Trotsky antes de 1917

Francisco Martins Rodrigues

Desenterrar a questão Trotsky quando tanta coisa nova espera ser analisada no campo do marxismo pode parecer gosto por divagações arqueológicas. Achamos que não é o caso. A derrocada estrepitosa, sob os nossos olhos, do chamado sistema socialista põe no centro da actualidade o debate sobre a contribuição do trotskismo à análise da degenerescência da revolução russa; para nós, originários duma corrente que usava em muitos aspectos o ataque ao trotskismo como alibi para a falsificação do leninismo, mais obrigatório se toma reabrir a discussão do tema. Neste primeiro artigo de uma série, procuramos situar a trajectória de Trotsky antes de 1917 e a génese da sua teoria da ‘revolução permanente’.

“Se está fora de dúvida que Staline foi o coveiro da revolução russa, talvez seja necessário fazer justiça a Trotsky, banido, caluniado, assassinado por Staline, precisamente porque representava os interesses essenciais da revolução, fossem quais fossem os seus erros”.

A tendência para a reabilitação política de Trotsky tem surgido por mais duma vez nas fileiras comunistas ao longo dos últimos dez anos, à medida que se ampliou a crítica ao stalinismo. Ela levou, quando da desintegração do KPD, partido marxista-leninista alemão, uma fracção deste a aderir temporariamente ao trotskismo. Manifesta-se nalgumas posições recentes do grupo comunista sueco NKF, através do seu boletim Rod Gryning. E é também expressa uma ou outra vez por leitores da nossa revista, como é o caso da carta que publicamos neste n.° de P.O., “Em defesa de Trotsky”.

Com este artigo iniciamos uma avaliação sobre Trotsky que nos tem sido proposta por vários leitores e que esperamos prosseguir em próximos números de P. O. Como é norma desta revista, não temos dogmas para vender mas apenas verdades provisórias que nos servem de degrau para alcançar outras mais sólidas.

O tema está aberto a debate, reservando-se a redacção, como é natural, o direito de decidir do interesse e oportunidade da publicação dos eventuais contributos que nos cheguem.

UM  ESTRANHO  ENTRE  OS BOLCHEVIQUES

 No período da doença e morte de Lenine, quando se efectua a concentração maciça de poderes nas mãos de Staline, Trotsky parece sofrer duma estranha irresolução que o leva a eclipsar-se ou a ter um pape! apagado nos momentos críticos e, inclusive, a votar favoravelmente resoluções da direcção do partido que logo a seguir contesta. Perde assim, como tem sido assinalado, o período decisivo da passagem da liderança do partido e quando o tenta disputar a Staline é tarde demais.

Atribuir esta vacilação a uma quebra psicológica, a uma doença mal explicada ou às maquinações de Staline é uma forma de apagar a sua origem política: apesar do imenso prestígio popular que ganhara pelo seu papel na insurreição e na guerra civil, Trotsky dispunha duma reduzida capacidade de intervenção nos assuntos partidários. E isto não se devia certamente a falta de atributos para organizar e manobrar mas à sua situação marginal dentro do partido bolchevique.

O episódio aparentemente folhetinesco das vacilações de Trotsky em 1922-25 pode ser uma boa introdução para compreendermos a sua trajectória posterior. Trotsky vacilava porque era um estranho no partido, e era um estranho por que só se integrara na corrente bolchevique em Agosto de 1917, depois de a ter combatido incansavelmente durante os anos de preparação da revolução e de edificação do partido.

Quando se toca nesta questão, os seguidores de Trotsky costumam protestar contra a ‘chicana’ de se enumerarem ainda e sempre os erros deste antes de 1917 quando ele teria sido o primeiro a reconhecê-los e a corrigi-los, merecendo por isso o apreço de Lenine. É necessário, mesmo assim, avaliar a natureza desses ‘erros’, visto que Trotsky tentou sistematicamente minimizá-los.

Não há nisto qualquer ‘chicana’. Se Trotsky se considerava ‘discípulo’ de Lenine e tinha já em 1904 uma perspectiva revolucionária “totalmente oposta à do menchevismo”; se, daí até 1917, os períodos de polémica acesa e de “fricções” entre ambos alternaram com períodos de “solidariedade”; se o erro de Trotsky foi apenas ter interpretado mal Lenine quanto à necessidade de um partido centralizado e ter-se iludido a certa altura com a esperança de unir todas as tendências num partido único do proletariado – isto dá-nos um retrato político de Trotsky.

