Movimento operário portugués: a longa recomposiçom


Francisco Martins Rodrigues

O movimento operário português atravessa desde há um quarto de século uma situaçom difícil. Sujeito desde 1976 a umha severa ofensiva burguesa reaccionária que o privou de quase todos os direitos conquistados após o 25 de Abril, enfrentou nos últimos dez anos, devido ao processo de integraçom europeia, o prático desmantelamento dos poucos centros industriais que serviam de motor da resistência operária e popular ao capital (metalurgia, química, estaleiros navais), a privatizaçom das empresas públicas e a dispersom.

Com a cobertura dos sucessivos governos “socialistas” ou “social-democratas”, e sob a batuta do imperialismo ianque e europeu, o salário real volta a níveis semelhantes aos do tempo do fascismo. Hoje, na maioria das fábricas, o assalariado está sujeito à vontade sem resposta do patrom ou do chefe, que lhe pode alongar a jornada de trabalho, impor maiores ritmos de produçom, cortar regalias, atrasar o pagamento do salário, suspender o contrato…

Vinte anos de ofensiva patronal ininterrupta dérom um pesado golpe no activismo operário. Os jovens, em regime precário, receiam “dar nas vistas” com atitudes reivindicativas, o que significa nom ver renovados os seus contratos a prazo. Grande parte da velha geraçom, que tivo um grande papel nas conquistas do período revolucionário, ao verem a situaçom degradar-se, caírom no cansaço e no desencanto e aceitam reformas antecipadas com indemnizaçom para ir para casa. Os novos contingentes de imigrantes africanos e do Leste europeu debatem-se com a ameaça permanente da expulsom. Som as mulheres que por vezes se destacam em acçons mais combativas nas fábricas têxteis, do calçado, etc.

Os sindicatos, deparando com umha cada vez maior dificuldade em intervir nos locais de trabalho e mobilizar os trabalhadores, fôrom-se fechando na burocratizaçom. A CGTP, com tradiçons de resistência, foi-se aproximando da UGT amarela, com a bençom da CES, a confederaçom europeia. Patronato e sindicatos, sob a “arbitragem” do governo, negoceiam entre si os acordos, que depois aparecem já cozinhados aos olhos da massa operária. Os delegados sindicais na prática funcionam como moços de recados da direcçom para a base. As comissons de trabalhadores, criaçom do 25 de Abril, ou desaparecêrom sob a pressom do patronato, ou caírom no imobilismo.

No terreno directamente político, também a situaçom da esquerda é de crise. O Partido Comunista, tradicional organizador da resistência ao fascismo, vê decair inexoravelmente a sua influência devido ao fracasso do seu programa de colaboraçom de classes (a “democracia avançada no século XXI”) e ao desmoronamento da “pátria do socialismo”, mas continua a exercer uma acçom perniciosa contra a radicalizaçom das luitas. É o clássico “partido burguês para operários” de que falava Lenine. Quanto à prática totalidade dos grupos e activistas que tinham surgido à sua esquerda nos anos 60-70, iniciando a renovaçom do movimento comunista, ou desaparecêrom ou convertêrom-se à “democracia de mercado”. O duro despertar das ilusons de 1975 num avanço fácil para o socialismo, junto com a desorientaçom perante a queda do “campo socialista”, semeárom o pessimismo e a descrença na revoluçom. O marxismo-leninismo, que chegou a ser umha moda entre a juventude dos anos 60-70, está desacreditado. O novo Bloco de Esquerda, constituído há dous anos mediante um contrato entre dous pequenos partidos –UDP, maoísta, e PSR, trotskista– define-se como umha oposiçom de tipo parlamentar, com um estilo de intervençom e palavras de ordem mais dirigidas para os sectores médios do que para a massa proletária.

É difícil prever por enquanto qual o desenlace de toda esta difícil recomposiçom do proletariado e das correntes políticas da esquerda em Portugal. A ofensiva de grande envergadura que está a ser lançada polo governo socialista, a pretexto de sanear a situaçom económica, começa a suscitar reacçons de luita mais combativas, por enquanto limitadas. Parece fora de dúvida que o proletariado português, integrado doravante no império europeu, condenado a permanecer como um dos destacamentos mais pobres do proletariado europeu, vai ser empurrado para novas luitas de envergadura contra o capital e a romper o desgraçado isolamento nacional em que tem sido mantido. E aí, as liçons do período revolucionário, tam longamente enterradas, ressurgirám porque o movimento operário tem a sua memória própria.

Abrente nº 21, de Julho-Agosto-Setembro de 200

 

Livros disponíveis de Francisco Martins Rodrigues

Anti-Dimitrov (2009, 2ª ed., 328 págs. – 21 €)

Os Anos do Silêncio (2008, 120 págs. – 11 €)

História de uma Vida (2008, 320 págs. – 13,65)

Abril Traído (1999, 120 págs. – 8,40 €)

A Conspiração dos Iguais de Ilya Ehrenburg (186 pp.), tradução de FMR

(2004, 190 págs. – 12 €)

Envios à cobrança

Pedidos a elaporelaeditora@gmail.com

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