20 anos

Francisco MartinsRodrigues

Ao sair este nº 100 da Política Operária, temos razões para nos congratularmos por 20 anos de publicação ininterrupta de um órgão de agitação e propaganda comunista, tribuna de ataque ao sistema, sustentada por um núcleo de revolucionários com recursos escassíssimos. Só o facto de a  PO ter mantido íntegra a sua postura neste período negro de reacção internacional e debandada é em si positivo.

Não nos faltam, porém, motivos de insatisfação. A expansão da revista permanece modesta, não conseguimos aumentar a periodicidade, debatemo­-nos com um défice financeiro permanente, os nossos contactos internacionais deixam muito a desejar… E, sobretudo, não conseguimos, em 20 anos de propaganda, criar o terreno propício ao aparecimento de uma força política estruturada e actuante.

Teremos que atribuir este atraso a faltas da nossa parte? É o que tentamos aqui responder brevemente, confrontando a linha editorial da revista com as críticas que mais frequentemente nos são feitas.

Para muitos na área da esquerda, o problema da  PO seria o seu “doutrinarismo”, a sua falta de vocação para a política prática. Acusação estranha, se considerarmos que, ao longo destes 20 anos, temos dedicado a maior parte do nosso espaço a comentar exaustivamente todos os principais acontecimentos políticos, nacionais e internacionais. Na realidade, aquilo que parece “doutrinário” aos nossos críticos é o ângulo de que atacamos as questões: a luta de classes, os interesses globais do proletariado contra os da burguesia – e isto quer se trate da guerra no Iraque, das últimas eleições legislativas, da greve da Sorefame, de uma manifestação ou de um livro…

Queremos ser de futuro ainda mais “doutrinários”: discutir de forma mais directa e mais acutilante todas as posições que se apresentam em nome do interesse popular, para ajudarmos a distinguir, na acção diária, a linha que tende à radicalização da luta de classes daquela que conduz à conciliação e à submissão ao poder.

Não aceitamos que milhares de boas vontades, de esforços de esclarecimento e de organização, continuem a perder­-se ingloriamente por causa de uma luta de classes travada às cegas, num movimento de massas privado de um núcleo coerente, animado da vontade de derrubar o inimigo de classe.

A  PO, censuram alguns, estaria voltada para o passado. Para esses, a nossa insistência em debater o movimento revolucionário do século que findou, e em particular a revolução russa, e, no plano nacional, a crise revolucionária de 1974-­75, seria sinal de saudosismo de quem não consegue inserir-­se nos tempos novos. Sabemos que nos falta discutir muito mais as mudanças trazidas pela “globalização” imperialista. Mas não temos dúvida de que é impossível entender as forças motrizes do presente se não as enquadrarmos na continuidade dos grandes acontecimentos do passado.

O desinteresse da nossa esquerda em apurar as causas das suas derrotas pode mascarar­-se de “modernismo” mas é sinal de senilidade. É agora, neste período de assalto contra­revolucionário, sujeitos a uma tremenda pressão para deitar fora os nossos referenciais mais avançados, que justamente devemos procurar entendê­-los nos seus pontos fortes e fracos. Se não o fizermos, repetiremos amanhã erros que já nos custaram grandes reveses.

Que diremos aos que nos acusam de um comportamento de “iluminados que se julgam donos da verdade e atacam tudo e todos”? Que procuramos permanentemente trabalhar com outras correntes, e que, se não o conseguimos mais vezes, tem sido devido à campanha de isolamento que alguns nos movem, como castigo pelas nossas posições políticas. Trabalhámos com pessoas de outras convicções na campanha pela libertação dos presos das FP-­25, no lançamento de uma frente eleitoral contra a adesão à CEE, nos movimentos anti-­racista e antimilitarista, na luta pelos direitos da mulher… Animámos uma frente unitária contra a guerra do Golfo (que poucos éramos então à porta da embaixada dos EUA!), estamos sempre presentes nas manifestações sindicais, no 25 de Abril, no 1º de Maio, a expor abertamente as nossas propostas políticas, demos o nosso contributo (animando a criação do SAI) ao êxito da grande manifestação de 15 de Fevereiro de 2003 contra a guerra, demos o melhor do nosso esforço, recentemente, à iniciativa do Tribunal­ Iraque… De uma coisa estamos certos: aqueles com quem temos trabalhado em acções comuns não podem queixar-­se de menos esforço ou menos correcção da nossa parte.

