O Outro 25 de Abril

Entrevistas conduzidas por Francisco Martins Rodrigues

Quando uns bramam contra a “bagunça”, outros criticam os “excessos”, outros ainda troçam paternalmente das “utopias folclóricas” – não estarão todos a tentar apagar algo de muito sério que anunciou tempos novos?

Em tempo de aniversário do 25 de Abril, é da praxe as figuras gradas da política virem relatar na grande imprensa as suas recordações, e oferecerem-nos as suas análises e palpites, em que raramente falta a condenação da “anarquia”, da “desordem” e das “tentações totalitárias da esquerda”, a que o golpe militar de 25 de Novembro pôs termo, repondo os “sãos ideais da revolução de Abril”.

Para ouvir a versão do campo oposto, reunimos em conversa precisamente alguns dos “culpados” dessa “onda anarcopopulista”, na época activistas da extrema esquerda. São eles: Joaquim Martins, 60 anos, empregado de serviços em Lisboa, na altura desertor em França; José Carlos Codinha, 63 anos, da Nazaré, que era também exilado político; Cristina Pereira, 46 anos, secretária, de Alhos Vedros, então estudante; e Manuel Monteiro, 55 anos, que já foi deputado da UDP e era então operário numa fábrica do Cacém.

– Como foi o vosso 25 de Abril?

Joaquim Martins. Cheguei a Lisboa no 1º de Maio, vindo de Paris. Eu era desertor, tinha-me ligado lá aos CLACS, grupos de acção anticolonial. Assim que soube que estavam a libertar os presos, não aguentei mais, resolvi vir de qualquer maneira. Juntámo-nos uns 20 portugueses em Bayonne, tivemos um trabalhão para conseguir que o consulado nos desse passaportes. Cheguei ao meio-dia e fui logo para a manifestação do meu partido, o MRPP, que foi no Rossio. Não cheguei a ver a outra manifestação. Apresentei-me à tropa e deram-me guia de marcha para Tavira, que era de onde eu tinha desertado. O ambiente pouco tinha mudado: instrução e mais instrução, comida intragável e doutrinação sobre os “inimigos” e os “terroristas”. Ao fim de uma semana fui preso por causa de um levantamento de rancho. Durante os dez meses que fiz tropa, primeiro em Tavira, depois em Évora, sucederam-se as lutas contra o regime que nos era imposto pelas chefias. Começámos por eleger delegados ao rancho, para as questões de disciplina, etc., e ao fim de uns meses já havia uma estrutura com representantes de diversas forças políticas. Quando começou a campanha por “nem mais um soldado para as colónias”, a agitação aumentou. Sei de um batalhão que embarcou no aeroporto, cercado por dezenas de activistas, que entraram mesmo na pista para tentar demovê-los. No 11 de Março, em Évora, chegámos a reter o comando nos seus aposentos durante umas horas porque se soube que havia tentativas de uma unidade da direita vir puxá-los para o golpe. Os soldados exigiam ser informados do que se passava. Tudo isto integrado no MRPP, até porque era o grupo com mais intervenção no sector militar. Acabei por ser corrido da tropa por “indecente e má figura” e por fim desliguei-me do MRPP quando eles apoiaram o Eanes.

