Falando de internacionalismo

Francisco Martins Rodrigues

Tem-se dito com razão que a luta do proletariado português cada vez menos pode ser perspectivada no plano estritamente nacional. A única resposta à altura de derrocar a união imperialista europeia será a luta revolucionária unida do proletariado do continente. Importa salientar, contudo, que o caminho para essa união não exclui mas exige o apoio às reivindicações de autodeterminação plena dos povos que dela são privados. É o caso das nacionalidades ibéricas cujos direitos de separação o Estado espanhol sempre se recusou a reconhecer.

Já aqui o dissemos antes: a questão nacional em Espanha não é uma mera reminiscência do passado. Os comunistas de Portugal não podem manter-se de costas voltadas para as reivindicações nacionais de Euskadi, Catalunha e Galiza, como se não lhes dissessem respeito. Elas não são meras aspirações burguesas. O proletariado das diversas nações não pode unir-se na luta pelo socialismo, se houver nele fracções dominadas e oprimidas e fracções dominantes.

Já no passado o PCP (como tantos outros partidos comunistas europeus) cometeu o erro de passar para segundo plano a subjugação brutal a que eram submetidos os povos das colónias. Dizia aos povos das colónias que a melhor via para se libertarem era apoiar a luta do povo português, que, uma vez desembaraçado do fascismo, se encarregaria de os encaminhar para a independência. As coisas não aconteceram assim. Com essa posição, enfraqueceu-se a luta o proletariado português e tornou-se mais difícil o ascenso da luta libertadora dos povos coloniais.

A penetração em massa dos capitais espanhóis no nosso país está a ser acompanhada pelo estreitamento de relações entre os dois governos, pela coordenação das políticas, pela ajuda mútua, pela troca de informações. E nesta relação, os reaccionários portugueses têm muito que aprender junto dos “irmãos mais velhos” de Espanha, cuja experiência em matéria de utilização do Estado ao serviço do capital, de demagogia social e sobretudo de técnicas de repressão (vigilância, infiltração, tortura, etc.), é muito mais avançada do que a portuguesa. Alertar os trabalhadores para a política reaccionária do governo de Madrid, romper a cortina de silêncio sobre o que se passa em Espanha, combater o estreitamento de relações entre os dois governos, prestar solidariedade às diferentes secções do proletariado de Espanha e às reivindicações das nacionalidades dominadas em Espanha é essencial para travarmos as tendências fascizantes, cada vez mais afirmadas, do poder em Portugal.

A nossa posição nesta matéria, é preciso que se diga, não tem nada de comum com a de “comunistas” como Miguel Urbano Rodrigues, o qual, num artigo circulado na net, “Portugal, a América Latina e o saudosismo imperial da direita espanhola”, depois de condenar justamente o papel actual da Espanha como o Estado mais reaccionário da Europa, depois de denunciar a “progressiva colonização de Portugal pelo capital espanhol”, a qual traz consigo uma estratégia de absorção política, depois de chamar a Durão Barroso “primeiro-ministro vassalo” que pratica uma “política de submissão neocolonial” e de proclamar que “a resistência a esse projecto imperial anuncia-se como um dos maiores desafios que o povo de Portugal enfrenta neste início do século XXI” – lança-se em tiradas de um patriotismo que diz “humanista e fraterno” mas que descambam nos hinos a Aljubarrota e à “gesta dos Descobrimentos”. Isto é puro nacionalismo pequeno-burguês

Não confundimos as teses do iberismo, admitindo como inevitável e benéfico o desaparecimento de Portugal como estado plenamente soberano” com o internacionalismo. Só a revolução proletária e o derrube da burguesia permitem passar para além do nacionalismo, avançar para uma livre união de povos. Essa superação do nacionalismo não tem nada a ver com a absorção de uma nação por outra, em nome do “internacionalismo”.

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