Há quem desvalorize a PO como uma “capelinha que discute em circuito fechado”. Esta é, de todas as críticas, a que nos parece mais injustificada. Sempre foi nossa norma ter as colunas da revista abertas às mais diversas opiniões, travar polémicas, dar espaço a opiniões divergentes e receber com serenidade críticas por vezes contundentes – algo que não vemos praticado à nossa volta. De facto, se se passar em revista os órgãos da esquerda, mesmo a que se vangloria de mais “pluralista”, não se consegue encontrar uma única discussão, uma simples troca de pontos de vista diferentes. Às críticas correctas e de princípios que lhes dirigimos respondem com o silêncio absoluto.

Prosseguiremos neste rumo. Foi graças a ele que nos libertámos dos dogmas esterilizadores da chamada “corrente marxista­-leninista”. Não temos dúvida de que, sem discussão livre, a esquerda não se curará da doença mortal do unanimismo, das ideias feitas, da “teoria” de carregar pela boca, dos slogans pseudomobilizadores a fazer as vezes de argumentos.

Nem nos sentimos atingidos pela acusação de “esquerdismo” que com frequência nos é feita e que encobre muitas vezes pecados alheios. Ao longo dos anos 90, quando a derrocada do Leste e a insolente proclamação da “nova ordem internacional” quase esvaziaram as fileiras da esquerda, com penitências, descobertas “pós­-marxistas” e outras cenas tristes, o nosso chamado “esquerdismo” serviu­-nos para manter a cabeça fria e não embarcar nas novidades da perestroika, nos regozijos “democráticos” pela queda do Muro e pelas “revoluções” na Europa Oriental, nas infames cruzadas pelos “direitos humanos” no Panamá, na Jugoslávia, na Somália, no Afeganistão, no Iraque, e não fugir à solidariedade com os povos oprimidos em luta e com os combatentes sociais presos, mesmo quando as suas causas são “incómodas”. Na política nacional, foi esse chamado “esquerdismo” que nos permitiu criticar, sem considerações de oportunidade eleitoral, as bases podres do regime criado pelo golpe de 25 de Novembro de 75; alertar desde a primeira hora que a “prosperidade pela Europa” iria acabar em ruína; desmontar a falsidade dos grandes consensos eleitorais unitários que ao fim de dois meses descambam em desilusões amargas; denunciar a inoperância da oposição respeitadora das regras do sistema; batermo­-nos contra a reabilitação do regime fascista, das guerras coloniais, das “glórias” dos Descobrimentos… Se não conseguimos êxitos vistosos é talvez por nos empenharmos em causas “difíceis”. Mas são essas que valem a pena.

 Para outros, pelo contrário, a PO seria “direitista” por não se centrar mais na luta da fábrica e sindical. Há nesta crítica um mal­-entendido. O objectivo que presidiu à criação da nossa revista e a que nos mantemos fiéis é o de ajudar a construir a identidade política do proletariado. Apoiando as reivindicações laborais, combatemos a desgraçada tradição que vê a causa operária centrada na luta económica e que, em matéria de política e ideologia, oferece aos proletários vagas tretas “progressistas” de consumo corrente. Queremos mais ligação às fábricas mas não à custa de fazer uma revista “fácil”.

Mesmo depois da rica experiência política de há 30 anos, a massa dos nossos activistas, submergida pelas exigências da luta reivindicativa, costuma esquecer que, sem uma corrente de ideias políticas próprias, jamais o proletariado sairá da menoridade política e será capaz de se lançar a disputar o poder à burguesia. “Recuámos tanto – escrevíamos na PO nº 1 – que hoje parece estranha, mesmo à maioria dos operários, a ideia de que o proletariado deva ter o seu pensamento independente, as suas próprias posições políticas”.

Com esta reafirmação de princípios não pretendemos, de forma alguma, dar-­nos por satisfeitos com o trabalho desenvolvido. Queremos, com a ajuda de todos os nossos amigos, descobrir deficiências e superar os obstáculos que nos impediram de ir mais longe. Queremos elevar a qualidade da argumentação, a variedade dos temas, o aprofundamento das questões. Ambicionamos fazer desta revista um foco de pensamento crítico marxista, capaz de animar o surgimento de publicações, de núcleos de activistas, de outras iniciativas que, no seu conjunto, tornarão possível a criação do partido comunista a que o proletariado português tem direito.

Editorial do nº 100 da revista Política Operária, Maio de 2005

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