J. Carlos Codinha. Eu estava exilado em Paris, tinha pouco mais de 30 anos, pertencia ao “Grito do Povo”, um grupo marxista-leninista muito activo, fazia trabalho junto dos emigrantes, num bairro e numa zona fabril. Logo, logo, pensámos que o golpe era mais uma spinolada, mas assim que soubemos do 1º de Maio e do povo todo na rua, criou-se um entusiasmo enorme por regressar, era ver quem vinha mais depressa. Mesmo assim só vim duas semanas depois; no meu grupo havia cuidados conspirativos em demasia, queriam lá conservar uns tantos quadros por segurança, mas eu disse que vinha de qualquer maneira.
Cheguei à Nazaré, e logo no dia seguinte fomos numa grande excursão a Baleizão, no aniversário da morte de Catarina Eufémia. A partir daí foi uma actividade frenética. Destituímos a direcção da Casa dos Pescadores, fascista, criámos o sindicato das pescas que se pôs logo à cabeça de uma greve que foi vitoriosa, apoiámos greves e lutas em fábricas vizinhas, criámos o sindicato dos resineiros e trabalhadores agrícolas, formámos várias células e comités de acção antifascista, apoiámos as comissões de trabalhadores, irradiámos para diversas terras do Oeste.
Foi um período entusiasmante. Imprimimos uma dinâmica unitária, criámos a Comissão Democrática da Nazaré, onde aglutinávamos pessoas diversas. No 28 Setembro, cortámos com barricadas as estradas à volta da vila, estivemos a noite toda a controlar todos os carros. Quando foi o congresso do CDS no Porto, partiu da Nazaré um grupo que foi boicotar os faxos. No 11 Março, após a fuga do Spínola, a Nazaré levantou–se numa manifestação que ficou histórica. E o povo não autorizava comícios de partidos fascistas ou de direita; o CDS durante bastantes anos depois do 25 Novembro, não entrou lá, e o PPD, a primeira vez que quis fazer um comício, mandou um presidente da Câmara sondar os “esquerdistas”.
Não éramos marginais, estávamos no centro da actividade de massas porque o nosso grupo já tinha ali criado um bom embrião de organização antes do 25 Abril. Isto permitiu alargar rapidamente, na Nazaré e em terras em volta, formar comissões de trabalhadores, formar activistas e dirigentes sindicais jovens. O PC, pelo contrário, era muito fraco na Nazaré, e o PS não existia.
Entretanto, o “Grito do Povo” transformou-se em OCML, concorreu às eleições para a Constituinte com a sigla FEC e teve resultados apreciáveis. E é no Verão Quente, quando começam as conversações entre os grupos M-L com vista à unificação, que eu sou cooptado para a direcção da OCMLP, venho para Lisboa e passo a viver na sede da organização. Começou um debate aceso para saber se devíamos entrar no processo de criação do novo partido comunista. Uns diziam que a OCMLP, grupo maior e com maior implantação na luta de massas, não tinha que se subordinar a grupos menores, que devíamos sair de forma organizada, sem precipitação, mas crescia o número dos que sentiam a urgência de unir esforços e, por fim, a organização dividiu-se.
A causa principal da resistência à unificação era política: o núcleo dirigente acusava os outros grupos da extrema-esquerda de serem pró-PCP, porque não seguiam a campanha deles, mais acirrada contra o PC do que contra a direita. Por causa disso, houve números do Grito do Povo que nos recusámos a distribuir. No 25 de Novembro, desobedecendo à palavra de ordem “Nem fascismo nem social-fascismo”, que equivalia a cruzar os braços perante o golpe, houve militantes que se deslocaram para a base de Monte Real, para tentar impedir os golpistas de avançar.

