Tarrafal (História do PCP 10)

Francisco Martins Rodrigues

O POVO NÃO ESQUECE OS SEUS MÁRTIRES

TARRAFAL: FASCISMO NUNCA MAIS!

Numa impressionante manifestação, as urnas dos 32 mortos do Tarrafal, Campo da Morte Lenta, chegados a Portugal no dia 15, foram transportados para o cemitério do Alto de S. João, no dia 18. O monumento que encerrará aquelas urnas fica a testemunhar a existência do fascismo, ditadura terrorista do grande capital e dos latifundiários durante 48 anos, o seu carácter assassino, a sua bestialidade contra os combatentes da liberdade.

A memória do Tarrafal tem de servir hoje para uma luta mais denodada para que o fascismo não mais seja possível. Em particular contra o governo de direita, no qual têm lugar os descendentes dos fascistas que inauguraram o campo, é parte integrante da mesma luta que animou os 340 presos que passaram pelo Tarrafal, onde cumpriram mil anos de prisão. Mas o que foi o Tarrafal, ou melhor o Campo da Morte Lenta, como os presos o baptizaram?

O CAMPO DA MORTE LENTA

O Tarrafal, situado na ilha de Santiago, em Cabo Verde, eram três hectares cercados por arame farpado. Um fosso de 4 metros de fundura e uma barreira alta de 3 metros rodeavam-no. Quando chegou a primeira leva de 157 operários e marinheiros, em 29 de Outubro de 1936, era uma área deserta, pedregosa e muitíssimo tortuosa. O lugar era húmido, abundavam os insectos e as águas apodreciam.

Coube aos primeiros presos, debaixo dum sol tropical escaldante, aplanar o terreno, abrir arruamentos, pavimentá-los e construir uma larga avenida de ligação entre os chefes do campo e o campo de concentração. Durante vários meses, os deportados dormiram sobre o chão húmido e frio, tendo como telhado protector barracas de lona que esvoaçavam com o vento e gotejavam água nos dias de chuva.

Depois as tendas de lona foram substituídas por barracões, num total de nove, sendo sete de alvenaria e dois de madeira. Em três foram alojados os presos, um passou a ser a padaria, outro a cozinha, outro a cantina, outro a enfermaria, outro a oficina, onde se construíram os caixões para levar os mortos ao cemitério do Tarrafal.

Quem lá entrava, como se exprimiria depois o facínora Manuel dos Reis, primeiro director do Campo e que ficaria conhecido como o Manuel dos Arames, por razões que à frente descreveremos, “perdia todos os seus direitos, apenas tinha deveres a cumprir”. Ou ainda, como diria o “médico” Esmeraldo Pratas, que “estava ali para passar certidões de óbito e não receitas”.

A FRIGIDEIRA

Logo no início o fascista Manuel dos Reis inventou o “círculo de arame farpado”. Consistia este num espaço de terra com cerca de 3 metros de diâmetro, vastamente cercado de arame com a altura de dois metros. Era utilizado para manter de castigo, à vista dos restantes presos, os que de qualquer forma desagradavam à pide ou ao Manuel dos Arames.

Deitados sobre a terra ao ar Iivre, sujeitos ao sol escaldante do verão africano, de dia e noite sujeitos aos caprichos da mortífera cacimba, forçados a fazer as necessidades na terra sobre a qual dormiriam, sujeitos a este tratamento. rapidamente os presos atingiam 39 a 40 graus de febre e raramente conseguiam sair de lá pelos seus próprios pés. Destruído num acto de coragem pelo chefe dos guardas negros que ali prestava prestava serviço, capitão Pompílio, logo o “círculo de arame farpado” foi substituído por outra invenção tenebrosa: a frigideira.

A frigideira era um edifício com sete metros de comprimento, por três e meio de largo, de cimento, dividido em dois pequenos compartimentos por uma parede interior. A luz e o ar entravam através de três buraquinhos na pesada porta de ferro e por um pequeno rectângulo aberto junto ao tecto. Durante o dia, o sol quente dos trópicos aquecia as portas e as paredes daquele túmulo. O calor tornava-se insuportável. Os presos despiam-se, mas o calor não deixava de torturá-los. A água para beber (vinha numa lata que antes servira para petróleo) era quase sempre em pequena quantidade. À tortura da sede juntava-se a tortura da fome. Em dias alternados, o alimento era pão e água. Nos outros dias, sopa, que previamente era coada para lhe retirar a massa ou legumes que contivesse e que era comida sem colher. Ninguém se podia lavar porque não havia nem água, nem sabão, nem toalha. A lata onde se evacuava estava destapada e o cheiro era uma tortura que se juntava às outras. Quando eram muitos os encerrados, iam de rastos até à porta e respiravam através de buraquinhos o ar que vinha do campo. Os castigos iam de 5 a quarenta ou cinquenta dias. Gabriel Pedro, aquele que mais tempo passou na frigideira, tentou cortar os pulsos com os dentes para escapar àquele suplício.

