BE APRESENTA AS SUAS ALTERNATIVAS

Francisco Martins Rodrigues

O Bloco apresentou as suas “alternativas” numa sessão na Casa do Alentejo, em Dezembro, cabendo a Louçã, Portas e Fazenda as intervenções de fundo (Fernando Rosas, anunciado como um dos interventores, não compareceu e não foi dada qualquer explicação para o facto). As alterna­tivas do BE foram resumidas por Louçã em três questões: guerra, desemprego, Europa.


Da Europa encarregou-se Miguel Portas. O objectivo do BE é a “refundação democrática da Europa”. O BE quer “mais Europa e não menos Europa”, mas terá que ser uma Europa social, pacífica, respeitadora dos direitos hu­manos, etc. “Queremos uma Europa que invista mais na educação e na saúde e menos em armamento”. Aplausos. Levado pelo arrebatamento, Portas garante mesmo que “somos a única força europeísta!”.

Para não ter que ouvir as acusações de “saudosismo pas­sadista” que são atiradas ao PCP, o Bloco opta pela “crí­tica pela positiva” – somos os mais europeístas dos europeístas. Mas esta retórica ilude a pergunta óbvia: como se pode, a partir desta Europa imperialista, governada pelo grande capital, ferozmente inimiga dos direitos dos traba­lhadores, construir uma Europa “social”? A construção des­sa Europa “boa” não passa pelo derrube do capital? E se assim é, não significa isso que a oposição “refundacionista” em que o BE se especializou cumpre um papel de narcótico do descontentamento popular, prometendo o que não pode fazer – “refundar” a Europa sem derrubar esta Europa?

Coube a Louçã o discurso político de fundo. Cumpriu logo de entrada as suas obrigações, para não ser chamado reformista – “o Bloco luta pela revolução, luta pelo poder” – o que lhe permitiu passar depois tranquilamente a de­monstrar por que é o Bloco “a esquerda necessária”. Ópti­mo agitador, parlamentar talentoso, meteu umas farpas cer­teiras nas patifarias do governo, explorou os podres, citou casos de corrupção, aqueceu a assistência. Foi porém muito menos convincente quando teve que falar da resposta do movimento dos trabalhadores. Sobre o Código do Trabalho e a reforma do Rendimento Mínimo não conseguiu dizer me­lhor do que “destroem os fundamentos da solidariedade social”, fórmula católica que não é muito diferente dos ser­mões do Carvalho da Silva.

Luís Fazenda coroou a sessão com uma exposição da linha “Attac-progressista”, a última moda da esquerda que se quer “moderna”. É intolerável a subordinação das forças armadas europeias à NATO, não aceitamos o “uni­lateralismo” dos EUA (leia-se: “Viva o exército europeu in­de­pendente!”). A resistência iraquiana e palestiniana é legítima, mas condenamos veementemente os bárbaros aten­tados terroristas, etc. Por onde avançar então? “Hoje já não faz sentido essa velha mania da esquerda sobre o carácter de classe dos movimentos. Contra o império global podemos opor a força da opinião pública, a força dos fóruns sociais”. “A net pode vir a ser uma arma demolidora nas mãos da es­querda”…

Esta receita de chegar ao socialismo pelos fóruns e pela net exprime exemplarmente a esforçada autocrítica que a UDP vem fazendo do seu passado stalinista.

Houve também algumas notas de política prática. Primeiro, as referências ao PS: “Que faz o PS neste carro da Europa do Directório? – exclamou Portas. “Não percebe que isto mata a democracia? Como é possível que o PS se agache?” Increpações que arrancaram aplausos fáceis da assistência, sempre ansiosa pela suspirada “viragem à esquerda” do PS. O BE (tal como o PCP, mas ainda em maior grau) assenta a sua política na esperança de “descolar” uma “ala esquerda” do PS disposta a um “governo de esquerda”. E quando Portas exclamou, despertando aplausos entusiásticos, “O Bloco vai afirmar-se como o terceiro par­tido nacional”, ele exprimiu de forma cristalina o alvo que hoje mobiliza as vontades no BE: tornar-se um componente incontornável no leque dos partidos de governo.

Fazenda, pela sua parte, mencionou um outro objectivo de que não se fala muito mas que vai sendo trabalhado: a “ar­ticulação” em curso entre partidos da esquerda “moderna” (com destaque para a Refundação Comunista italiana). O Bloco, afirmou, está disponível para integrar um partido europeu que venha a formar-se.

O que significa, todas as contas feitas, que a “alter­nativa” do Bloco (a real, não a publicitária) consiste em: 1) ele­ger um deputado europeu; 2) ser reconhecido pelo PS como auxiliar indispensável na constituição de uma fu­tura maioria; 3) articular-se com a “esquerda moderna” europeia.

“Pode ser pouco, mas é melhor que nada”, filosofam os mili­tantes do Bloco. O pior é que estas mini-alternativas de ges­tão do sistema, que pretensamente seriam “mais acessí­veis” do ponto de vista capitalista, têm o defeito de ser ina­plicáveis, porque o capitalismo real não quer saber delas e os trabalhadores só teriam força para as impor se questio­nassem o sistema. Essa é que é a questão. “As reformas só surgem como subproduto da luta revolucionária”, dizia Lenine, e ele sabia do que falava.

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