Cristina Pereira. No 25 Abril eu tinha 16 anos, andava na escola no Barreiro, muito influenciada pelo meu pai, operário da CUF, lutador nato mas avesso à organização. Passado pouco tempo da queda do fascismo, há uma reunião entre grandes capitalistas e a Junta de Salvação Nacional, o meu pai diz: “A revolução para mim acabou: Spínola e Jorge de Melo, já vi no que isto vai dar”. Comecei a aperceber-me de que as coisas não eram tão bonitas como davam na televisão e fui ficando fora do ambiente de festa que se vivia no meu bairro. Não sabia nada de política, mas segui a postura do meu pai, sempre no espírito de contracorrente.
Acabei por me ligar ao MRPP, só porque durante uma greve na escola me convidaram para entrar no comité de greve, em conflito com a orientação do PC. Lancei-me nas tarefas de agitação e propaganda, basicamente na escola. Fui presa quando se deu a repressão sobre o MR, eu andava a colar cartazes e um tipo da comissão de trabalhadores da CUF chamou a GNR. Éramos uma data de miúdos, a minha irmã com 14 anos também foi. O meu pai entra no plenário da CUF e diz: “Vocês, de marxistas só têm as barbas, senão não mandavam prender meia dúzia de gaiatos”. Estivemos uns dez dias em Tires. Foi uma boa experiência. Todos os dias havia leitura do Luta Popular, os soldados participavam, faziam perguntas. Um dia aparece lá o Jaime Neves, e como a nossa porta-voz dissesse que nos recusávamos a responder a perguntas, ele dá-lhe uma chapada que ela até andou de lado. Voltou tudo para as celas. Por fim, foi o meu pai lá buscar-me. Com a nossa fotografia na mão, vieram escolher-nos.
Não entrei na luta por razões de fome ou exploração. Era o sentimento de revolta contra a moral opressora, a ânsia de liberdade e dignidade. Nós, acima de tudo, tínhamos sede de liberdade. Eu dizia que gostava de ser homem para poder sair à noite e muitas das minhas amigas tinham esse sentimento. Mesmo assim, o meu pai era muito liberal para a época. Quando fui presa com a minha irmã, a família e os amigos diziam que ele é que tinha a culpa por nos dar demasiada liberdade, a política era coisa dos homens.
A minha ruptura com o MRPP surgiu bastante mais tarde, não tanto por razões políticas: havia grandes discussões ideológicas, mas comecei a achar que aquilo já estava fora da realidade, não se adequava à situação. Muita agitação mas pouca consistência. Passei depois para a UDP, UJCR, PC(R), mas já muito depois do 25 de Novembro.

Manuel Monteiro. Ainda hoje a imagem que tenho do 25 de Abril foi a vivência na fábrica, a imensa alegria das pessoas. Tinha vindo há dois anos da guerra colonial, e apesar de estar lá ligado a um grupo de milicianos maoístas, a estrutura era fascista. Cheguei e vim para a Cergal, uma fábrica nova, com gente jovem, com regalias sociais mais avançadas do que a média, mas o ambiente era cinzento e castrador, a pequena opressão dos chefezinhos. Todas as manhãs quando apanhava o comboio sentia-me oprimido: “Mais um dia…”. Eu tinha infuências do PC e de católicos progressistas No dia 25 de Abril, a princípio ficámos a ver no que é que aquilo dava: golpe militar… De repente dá-se uma explosão de entusiasmo, veio a festa.
Aquela fábrica passou a ser para mim, ainda hoje, aquilo que eu sonho para o futuro. Os operários juntam-se, conseguem sanear os directores mais repressivos, decretam-se aumentos ao pessoal da linha de produção e às mulheres de limpeza, estabelece-se um estatuto de respeito (“proibido escrever frases obscenas nas casas de banho”), as raparigas que eram oprimidas e abusadas pelos chefes começam a vir contar as suas histórias… Cria-se uma vivência extraordinária: ali quem mandava eram os operários. Ali eu vi como o exercício da ditadura do proletariado não significa qualquer ditadura. Era a democracia da maioria, em lugar da anterior em que meia dúzia davam ordens a toda a gente. Ainda hoje acredito nisso, por aquela experiência concreta. Naquele ano produzimos o mesmo que nos anos anteriores, sem chefes. Os operários reuniam-se de manhã, discutiam, faziam os planos da produção, todos se sentiam bem. Em matéria política, como era uma fábrica recente e não tinha organizações políticas lá dentro, nomeadamente do PC, houve um enorme eclectismo. Discutia-se tudo: Cunhal, Mao Tsetung, Che Guevara, Cristo…
Depois dessa escola na fábrica, senti a importância de entrar no movimento político. O que tínhamos ali conseguido era só local e o que estava em jogo era toda a nossa sociedade. E aí tive outra grande experiência – a das greves e da articulação entre as comissões de trabalhadores e de moradores, a culminar na Interempresas, que lançou a manifestação de 7 Fevereiro contra os despedimentos e a NATO, uma das mais avançadas de todo o processo.
Quanto a mim, o grande erro dos revolucionários foi terem abandonado estas estruturas para se meterem no trabalho partidário. Fomos todos armados em dirigentes para a UDP, e o PCP, que inicialmente fazia guerra às CTs e tentava controlar o movimento através dos sindicatos, quando lhe abrimos campo, tomou logo posse da estrutura.