Mas se a verdade é diferente e se Trotsky agiu todo o tempo contra a construção do partido que veio a dirigir a revolução e se tentou por todos os meios dissolvê-lo na corrente reformista, combatendo encarniçadamente Lenine – então isto dá-nos uma outra imagem de Trotsky.

Parece-nos que é perfeitamente possível e necessário estabelecer qual das versões corresponde à verdade. Não aderimos ao procedimento, hoje tornado corrente, de abandonar todos os critérios de avaliação a pretexto de evitar o simplismo, o reducionismo ou o… stalinismo!

E os factos podem ser escamoteados ou maquilhados sob montanhas de literatura mas não se prestam a muitas interpretações: entre 1903 e 1917 Trotsky lutou para impedir a definição da corrente bolchevique e, depois dela estar constituída em partido autónomo, lutou para a neutralizar.

15 ANOS DE ANTI-BOLCHEVISMO

A indignação genuína e a coragem desafiadora com que Trotsky fustiga, nas suas obras capitais, a campanha de falsificações a seu respeito montada por Staline, o humor cáustico com que denuncia a “margarina teórica” que servia de base à campanha anti-trotskista, a crítica certeira com que revela o centrismo dos seus acusadores, ganharam-lhe a adesão de não poucos militantes. Muitos descobriram nos seus escritos um quadro palpitante da revolução russa, de que a escola oficial soviética só sabia dar uma imagem convencional, cinzenta, morta.

Isto fez esquecer por mais duma vez que, ao criticar o centrismo de Staline, Trotsky atingia por ricochete o seu próprio centrismo passado; e, ao repelir as calúnias de que era vítima, deturpava frequentemente os factos em sentido inverso. Foi o que aconteceu muito em particular no que se refere ao período anterior a 1917.

Ele escreveu que, nessa época, “as minhas divergências com Lenine tinham um carácter secundário, a linha essencial era revolucionária e aproximava-me constantemente do bolchevismo“; a tentativa de desacreditar as suas ideias como ‘trotskismo’ só teria surgido depois do desaparecimento de Lenine (1); durante a primeira revolução tinha trabalhado “de mãos dadas com os bolcheviques”; tinha defendido essa acção comum contra “os renegados mencheviques“; “apesar de três tentativas episódicas, nunca consegui trabalhar com os mencheviques“; “tive em certos momentos tendência para formar um agrupamento” (!!); os ataques que Lenine lhe dirigira teriam sido “episódicos” e baseados por vezes em informação deficiente; “Lenine e eu representávamos dois matizes da tendência revolucionária“(2), etc., etc.

Será conveniente, portanto, recordar, para os que não os conhecem, os principais tópicos da trajectória real de Trotsky durante esses anos:

– em 1903, alinha com Martov contra Lenine, opondo-se à necessidade de definir claramente as fronteiras organizativas do partido, a sua disciplina e a sua centralização democrática; toma-se durante algum tempo um menchevique activo;

v- em 1904-1905, quando se trava o grande debate que vai opor bolcheviques a mencheviques – o proletariado deve aliar-se aos camponeses ou à burguesia liberal? – Trotsky distancia-se de ambas as tendências contrapondo-lhe a sua própria teoria da ‘revolução permanente’, a que nos referimos adiante;

– durante a revolução de 1905, Trotsky tende a aproximar-se das posições dos bolcheviques, embora continue ligado aos mencheviques; o soviete de Petersburgo, que dirige em colaboração com outros mencheviques, mantém uma posição hesitante enquanto o soviete de Moscovo, dirigido pelos bolcheviques, conduz a greve política e a insurreição armada;

– em 1906-1907, tentativa de unificação do partido após a derrota da revolução; Trotsky forma um pequeno grupo centrista que oscila entre bolcheviques e mencheviques;

– em 1909, Trotsky procura reconciliar as duas fracções cm luta no partido;

– em 1910, a situação muito difícil dos bolcheviques leva-os a colaborar no jornal ‘unificador’ de Trotsky, na emigração. Lenine põe termo a esta colaboração acusando Trotsky de se ter servido do papel de árbitro para favorecer os oportunistas;