A “BRIGADA BRAVA” E O TRABALHO FORÇADO

À frigideira, acrescentava-se a prática do trabalho forçado, que se iniciava às 6 horas da manhã, para terminar às 17 horas. Dentro do trabalho forçado, destacava-se particularmente a “brigada brava”, criada pelo nazi João da Silva, segundo director do campo. A brigada brava era a designação para os trabalhos mais pesados, fundamentalmente a extracção de pedra, à força de pancadas vibradas por braços combalidos, com marretas de catorze quilos.

Entre os agentes da Pide que no campo de concentração do Tarrafal se destacavam pelo sadismo, estava Seixas, que já anteriormente se distinguira na sede da Pide do Porto, um dos muitos antros do fascismo. Mas muitos outros se destacavam nessa tarefa: Teixeira, Travessa, Cardoso, Gaspar, Almeida, Gorila, Mateus, José Maria, Adelino, Rui e outros. Lista a que é necessário acrescentar o “médico” Esmeraldo Pratas, verdadeiramente mais um carniceiro do que um médico. E ainda os diversos directores do campo de concentração: Manuel dos Reis, João Silva, capitão Olegário Antunes, louco e gazeado, Filipe Nascimento Barros, o Abóbora, assim conhecido por dar frequentemente abóbora aos presos que cultivava em terrenos próximos do campo, e à custa do que amealhou considerável fortuna. A comida dos deportados era miserável. Feijão podre e mal cozido, arroz cheio de bichos, abóbora, carne de vacas tuberculosas e porcos atacados de triquinose, foi frequentemente a principal alimentação dos deportados do Tarrafal.

Não espanta assim que nele tivessem morrido 32 presos, que muitos outros saíssem de lá para encontrar a morte breve e que quase todos tivessem sido marcados por doenças lá contraídas.

A VITÓRIA DO POVO E DA LIBERDADE

Apesar da selvajaria da repressão e das condições inumanas do campo de concentração do Tarrafal, a grande maioria dos presos manteve um elevado nível de luta. Quando João da Silva os procurou dividir, prometendo liberdade a quem se vendesse ao fascismo, foram poucos os que aceitaram as suas ofertas. E outros não deixaram de continuar a tentar a fuga, apesar das difíceis condições existentes.

Foi no Tarrafal que, utilizando o papel dos sacos de cimento e tendo como tinta o viochene retirado às escondidas da carpintaria, Bento Gonçalves escreveu Duas Palavras, onde fez a análise da vida do Partido nos últimos anos.

A firmeza dos deportados, e nomeadamente dos comunistas, foi uma vitória das forças da liberdade e da revolução sobre o fascismo. Não se vergando, pagando com a própria vida a sua irredutível oposição ao fascismo, eles derrotaram de facto o fascismo. Entre os mortos contam-se os nomes de Bento Gonçalves, secretário-geral do Partido Comunista Português, Alfredo Caldeira, do CC do PCP, Mário Castelhano, secretário-geral da CGT, Arnaldo Simões Januário, anarquista e um dos organizadores do 18 de Janeiro de 1934. Eles são heróis do povo português, combatentes da liberdade. Pelo Tarrafal passaram muitos outros, entre os quais salientamos Militão Ribeiro, que lá arruinou a sua saúde.

Criado em 23 de Abril de 1936, pelo decreto 26 539, o Tarrafal foi a tentativa de o fascismo silenciar a revolta popular eloquentemente expressa no 18 de Janeiro de 1934, e na Revolta dos Marinheiros de 1936. Não conseguindo calar esta revolta, que teve como principal força dirigente o Partido Comunista Português, e pela pressão internacional, o fascismo foi obrigado a encerrar o campo em Janeiro de 1954. Mas voltaria a reabri-lo em 1961, agora para receber os revolucionários africanos, que nos seus países lutavam contra o colonialismo e pela independência das suas pátrias. Será só com o fim do fascismo que o Tarrafal desaparecerá.

Que a sua memória nos anime na luta para que o fascismo nunca mais seja possível em Portugal.

Publicado no Bandeira Vermelha nº 110 de 22/2/1978

A HERANÇA DO TARRAFAL

A imponente manifestação que atravessou Lisboa no passado dia 18 revelou uma vez mais que se mantêm bem vivo no povo o sentimento antifascista. Mas ela foi também um alerta: não se pode consentir que a veneração dos mártires do Tarrafal seja rebaixada a uma atitude passiva e lamentosa, a um ópio, como fizeram os promotores revisionistas da homenagem. A memória do Tarrafal só será uma arma nas mãos do movimento popular desde que eleve nas massas a disposição activa de combater o fascismo, de barrar o caminho à restauração das forças da direita. Aos militantes do PCP(R) cabem especiais responsabilidades em saber assimilar as lições políticas do Tarrafal e levantar junto das massas essa bandeira de combate.