AS “CULPAS” DO “ESQUERDISMO”

– Há hoje muitas vozes, e não só na direita, que continuam a condenar a “anarquia” e a “bagunça” daqueles tempos. Vocês que acham?

C.P. É falso. Não houve nenhuma confusão nem anarquia. Foi o contrário: foi um período de grande organização. Havia um desejo espontâneo de organização – tudo o que cheirasse a desordem ou a aproveitamento pessoal era contestado. Não se admitiam ocupações de casas à balda, tinha que ser aprovado pela comissão de moradores. Os próprios que se diziam anarquistas actuavam colectivamente. Os que falam na “anarquia” não toleram é a liberdade popular que houve nessa altura.

M.M. Anarquia? Basta ver as comissões de trabalhadores que nasciam por todo o lado, as discussões nos plenários, as eleições de delegados, a ordem das manifestações. Foi um período de imensa organização democrática. Já se sabe que, para os políticos do sistema, “democracia” é o amorfismo actual, com eles a governar e a gente a votar de longe em longe.

J.C.C. Para a burguesia, o povo em liberdade é um pesadelo; falam da “bagunça” e do “caos” para criar um papão, para dar a entender que o povo em liberdade só faz disparates, mas os explorados que viveram esses meses sabem que foi o melhor tempo da sua vida.

– Também se diz que os esquerdistas tinham uma visão utopista e irrealista, tentaram forçar a situação, desviá-la do seu rumo natural. Acham que a extrema esquerda manipulou os trabalhadores com os apelos à revolução e ao socialismo? Foi tudo uma loucura inviável?

C.P. Claro que cometemos muitos erros e teríamos cometido muitos mais se as coisas fossem por diante, mas exigir que uma revolução não cometa erros é uma maneira de querer proibir a mudança. E este sistema, não comete erros e injustiças todos os dias? E, no entanto, eles não se vão embora. Com a história do nosso tempo cheia de erros, violências e barbaridades, com que autoridade nos vêm dizer que a revolução é perigosa?
É ridículo dizer que o movimento popular foi contranatura. Não foi nada artificial, tinha a ver com as aspirações recalcadas durante muitos anos e com o momento que se vivia no mundo. Fomos fruto da época, do confronto da guerra fria e dos avanços que a esquerda fazia no mundo. Foi um período criador. Senti isso ainda mais, anos depois, em contraste com aquele pseudo homem novo da Albânia que se revelou como um bando de ratos pendurados em barcos à busca da sociedade de consumo.

J.M. Em todo o lado havia uma grande ânsia de liberdade e de participar para melhorar as condições de vida. Em muitos casos, foi a debandada dos patrões que forçou os trabalhadores a tomar conta da produção para não ficarem sem os postos de trabalho. As coisas só não foram mais longe precisamente por não haver uma força capaz de dar coerência àquele movimento, de dar o salto qualitativo.
Com essas acusações de “manipulação” querem encobrir o comportamento vergonhoso dos partidos ditos democráticos, apavorados com a iniciativa popular. O único partido com força no movimento operário, o PC, queria a chamada “Revolução Democrática e Nacional” que não era revolução nenhuma, queria uma transição suave para a democracia burguesa. E o PS deu força ao grupo dos Nove e aos fascistas que fizeram o golpe do 25 de Novembro. É preciso que os jovens de hoje saibam como esses “democratas” fizeram todos frente comum para destroçar o movimento dos trabalhadores.

C.P. O PS tem uma responsabilidade histórica; passou-se com armas e bagagens para o campo do imperialismo. O Carlucci dava ordens. O dinheiro passava dos bolsos do Olof Palme para os do Mário Soares. Ele aliás não nega. Era a guerra fria aqui. Eles ganharam, nem tivemos tempo para saber o que ia acontecer. Eles é que manipularam tudo.