– em 1911/1912, Trotsky passa a colaborar estreitamente com os liquidadores e ‘otzovistas’ contra os bolcheviques; quando estes se constituem finalmente como um partido independente, Trotsky toma-se o animador de um bloco anti-bolchevique dominado pela ala mais oportunista do menchevismo (os ‘liquidadores’);

– em 1913, Trotsky separa-se do jornal dos mencheviques continuando a fazer guerra à implantação operária crescente dos bolcheviques;

– em 1914, Trotsky funda uma revista na emigração, em que ataca sobretudo os bolcheviques;

– em 1915/16, Trotsky acompanha a formação da corrente internacionalista contra a guerra imperialista, mas tenta mais uma vez não cortar as pontes com os kautskistas, sendo por isso criticado por Lenine.

O mínimo que se pode dizer é que este percurso contraria a versão, mais tarde defendida por Trotsky, de que nada de essencial o separava de Lenine e que os insultos trocados entre ambos se explicavam pelo ardor da polémica…

Alega-se que o principal foi o acordo e estreita colaboração entre os dois durante e após a revolução de Outubro. Mas porquê tentar, ainda hoje, esbater que Lenine e Trotsky estiveram durante 15 anos em campos opostos? Não será decisivo conhecer as causas deste antagonismo para entender o que veio depois?

TROTSKY AO ENCONTRO DE LENINE?

Sentindo-se obrigado, durante os inícios da polémica com Staline, a apresentar-se como discípulo de Lenine e a admitir generosamente que este “na maior parte das vezes tivera razão”, Trotsky clarificou mais tarde o seu pensamento real quanto ao período de preparação da revolução.

Teria havido na realidade duas perspectivas parcelares que tinham caminhado uma ao encontro da outra e que se tinham completado mutuamente em 1917: Trotsky reconhecera que Lenine tinha razão quanto ao centralismo democrático e que fora conciliador por subestimar o oportunismo dos mencheviques; mas Lenine, pela sua parte, também reconhecera implicitamente, ao adoptar as Teses de Abril, que Trotsky estava certo quanto à teoria da ‘revolução permanente’.

Assim, se Trotsky, nas palavras de Lenine, se tornara depois de 1917 o melhor dos bolcheviques, poderia deduzir-se que também Lenine, pela sua parte, se tornara a partir daí o melhor dos trotskistas…

Há contudo nesta versão dos acontecimentos (posteriormente retomada e aperfeiçoada pelos trotskistas) uma série de incongruências em que não é demais insistir, se quisermos perceber algo da revolução russa e do próprio Trotsky.

A primeira diz respeito ao menchevismo.

Se Trotsky já em 1904 pressentia com mais clareza que Lenine, graças à sua teoria da ‘revolução permanente’, a necessidade de avançar para a ditadura do proletariado, como não o levou isso a compreender a necessidade dum partido centralizado de combate como único meio de desenlear o proletariado da pequena burguesia, e, em vez disso, o levou a combater a diferenciação da corrente revolucionária e a construção desse partido?

Se a revolução de 1905 pôs a claro que o oportunismo dos mencheviques era incurável por que se alimentava nas vacilações da pequena burguesia receosa da revolução, como foi possível que em 1907 Trotsky ainda “tivesse esperança numa evolução dos mencheviques para a esquerda” e em 1912 tentasse reunir em bloco contra os bolcheviques todos os agrupamentos oportunistas?

Pode acreditar-se que fosse por mero “erro de apreciação” que esse perspicaz líder político não notasse, ao longo de 15 anos (!) que “na realidade, dum lado, se agrupavam revolucionários inflexíveis e, do outro, elementos que deslizavam cada vez mais para o oportunismo e a conciliação“(4), e tentasse construir o partido para a sua revolução operária, mais avançada que a dos bolcheviques, precisamente com a corrente mais moderada e oportunista do marxismo russo?

Com estas perguntas não pretendemos apoucar Trotsky mas apenas chegar à conclusão que parece óbvia: entre 1903 e 1917, Trotsky não representou “um matiz na tendência revolucionária” nem se “aproximou constantemente do bolchevismo”; ele foi por vezes menchevique, por vezes um conciliador, mas em nenhum momento um bolchevique ou um simpatizante do bolchevismo.

