O DIREITO À REVOLUÇÃO

Francisco Martins Rodrigues

O lançamento de “POLÍTICA OPERÁRIA” depara com uma pergunta quase certa: que utilidade tem uma revista que se propõe levar aos operários a discussão dos grandes temas da política?

A maioria dos trabalhadores não verá interesse prático numa iniciativa destas. Hoje, porque estamos envolvidos numa série de campanhas eleitorais e todos querem saber em quem votar; amanhã, porque será necessário prosseguir a luta contra os despedimentos, os salários em atraso, a carestia, a exploração capitalista.


E, contudo, não têm faltado à classe operária, nos últimos onze anos, ocasiões para fazer sentir o seu peso, em eleições, em greves, em manifestações. Como se compreende que a sua situação seja cada vez pior? É que lhe faltou o principal: uma linha de rumo coerente, que só poderia ser conseguida através da reflexão e do debate entre os operários conscientes. Desgraçadamente, está enraizado no nosso movimento operário o preconceito de que reflectir, debater, teorizar seria uma ocupação para intelectuais. Aos operários caberia só actuar, lançar acções de massas. Este praticismo entranhado – que se mascara de dinamismo e até chega a exibir-se como uma marca de classe! – é o maior responsável pelo atraso do movimento operário português.

Fazemos parte de um movimento operário lutador mas privado de independência política, afogado em preconceitos pequeno-burgueses. Esta é uma conclusão que pode parecer dura mas que tem de ser dita. Um movimento operário que, há mais de meio século, reconhece como seu partido político o PCP e que admite como expressão dos seus interesses, sucessivamente, o “levantamento nacional dos portugueses honrados”, a “revolução democrática e nacional”, a “aliança povo/MFA”, a “via do desenvolvimento não-capitalista” e o “governo de salvação nacional”, e que considera o derrubamento da burguesia como uma miragem impossível – este movimento só pode ser classificado como atrasado, desprovido de objectivo próprio. Ou seja, um apêndice do reformismo pequeno-burguês.

Hoje, quando o desabar das ilusões de Abril faz crescer o número de operários que se voltam para o PS como alternativa ao PCP, que procuram no colaboracionismo da UGT aquilo que não obtiveram da paralisia da CGTP, que se convencem de que a social-democracia pode ser melhor do que o fracassado “comunismo” soviético – hoje, sobretudo, é preciso procurar no marxismo uma explicação para o descalabro e um caminho de saída, virar costas por uma vez à esperança na colaboração de classes. Foi o que o PC(R) anunciou mas não se atreveu a fazer. Daí o seu fracasso actual.

A verdade é que ninguém, a não ser a burguesia, tem sabido aproveitar as lições dos desaires da classe operária. E sustentar-se da sua própria podridão.
Porque este mundo de pesadelo que o capitalismo criou – a barbárie e a lei da selva dos países “avançados”, a agonia da miséria do chamado “Terceiro Mundo”, as guerras, os genocídios, os fascismos, o banditismo internacional dos Estados Unidos, o obscurantismo hipócrita da União Soviética, a ameaça permanente de destruição nuclear, o esbanjamento dos frutos do progresso científico – nada disto pode ser varrido com condenações morais, nem com pequenas reformas nem com ambíguas “revoluções nacionais-populares” para contentar toda a gente.

É preciso que a classe operária tome finalmente em mãos a tarefa que a História lhe destina e de que mais ninguém se pode encarregar: pôr fim ao capitalismo, o ocidental e o oriental, criar uma sociedade de produtores livres e iguais – o comunismo.

Mas, para isso, é preciso que a vanguarda operária se torne capaz de criticar todas as classes, derrubar todos os tabus, libertar-se de todas as dependências, compreender tudo, ousar tudo. Só assim poderá guiar o conjunto do proletariado para a conquista do poder. Isto significa, entre outras coisas, que é preciso saber porque se perdeu a revolução russa de 1917, o maior acontecimento revolucionário de todos os tempos, e depois dela a revolução chinesa; porque se afundou a Internacional Comunista e entrou em eclipse o movimento operário revolucionário no último meio século; por que meios corrompe a burguesia a consciência dos operários, ajudada pelo seu capataz pequeno-burguês; que natureza tem o novo capitalismo implantado na URSS e no Leste; porque é que os movimentos de libertação dos povos colonizados naufragaram num novo capitalismo sórdido; porque faliu a tentativa de reconstruir o movimento internacional marxista-leninista; como pode o proletariado libertar-se da hegemonia pequeno-burguesa, derrubar o Estado burguês e instaurar a sua ditadura de classe? É preciso, afinal, redescobrir com Lenine que sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário.

Procurar respostas marxistas actuais para o movimento operário actual é a única maneira de o proletariado readquirir o pensamento de classe que lhe falta e libertar-se da servidão política e ideológica a que a pequena burguesia o submete.

Recuámos tanto que hoje parece estranha, mesmo à maioria dos operários, a ideia de que o proletariado deva ter o seu pensamento independente, as suas próprias posições políticas. Os operários, como os restantes cidadãos, podem filiar-se num partido, votar livremente, informar-se na imprensa, protestar. Que mais lhes falta? Acontece, porém, que governos, parlamentos, partidos, tribunais, sindicatos, imprensa, todos dão como indiscutível a ordem social reinante. A burguesia reconhece o direito de mudança desde que sejam acatadas as regras do jogo que ela própria estabeleceu… O jogo está viciado e 1975 bem o mostrou. “POLÍTICA OPERARIA” surge precisamente para expor aos operários o direito que ninguém lhes reconhece – o direito à revolução. Em que se funda esse direito? Neste facto elementar: os produtores, que são o sustentáculo da sociedade, não riscam nada nas decisões de fundo, limitam-se a vender a sua força de trabalho, são joguetes das leis de acumulação do Capital.

Só afirmando o seu direito à revolução socialista pode o proletariado sair das trevas do reformismo e começar a intervir como força independente na luta de classes. É este o ponto de partida para uma política operária; é este o alicerce para aquilo que os operários avançados de Portugal procuram desde a revolução dos sovietes – um autêntico partido comunista.

Como se pode, nos dias de hoje, construir o partido e fazer a revolução em Portugal, é questão que não tem resposta fácil. É preciso procurá-la. Mas para a procurar é preciso começar por querer encontrá-la. Essa vontade não nos faltará.

O futuro de “POLÍTICA OPERÁRIA” depende do apoio dos operários que buscam respostas para a confusão política reinante na classe; dos sindicalistas que se esforçam por levantar o combate de classe contra classe; dos revolucionários que se empenham em renovar o marxismo como corrente de pensamento vivo e como instrumento de acção política; dos comunistas que não se conformam com as imitações grosseiras de partido comunista que por aí se vendem e aspiram a um partido à imagem dos bolchevistas russos.
É com todos esses que contamos, não apenas na qualidade de leitores, mas na de participantes activos, colaboradores, difusores, para relançar o debate sobre as questões verdadeiramente decisivas para a classe operária. Um debate que ajude a nascer uma corrente política imparável.

 

 

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