M.M. Essa conversa da manipulação não tem base nenhuma. As pessoas saíram da opressão fascista, viram uma janela nova, avançaram. Houve na massa um impulso imediato para as greves, plenários e saneamentos, não foi inculcado pelos partidos; até porque o PC queria apoio às suas palavras de ordem mas nada de agitações revolucionárias, e os M-L eram muito minoritários. Quanto a saber o que daria o avanço da revolução, é uma incógnita. Podia ser até dramática, e daí? Se o movimento tivesse capacidade para avançar, avançaria mesmo. Mas isso são especulações.

J.C.C. A direita toda acorreu para o PS porque viu que, naquele momento, era a força com mais condições para travar o avanço da revolução. É preciso ter lata para se apresentarem hoje como defensores da “revolução de Abril”.
Nós, com todos os nossos erros, estivemos na direcção certa. Ajudámos a criar uma estrutura muito rica de organizações, a consciencializar a massa explorada para a defesa dos seus interesses, a despertar os trabalhadores para a política, não a política-espectáculo como se faz hoje, mas como participação autêntica. E muita coisa ficou enraizada na população. Estou-me a lembrar do entusiasmo com que a população da Nazaré apoiou a grande greve dos marinheiros, e isso já muito depois do 25 de Novembro.

DERROTA INEVITÁVEL?

– Mas então a quem pedir responsabilidades pelo abortar da crise?

J.C.C. Nunca chegamos a ser uma alternativa coerente à esquerda do PC, nunca estivemos próximos de ser uma direcção autónoma desse grande movimento operário. Estávamos abrigados no guarda-chuva do MFA, e isso restringiu o avanço do processo. Se as coisas avançassem, ninguém pode dizer que seria derrota certa. Com a agonia do franquismo, se tivéssemos aguentado até haver lá um movimento semelhante ao nosso, o reflexo que isso teria aqui poderia fazer-nos dar um salto, a evolução na Península poderia ter-se tornado mais vasta e até mais profunda.
Responsabilidades? Na corrente M-L havia de tudo. Houve forças que se diziam marxistas-leninistas, caso do MRPP, e que tiveram um papel de aliados objectivos do centro e da direita, a reboque do PS. Não era só uma análise errada da situação, era, nesse grupo e nos outros, uma influência dominante da ideologia pequeno-burguesa, todos os chefezinhos se julgavam os futuros Lenines, os dirigentes do proletariado. Surgiram alguns dirigentes operários, vindos da luta reivindicativa, mas sem conhecimento do marxismo. Se tivéssemos um projecto político coerente, poderíamos ter aglutinado numa única corrente revolucionária o conjunto dos ML e muitos militantes do PRP, MES, etc.

M.M. A grande tragédia do 25 de Abril foi a falta de uma organização revolucionária consolidada e reconhecida, capaz de fazer crescer o movimento de uma forma organizada a caminho de um objectivo bem definido, apoiado nas comissões, nos órgãos de vontade popular. Não fomos capazes de seguir a experiência da revolução de Outubro, em que a grande força do partido bolchevique foi saber apoiar-se no tremendo impulso dos sovietes.

J.M. Não esqueças que a divisão da corrente revolucionária era grande, fruto da cisão internacional sino-soviética e da pouca experiência política acumulada.

C.P. Não me parece que a culpa de a revolução não ter ido para a frente tenha sido a divisão do movimento revolucionário. A culpa foi de quem tinha a esmagadora maioria no movimento operário. O PC permitiu e foi conivente numa série de coisas.

J.M. … Até puseram um ministro do PC no Ministério do Trabalho, para garantir que as massas seriam controladas. Mas nós já sabemos que o PC não quer a revolução, nós é que temos que o derrotar ideologicamente junto das massas. As responsabilidades temos que as pedir a nós próprios, que não conseguimos que esse salto se desse, derrotar essa influência reformista nos trabalhadores.