TROTSKY À FRENTE DE LENINE

Trotsky teria contudo indicado o caminho da ditadura do proletariado com a sua teoria da ‘revolução permanente’, quando Lenine ainda estaria preso à velha noção das etapas que tinham que ser esgotadas antes de poder dar lugar a outras novas.

Deixamos para um próximo artigo a questão de saber se as Teses de Abri! e a táctica dos bolcheviques na revolução de Outubro foram uma aplicação das ideias de Trotsky, como este afirmou mais tarde, O que acontece neste momento na União Soviética dá grande actualidade ao assunto e não parece favorecer de modo nenhum Trotsky.

Para já, interessa-nos averiguar se, em 1905, a teoria da ‘revolução permanente’ colocou Trotsky a mostrar o caminho da ditadura do proletariado a Lenine ou apenas serviu de justificação para ele manter a sua postura vacilante em relação ao bolchevismo.

Expondo anos mais tarde em que consistia a sua ideia, escreveu Trotsky:

A revolução, que começará como uma revolução burguesa quanto às suas primeira tarefas, depressa levará as classes hostis a afrontarem-se e não poderá conseguir a vitória final se não transferir o poder para a única classe capaz de se colocar à cabeça das massas oprimidas, o proletariado. Uma vez no poder, este não só não quererá como não poderá limitar-se à execução dum programa democrático burguês; só poderá levar a revolução a bom termo se a revolução russa se transformar numa revolução do proletariado europeu”(5).

O mérito da teoria da revolução permanente estaria em que, muito tempo antes da ditadura do proletariado se tornar um facto consumado, ela permitira a Trotsky chegar à conclusão de que a revolução russa podia e devia. designar como tarefa a conquista do poder pela classe operária (6).

Se tomarmos tudo isto à letra, a polémica toma-se incompreensível. O que há aqui de novo? Acaso Lenine e os bolcheviques não defendiam a ideia marxista da passagem ininterrupta da revolução burguesa à revolução socialista?

A REVOLUÇÃO PERMANENTE SEGUNDO LENINE

Não é necessário fazer longas citações, pois as posições de Lenine a este respeito em 1905 são bem conhecidas. Recordemos:

Uma vez realizada a revolução democrática, abordaremos desde logo, e precisamente na medida das nossas forças, das forças do proletariado consciente e organizado, a via da revolução socialista. Somos partidários da revolução ininterrupta. Não nos deteremos a meio caminho” (7).

Quanto mais rápida e completa for a vitória da revolução democrática, mais depressa e mais profundamente se revelarão novos antagonismos, que serão causa duma nova luta de classe no terreno do regime burguês plenamente democratizado. Quanto mais longe levarmos a revolução democrática, mais perto nos encontraremos de abordar as tarefas da revolução socialista“(8).Etc., etc.

Trotsky, porém, não se dava por satisfeito. Considerava que a fórmula de Lenine, prevendo a instauração revolucionária de uma “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”, tinha o defeito de “deixar em suspenso” a questão chave – a qual destas duas classes pertenceria a ditadura real? (9) Poderia haver o risco de se formar uma coligação em que “o proletariado ficasse refém duma maioria pequeno-burguesa

Seria preferível falar em “ditadura do proletariado que se apoia no campesinato”.

Trotsky estaria portanto em 1905 um pouco mais avançado que Lenine: este preocupava-se com a necessidade de ganhar a aliança dos camponeses a qualquer preço; Trotsky via já mais além e procurava garantir a hegemonia do proletariado sobre os camponeses!

PERIGO CAMPONÊS OU PERIGO BURGUÊS?

 Mas a “fórmula de Lenine” não deixava nada em suspenso nem tendia de forma alguma a dividir a direcção da revolução entre operários e camponeses. Trotsky não tinha nenhuma razão para o supor. Lenine entrara em guerra com o menchevismo precisamente para assegurar ao proletariado “a direcção da revolução popular”. Na fórmula das Duas Tácticas (1905) que ficou célebre, Lenine definia assim a tarefa do proletariado:

O proletariado deve levar até ao fim a revolução democrática juntando a si a massa camponesa’ etc. (11) “Apoiamos o camponês em geral contra o proprietário; apoiamos em seguida (ou melhor, simultaneamente) o proletário contra o camponês em geral” (12). As citações poderiam multiplicar-se por dezenas, mas será mais elucidativo reler as Duas Tácticas.