O Tarrafal foi a resposta brutal do regime de Salazar à greve insurreccional do 18 de Janeiro de 1934, à revolta dos marinheiros, à luta que se levantava contra a exploração sem freio do patronato e contra as leis fascistas.

Manifestação aguda da luta de classes, sem compromissos nem disfarces, o Tarrafal foi como um cadinho onde se forjou o aço da resistência revolucionária antifascista. Dezenas de mortos, entre os quais alguns dos melhores lutadores que até hoje produziu a nossa classe operária, centenas de vidas destroçadas, foi um preço pesado, mas que fez o movimento popular dar um passo em frente, que temperou politicamente a classe operária e levou à reconstrução em moldes leninistas do seu partido.

Com os seus horrores, o Tarrafal fez cair a máscara jesuítica de Salazar, cavou um fosso intransponível entre o campo popular e o campo salazarista, despertou milhares de novos combatentes para a luta antifascista. E o Tarrafal teve também o seu papel na reconstrução do Partido. O PCP dos anos da guerra mundial, o PCP indomável de Gregório, Militão e Alex, o PCP das grandes greves e manifestações, o PCP que produziu heróis da estatura de Ferreira Marquês, José Moreira, Germano Vidigal, Catarina, não teria sido possível sem a luta implacável que se travou no Tarrafal.

Ao mesmo tempo, o Tarrafal depurou o movimento operário e popular, libertou-o da direcção inconsequente do anarco-sindicalismo e do radicalismo pequeno-burguês. O anarco-sindicalismo, já agonizante, morreu no Tarrafal como corrente política. O seu pretenso revolucionarismo revelou-se frágil e quebradiço. Naufragou na desagregação ideológica e política, na deserção e na capitulação. A firmeza exemplar dum Mário Castelhano não chegou para resgatar o fracasso total da corrente anarco-sindicalista. E essa acção depuradora da luta travada no Tarrafal estendeu-se também às fileiras comunistas. Sob a pressão brutal do inimigo de classe, duas correntes oportunistas vieram ao de cima em pânico: a do grupo José de Sousa, em 1941, que se quis mascarar com frases ultra-revolucionárias mas logo descambou na mais vergonhosa capitulação; e a do grupo de Fogaça, Pedro Soares, Vilarigues, João Rodrigues, etc., que em 1943-44, com a sua “política de transição”, tentou oferecer à burguesia uma “saída doce” a troco da liquidação do Partido Comunista.

0 Tarrafal foi uma grande prova histórica que obrigou os anarco-sindicalistas, os radicais, os pseudocomunistas conciliadores e os “ultra-revolucionários” a mostrarem a sua verdadeira cor de classe, a desertarem do campo da revolução onde se tinham infiltrado. Só o Partido Comunista com a sua linha revolucionária marxista-leninista se afirmou como a única arma capaz de enfrentar e abater a fera fascista e conduzir a classe operária e o povo no caminho da revolução.

Foi essa grande lição política que o grupo dirigente cunhalista tentou fazer esquecer, quando há dias marchou por Lisboa atrás das urnas dos mártires do Tarrafal. Os cunhalistas, por baixo cálculo político, hipócrita e sem princípios, tentaram apropriar-se de algo que lhes é inteiramente estranho. Na verdade, o que pode haver de comum entre o antigo PCP revolucionário e clandestino dos anos 40, unha e carne com as massas dos pobres, o PCP que desfraldava a bandeira da revolução popular e de Staline, e o actual “PCP”, governado por uma equipa de profissionais da conciliação de classes, afundado no cretinismo parlamentar burguês? O que há de comum entre lutadores da fibra de Bento Gonçalves, Alfredo Caldeira, António Guerra, que caíram nas primeiras linhas do combate antifascista, e indivíduos da laia de Cunhal, Pato, Brito e Comp., politiqueiros que gritam nas praças para negociar nos gabinetes? O que tem de comum o actual Francisco Miguel, imbecilizado pelo revisionismo, fazendo versos às flores, com o velho Francisco Miguel, comunista e revolucionário? Entre uma coisa e outra não há pontos de contacto. Estão em extremos opostos.

No Tarrafal não se negociavam pastas ministeriais nem plataformas de governo. Resistia-se e tombava-se para defender a honra do Partido Comunista e do movimento antifascista. Essa herança pertence ao nosso PCP(R). Cabe a cada um dos membros do nosso Partido saber honrá-la na luta de cada dia ao lado da classe operária e do povo, contra a ofensiva burguesa-imperialista, pelo 25 de Abril do povo.

Publicado no Bandeira Vermelha nº 111 de 1/3/1978

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