AS ELEIÇÕES PARA A CONSTITUINTE

– Agora, uma objecção. O PS ainda hoje diz: “Uma vez que o MFA marcou eleições, e o PS e o PPD ganharam, a partir daí impunha-se o respeito pela vontade democraticamente expressa pelas massas. Ora, o PC com uma parte do MFA e os esquerdistas por outro lado, tentaram impedir essa evolução. O 25 de Novembro não foi mais do que a acção necessária para fazer respeitar o resultado das eleições da Constituinte.” Querem comentar isto?

J.C.C. O pacto MFA-Partidos pôs a tónica nas eleições porque sabiam que por aí passava o bloqueamento do movimento. E sabiam que as eleições dariam a maioria à burguesia porque o país estava dividido entre Norte e Sul. Por vezes fala-se dessa época como se fosse só ocupações e manifestações, e esquece-se que havia paralelamente um movimento contrário, não eram só os faxos, mas com ampla base social, com largo apoio, que não queria nada com a revolução, tinha pavor do comunismo, queria os trabalhadores metidos na ordem. Por toda a província, os pequenos comerciantes, os pequenos patrões, os padres, em contacto directo com as populações, faziam um trabalho de sapa diário, e isto começou logo semanas depois do 25 de Abril.
Se tivéssemos uma perspectiva clara da situação teríamos ganho as massas para a exigência de só haver eleições quando a direita estivesse derrotada. E devíamos ter sabido aquecer muito mais o Verão quente. Mas o que sucedeu foi que a resposta ao 25 Novembro foi inexistente, já meses antes o movimento sentia-se cercado e derrotado.

M.M. As coisas só tomaram esse rumo porque caímos na armadilha da burguesia. Quando na noite do golpe de 25 de Novembro, o Pulido Valente gritava que tínhamos que ir todos para a rua lutar contra os golpistas, podia até ser da parte dele “desespero pequeno-burguês”, mas esse camarada tinha um grande faro político: apercebia-se de que tínhamos caído numa armadilha. Apesar de todo o valor que demos ao movimento popular, ainda vacilámos, preocupados com as boas graças do MFA. A burguesia percebeu que umas eleições à pressão era a melhor maneira de afogar a revolução, e a UDP foi alegremente para as eleições e ficou eufórica por ter elegido um deputado. A partir daí, no “Verão Quente”, cada vez perdeu mais a iniciativa. No fim a sua palavra de ordem já era só “Não à guerra civil”. Se éramos uma pequena força, devíamos ter jogado tudo no apoio ao movimento popular e não hesitar em avançar com as massas para o confronto com os reaccionários. Não estávamos isolados, a situação mundial era muito diferente da de hoje, havia muitos pontos de desestabilização para o imperialismo. Se tivéssemos uma organização, mesmo pequena, mas dinâmica, audaciosa, com clareza política, naquela situação cresceríamos rapidamente.

C.P. Não te esqueças que, hoje, os analistas políticos reconhecem que quer Freitas do Amaral, quer Cunhal, tiveram um papel fundamental em “evitar a guerra civil”. O PC tinha tudo programado para uma democracia burguesa. Nós éramos “meia dúzia de gatos pingados”, o que podíamos fazer?

M.M. Primeiro, não deveríamos ter abandonado as comissões de trabalhadores, a Interempresas. Íamos à luta para arrancar ao PC as cinturas industriais de Lisboa e do Porto e a Reforma Agrária. Tínhamos algumas empresas que não eram das maiores mas podiam servir de bases para alastrar. A esquerda tinha influência em muitos quartéis. Quem pode esquecer o PC em pânico com o 7 de Fevereiro de 75, a chamar “provocadores” à manifestação da Interempresas e a aconselhar que se oferecessem flores aos marinheiros da NATO? O PC fingiu, para as bases, que estava disposto a resistir ao golpe em preparação, mas por trás da cortina negociou com os golpistas. E nós a correr dum lado para o outro, sem saber como poderíamos impedir aquilo.

J.C.C. E não só. Ganhou-se muito depressa um gosto especial pela “grande política”, o parlamento subiu um bocado à cabeça, grandes manobras de alto nível e menos atenção ao que se passava nas empresas.