O que estava em questão, sob as reservas de Trotsky, não era o esquecimento por Lenine da necessidade de preparar a passagem da etapa burguesa à etapa socialista da revolução, nem era a garantia insuficiente de hegemonia do proletariado. Era a resistência de Trotsky à materialização da aliança com o campesinato. Ele próprio o admitiu mais tarde em diversas ocasiões: “Eu acusava Lenine de exagerar o pape! independente do campesinato; Lenine, pela sua parte, acusava-me de subestimar o pape! revolucionário do campesinato“(13).

Em 1927, reconheceu que “o lado débil da teoria da revolução permanente consistia na determinação insuficientemente clara e concreta das etapas de evolução e especialmente do reagrupamento das classes quando da passagem da revolução burguesa à revolução socialista” (…) “a exposição de Lenine era muito mais correcta” (14).

Em 1929, contudo, passando de novo à ofensiva, escreveu que “a ditadura democrática do proletariado e do campesinato nunca existiu”, “foi uma hipótese estratégica de Lenine que nunca se verificou”, “tinha um carácter algébrico porque se baseava na incógnita relações políticas entre o proletariado e o campesinato” e por isso mesmo criou perigos de oportunismo na Rússia em Fevereiro de 1917 “e valeu-nos mais tarde uma catástrofe na China”.

GOVERNO OPERÁRIO

 Para lá das oscilações permanentes de Trotsky a respeito das suas próprias posições, o que ficou claro com o passar do tempo foi que a sua palavra de ordem de 1905, de luta por um “governo operário” (17), em substituição do “governo provisório republicano” que defendia Lenine, nas condições da Rússia de 1905, obstruía simplesmente qualquer hipótese de ganhar os camponeses para o lado dos operários, e por esse mesmo facto, impedia a vitória do proletariado e aumentava as possibilidades da revolução ser canalizada para a alternativa liberal.

Como fora Trotsky levado a esta invenção, que baptizava como uma nova teoria? Ele não podia aceitar a perspectiva menchevique que entregava a direcção da revolução à burguesia liberal. Mas também lhe repugnava a via dos bolcheviques, que apostavam a fundo na aliança dos operários com a sublevação camponesa e apareciam ao marxismo europeu da época como arautos duma espécie de jacobinismo, algo de retardatário, impróprio da etapa da revolução socialista.

Daí que encontrasse uma forma subtil de negar o papel revolucionário dos camponeses – o que equivalia a negar a própria revolução, tal como ela se apresentava na Rússia mas invocando razões avançadas, que superavam simultaneamente mencheviques e bolcheviques…

O que havia, porém, para além do debate fictício criado por Trotsky, era o debate real, colocado pela marcha da revolução, e que deixava à classe operária duas hipóteses, e só duas: marchar atrás da burguesia liberal para conseguir algumas reformas democráticas, ou lançar-se à insurreição, apoiada nos camponeses.

A teoria original de Trotsky não tinha lugar na vida. E, uma vez despida da fraseologia obscura que a adornava, exprimia o seu alinhamento evasivo nos embates de classe que estavam a ter lugar – através duma variante de aparência ultra-esquerdista, Trotsky procurava evadir-se da escolha forçosa que a marcha da revolução colocava: a caminho da insurreição apoiado na revolta camponesa, ou a caminho das conquistas democráticas e socialistas, na esteira dos liberais? E, quisesse-o ele ou não, a sua reserva quanto ao papel dos camponeses na revolução, parecendo afastá-lo pela esquerda, dos bolcheviques, aproximava-o de facto dos mencheviques, tornava-o uma reserva do menchevismo. Como se viu nos anos imediatos.

QUANDO A TEORIA CEGA

A teoria da ‘revolução permanente’ não só não deu clarividência marxista a Trotsky durante o período 1903-1917, como pelo contrário o impediu de identificar os bolcheviques como a força condutora da revolução e os mencheviques como o seu travão. Para muitos esta é uma questão secundária, relativa à “normal luta de fracções no movimento operário”. Para nós é principal, por que determinou o seu lugar real na luta de classes.

