

Coreia do Norte: um plano “simples”

Desde o começo da guerra, MacArthur vinha pedindo ao estado-maior que lhe fornecesse bombas atómicas. Como escreveu nas suas memórias póstumas: “Teria lançado umas trinta bombas atómicas” … “disseminando na nossa retaguarda uma cintura de cobalto radioactivo. Durante 60 anos, pelo menos, não poderia haver uma invasão terrestre da Coreia pelo Norte”. “O meu plano era muitíssimo simples”.

Cinco anos após Hiroxima, era porém cedo de mais e a autorização não foi concedida. MacArthur acabou por ser afastado devido à sua insubordinação permanente, mas a hipótese de lançar bombas atómica manteve-se como um cenário possível se as forças terrestres não conseguissem aguentar a pressão das tropas sino-coreanas. Em Maio de 1951 o general Ridgway, que sucedeu a MacArthur, voltava a pedir que lhe fornecessem 38 bombas atómicas. Na falta destas, fez mortíferos ensaios de guerra bacteriológica na região fronteiriça, disseminando epidemias na população. Denunciado na época pela China e pela Coreia do Norte, negado por Washington como “delirante propaganda comunista”, este crime só agora foi publicamente reconhecido pela abertura dos arquivos.

No fim da guerra, o centro e norte da Coreia estavam arrasados. Dezoito das 22 maiores cidades da Coreia do Norte tinham sido destruídas, milhares de aldeias aniquiladas. Em muitos locais, os sobreviventes viviam em grutas. O número total de mortos civis foi calculado em três milhões e meio.

Política Operária nº 100

Livros disponíveis de Francisco Martins Rodrigues

  • Anti-Dimitrov (2009, 2ª ed., 328 págs. – 21 €)
  • Os Anos do Silêncio (2008, 120 págs. – 11 €)
  • História de uma Vida (2008, 320 págs. – 13,65)
  • Abril Traído (1999, 120 págs. – 8,40 €)
  • A Conspiração dos Iguais de Ilya Ehrenburg (186 pp.), tradução de FMR (2004, 190 págs. – 12 €)
    • Envios à cobrança
    • Pedidos a elaporelaeditora@gmail.com

 

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