– O PS e o PCP, em reacção contra a recuperação da direita, exaltam agora os valores da “revolução de Abril”. E nós, como encaramos esses 19 meses? Há entre nós quem diga que não houve revolução nenhuma, há quem fale em revolução derrotada, em semi-revolução, em crise revolucionária, vazio de poder…

J.M. A crise revolucionária não foi levada até ao fim. Com a queda da ditadura provocada pelo golpe militar, abriu-se uma janela que o movimento popular aproveitou para impor as suas reivindicações imediatas, fazer ocupações, criar a autogestão, etc. Mas isto não pode ser confundido com a emancipação dos trabalhadores, eles não ganharam o poder. Por isso, todas as estruturas que o movimento revolucionário tinha criado foram facilmente desfeitas. Não tivemos força para impedir que, desde então, os governos, mais à direita ou mais à “esquerda”, vão cortando tudo o que ainda sobejava das conquistas. Todos eles querem ajustar contas com o 25 de Abril, é uma vingança de classe.

C.P. E isso tudo que aconteceu em 74-75, como lhe chamas? Houve uma transformação na sociedade. Não para aquilo que nós queríamos, não mudou o aparelho de Estado, mas mudou imensa coisa, do ponto de vista social, as conquistas populares foram inscritas na lei, avançou–se do ponto de vista dos direitos humanos, fez-se a Constituição mais avançada da Europa. Só porque não houve mortos e feridos, vamos dizer que não houve uma revolução? Vamos chamar-lhe “revolução burguesa”? Entendo que houve uma revolução, embora tudo tenha voltado para trás, mas muito mudou na vida das pessoas.

M.M. Sabemos qual a intenção da direita quando quer que se fale em “evolução” e não em revolução; quer apagar os sinais e o exemplo do movimento popular. Mas historicamente eles até têm razão. A burguesia tinha planeado com o golpe militar uma transição pacífica do fascismo para a democracia burguesa. De início os planos saíram-lhe ao contrário, apanhou um enorme susto, mas o resultado final foi que, apesar dos avanços que na altura se fizeram, a dominação burguesa foi assegurada.

– Surge sempre a pergunta: será que tudo se perdeu por falta de unidade no campo da esquerda? Será que deveríamos hoje autocriticar-nos por demasiada rigidez perante a base do PC?

C.P. Claro que tem que haver uma reflexão, sobretudo para sabermos como agir hoje. Mas não nesse aspecto. Acusam-nos de ter vindo dividir o movimento operário. Mas essa era uma divisão legítima, sob pena de colaborarmos na liquidação da revolução. Eu não me lembro de ter participado em qualquer órgão que não fosse para aprofundar, para empurrar para diante. Eles é que intervinham sempre para moderar, para ficar a meio.
Digo mais: as divisões entre a extrema esquerda e o PC continuam a ser necessárias hoje. Temos muitas fraquezas, precisamos de caminhar muito para reconstruir a esquerda revolucionária, mas a nova corrente só cresce se não conciliar com o PC. O reformismo deles não tem emenda. Apesar das derrotas que sofreram, mudaram muito pouco, só pensam em dominar, têm uma visão cada vez mais estreita.

M.M. Nem sempre errámos face ao PC. Tivemos diversas actuações com eles nas empresas, às vezes mais radicais, outras vezes mais conciliadoras, mas o resultado era sempre o mesmo: “Nós temos uma história, temos grandes dirigentes, somos apoiados pela ‘pátria do socialismo’. E vocês quem são? Vocês só querem lutar contra o PCP, vocês são da CIA, provocadores, etc.” Na Lisnave ou na Sorefame, os operários que não alinhavam com o PC levavam porrada. A organização do PC não admitia vozes discordantes, temiam tudo o que pusesse em causa o seu projecto: recrutavam os encarregados nas empresas, conciliavam com a burguesia, andavam atrás do PS para conseguir uma aliança – connosco é que não queriam nada. O sectarismo deles tinha uma razão política: tinham medo que a extrema esquerda estragasse a transição que eles tinham planeado. Além disso, como tinham muito poder nas empresas, nas câmaras, nas juntas de freguesia, etc., muita gente dependia deles. Só uma organização com experiência, com história e autoridade política, com outra força que nós não tínhamos, poderia ter obtido melhores resultados junto da base do PC. Não vejo que tenhamos alguma autocrítica a fazer nesse aspecto. Se calhar o nosso “erro” foi só sermos fracos.