Perguntemos: se a tentativa de Trotsky para reunir num bloco único todas as tendências anti-bolcheviques em Agosto de 1912 tivesse tido êxito; se, em consequência disso, os bolcheviques tivessem fracassado na implantação na c!asse operária e tivessem chegado a 1917 reduzidos a um grupo sem expressão política – qual poderia ter sido o destino da revolução russa e o papel de Trotsky nela?

Assim, a questão que se tem que pôr é: Trotsky conseguiu formular a teoria da ‘revolução permanente’ apesar das suas incompreensões acerca do menchevismo, ou como resultado dessas incompreensões, a fim de dar um suporte teórico à sua órbita ziguezagueante nas fronteiras entre bolchevismo e menchevismo?

Debatendo-se com a escolha difícil que se abria aos militantes russos dessa época, Trotsky encontrou no mecanismo engenhoso da ‘revolução permanente’, o suporte teórico para justificar a sua incapacidade de se vincular organizativamente a uns ou a outros. O drama político de Trotsky neste período da sua actividade foi o do militante situado no campo de atracção de duas poderosas correntes de classe divergentes e que tentou dar coerência à sua oscilação permanente.

TROTSKY, O SEM-PARTIDO

 Vendo-se a si próprio como o teórico a quem faltava o terreno de experimentação dum partido, Trotsky não podia ir além duma lógica primitiva em matéria de organização (que na realidade sempre o caracterizou): era necessário que bolcheviques e mencheviques, cada um deles com as suas limitações, se dispusessem a colaborar. A tarefa de Trotsky era convencê-los a juntar-se. Adoptou assim o papel ingrato de “casamenteira”, como dizia Lenine com sarcasmo, e nesse papel consumiu grande parte dos seus esforços até 1917.

Isto era ignorar o abc do marxismo. O partido da revolução jamais poderia ser constituído pela adição da tendência revolucionária com a reformista, mas pela demarcação e pela luta entre ambas. Juntá-las, se tal tivesse sido possível, significaria afogar a tendência revolucionária no reformismo, matar a revolução.

Procurando a via mais fácil da unificação, Trotsky revelava sofrer afina! da doença que ele próprio caracterizou limpidamente referindo-se a outros: “O oportunismo procura invariavelmente apoiar-se sobre uma força já constituída“(18).

Neste insensato projecto de união de “todas as tendências marxistas”, Trotsky encontrou, como era natural, muito maior receptividade do lado dos mencheviques do que dos bolcheviques. E concluiu daí, em nova ruptura com a realidade, que os mencheviques, embora oportunistas, eram colaboradores possíveis, ao passo que os bolcheviques, “sectários” e “cisionistas” empedernidos, eram o major obstáculo à unificação.

Assim, pela lógica da sua ideologia e do seu percurso, Trotsky chegou à revolução de Fevereiro sem ter resolvido a questão-chave – qual era o seu partido? A sua adesão ao Partido Bolchevique logo depois e o seu papel fulgurante na insurreição de Outubro pareceram encerrar um longo período de vacilação. Mas em breve ele iria retomar a sua trajectória.

1 L. Trotsky, A Revolução Desfigurada, Lisboa, Antídoto, pp. 77 e 85.

2 Trotsky, La Révolution Permanente, Paris, Gallimard, 1963. pp. 84-86, 93, 108.

3 Ibid., p. 78.

4 Trotsky, Balanço e Perspectivas, Lisboa, Delfos, 1973, p. 14.

5 Ibid., p. 12.

6 Ibid., p. 15.

7 V.I. Lenine, Oeuvres, Moscovo, 9:244 (Setembro 1905).

8 Ibid., 9:318 (Setembro 1905).

9 Trotsky, Balanço e Perspectivas.

10 Trotsky, La Révolution Permanente, p. 123.

II Lenine, Duas Tácticas, Pequim, 1970, ed. francês, p. 112.

12 Lenine, Oeuvres, 9:244 (Setembro 1905).

13 Trotsky, La Révolution Permanente. pp. 107, 125.

14 Trotsky, A Revolução Desfigurada, p. 86.

15 Trotsky, La Révolution Permanente, p. 35.

16 Ibid., p. 112.

17 Trotsky, Balanço e Perspectivas, p. 91.

18 Trotsky, A Revolução Desfigurada. p. 178.

Publicado em http://primeiralinha.org, 2 Setembro 2004

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