Os meus trabalhos prisionais

Francisco Martins Rodrigues

Nas “gavetas”, como eram chamadas as celas do isolamento do Aljube no começo dos anos 50, o “trabalho” só podia consistir em marchar, quatro passos até ao gradão, meia volta, quatro passos para a parede, meia volta… Não havia jornais, livros, visitas, luz, nada.

O essencial era ocupar o espírito a recordar episódios da vida lá de fora, ou enredos de livros ou de filmes, ou mesmo a fazer contas de cabeça, três, quatro, cinco vezes, até ter a certeza de que tinha chegado ao resultado certo. Também fiz um jogo de xadrez com miolo de pão para jogar comigo próprio em cima do bailique, mas a luz era muito pouca e o guarda não tardou em levá-lo… A comunicação com celas vizinhas por meio das pancadas, para além das informações trocadas, necessariamente muito escassas (nunca se sabia se era um preso que batia do outro lado, ou um pide…), era boa porque rompia a sensação de isolamento e consumia tempo. Consumir os dias e semanas (às vezes os meses) sem se deixar vencer pela ansiedade e pelo medo, acho que era o principal trabalho no isolamento.

Nas salas (Aljube, Caxias), tudo mudava. Organizávamos a vida colectiva, elegíamos mensalmente a administração da comuna, íamos às visitas, repartíamos os lanches recebidos das famílias, tínhamos o jornal diário (nem sempre), dávamos aulas (de leitura, de contas, de francês, de história), apresentávamos as nossas reivindicações ao director da cadeia. E continuávamos a marchar infindavelmente, mas agora em grupo, discutindo política e contando as nossas histórias, o que também era importante como trabalho de moralização. A vida na sala 3 do Aljube, com 20 ou 30 presos, era esfalfante. Quando tocava ao silêncio e apagavam a luzes, eu caía no bailique como uma pedra.

Em salas “adiantadas” davam-se autênticos cursos. Na sala 2A do Aljube frequentei um curso elementar de economia política, dado pelo Chico Miguel, que tinha a matéria decorada por já a ter dado muitas vezes em prisões e no Tarrafal. Sem apontamentos, caminhávamos em grupo para trás e para diante, na penumbra, procurando não chamar a atenção do guarda, sempre à espreita pelo ralo da porta. O Chico Miguel ia expondo um capítulo em cada dia e nós colocávamos as nossas perguntas, objecções, etc. No dia seguinte, recapitulava-se a matéria dada e passava-se a um novo tema. Acho que durou meses. Também trocávamos os nossos conhecimentos de história de Portugal, revolução russa, história da resistência antifascista, etc.

Em Peniche, no fim dos anos 50, tudo se tornou mais difícil. A Pide tinha aperfeiçoado os mecanismos para impedir a actividade prisional, a que eles chamavam com rancor a “universidade”. Certas “facilidades” dos tempos antigos tinham desaparecido. Cada um na sua cela, com contactos reduzidos e controlados de perto pelo guarda, a troca de ideias e de informações era quase impossível. Durante a refeição era proibido falar fosse o que fosse. No recreio falava-se mas com termos em código. Também em certos trabalhos de descascar batatas ou transportar lenha para a cozinha, dava para se conversar alguma coisa se o guarda não fosse muito rafeiro. Na cela cada um podia ler o jornal, ou algum livro (não político!), tomar apontamentos… Mas os apontamentos, mesmo usando palavras de código, desapareciam quando o guarda os achava suspeitos. Aí tinha que se recomeçar… Para manter a forma podia-se fazer ginástica, cantarolar baixo e, como sempre, marchar horas a fio.

Com os anos finais de Peniche, de 68 em diante, veio a liberalização. O isolamento celular passou a ser só durante a noite. Durante o dia, todos os presos do mesmo piso podiam circular, conversar livremente, fazer reuniões, receber livros, jornais e revistas, ver televisão a certas horas, fazer café ou chá… Foi tudo conseguido à custa de castigos e espancamentos e da campanha de apoio no exterior, porque os carcereiros não davam nada de livre vontade, mas já nem parecia uma prisão do Salazar.

Pode parecer que há muito pouco de trabalho em tudo isto. Mas acho que era trabalho tudo o que nos mantinha iguais a nós próprios – o objectivo dos fascistas era eliminar-nos como opositores.

O maior choque, quando saí para a rua no 25 de Abril, foi habituar-me a viver no meio de tanto barulho e tanta gente.

Publicado em Os anos de Salazar : o que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo, ed. lit. António Simões do Paço, Planeta Agostini, 2008

 e em http://primeiralinha.org/home/?p=8679#sthash.fmQI5bGV.dpuf  (19/8/2010)

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