J.M. O sectarismo do PC era intolerável. Enquanto fui tropa participei numa dúzia de comícios em quartéis. Pois, de cada vez que intervinha, tinha que ser perfeitamente clandestino. Mais tarde vi que o MRPP tinha posições muito fora da realidade mas eu nesses plenários era hostilizado pelos militares da linha PC só porque ia alertar para a necessidade de independência dos soldados e do movimento popular. Era isso que os alarmava.

J.C.C. Um exemplo de sectarismo: na Nazaré, no “Outono quente”, foram os ML que se puseram à frente da sede do PC para não permitir o assalto dos faxos, mas depois quando a UDP foi atacada, os PCs não quiseram saber.

E AGORA?

– Diz-se às vezes que o que é preciso é fazer outro 25 de Abril. Mas o mundo todo mudou, veio a globalização, a expansão imperialista… A revolução só neste pequeno cantinho parece impensável. Então como fazer? Vamos apostar numa acumulação lenta de forças?

C.P. Para mim, a acumulação revolucionária de forças é manter os olhos postos nas nossas referências – a revolução, uma sociedade livre da exploração, o socialismo – e saber agir no dia-a-dia no anti-sistema, em todas as frentes de luta, manter acesa a discussão, marcar a agenda política com iniciativas constantes, como o BE vem fazendo. É assim que se vai rompendo.

M.M. Não sei, vejo mais fraquezas que forças. Posso ter falta de pé devido à minha vida actual, mas vejo as novas gerações perdidas, desorientadas. Receio que tão cedo não vejamos neste nosso mundo grandes convulsões sociais. Claro que temos que ir participando nos movimentos sociais, mas a questão central agora é reflectirmos, organizarmos os marxistas, estudar porque se falhou, porque se cometeram tantos erros, compreender a nova situação criada em Portugal e no mundo, para nos pormos à altura.

J.M. Também me parece. Havia um campo que, mesmo com limitações, servia de apoio ao movimento anti-imperialista. Havia um movimento comunista internacional que se desfez. É aí que temos que concentrar agora o esforço principal.

J.C.C. Mas temos que limpar as confusões que temos arrastado todos estes anos. Quando em 76 se pensou que a eleição do Otelo ia reabrir a crise revolucionária, e se mandou tudo para a frente, pelo “25 Abril do Povo”, cometeu-se um erro crasso. Foi dos tais esquerdismos que, confrontados com a prática, dão efeitos direitistas. Muita da gente que depois disso se retirou, foi resultado da desorientação causada por uma política que não queria reconhecer a derrota e as nossas responsabilidades na derrota. Concordo que hoje, a questão da revolução socialista já não se põe à escala de cada país isoladamente, será nos grandes blocos imperialistas, os três actuais, mais a China, se calhar. Essa é uma das condicionantes do momento actual. Dar passos para criar uma esquerda comunista europeia é sem dúvida uma das nossas tarefas mais urgentes.
Mas há que romper com o defensismo que se entranhou na esquerda, como se a mundialização tivesse sido inventada pelo Capital. Não foi Marx o primeiro a dizer “Proletários de todos os países, uni-vos”? A resposta que se está a dar à globalização traz jovens à luta, mas um movimento orientado só para o fim do neoliberalismo vai bater com a cabeça na parede. Os governos estão-se marimbando para as moções dos Fóruns. Sem pôr em causa o sistema capitalista não há verdadeira alternativa. Esse é o defeito do BE, situa-se no quadro da oposição dentro do sistema. O BE só tem estado a ganhar campo porque muita gente jovem desconhece toda a história da ruptura e da nova corrente comunista, acham puro irrealismo pensar em trabalho revolucionário e encostam–se ali, para ter a ilusão de que fazem alguma coisa.

 

 

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