“Aprender a lidar com os reformistas”

 

Francisco Martins Rodrigues

Apreciei a frontalidade com que M. Faria desenvolve os seus argumentos a favor do apoio eleitoral ao PCP e BE mas discordo de quase tudo o que escreve. Ele acha que deveríamos apelar ao voto nos candidatos do PCP e do BE para permitir que fossem para o governo em coligação com o PS. Desse modo, ou trairiam as suas pro­messas eleitorais, o que ajudaria os trabalhadores a perder ilusões e a deslocar-se para a esquerda, para o nosso campo, ou revelar-se-iam como revolucionários sinceros e aí a revo­lução iria de vento em popa.

Lembrando que o PCP e o BE fazem uma oposição mui­to mais efectiva ao grande capital e ao imperialismo do que a PO, remetida à sua quase nula influência (o que nin­guém poderá contestar), Faria defende que devemos “apren­der a lidar com os chefes reformistas de esquerda” e votar no PCP, “criticando-o nas suas vacilações”. Como recusa­mos fazê-lo, afirma que a nossa pequenez se deve a uma “linha táctica e estratégica rígida, isolacionista”, “fechados num casulo ‘anti-reformista’”, chama-nos anti-leninistas, anar­co-sindicalistas e ultra-esquerdistas e avisa-nos de que “abster-se é fazer o jogo da direita e perder qualquer credibi­lidade aos olhos da vanguarda operária”. É uma acusação pe­sada mas que não nos tira o sono. Tentarei dizer porquê.
Para clarificar as nossas diferenças, comecemos por afas­tar os falsos argumentos*. Há muitíssimas situações em que é útil e necessário aos comunistas concorrer às eleições ou apoiar outras candidaturas. O apoio à candidatura de Hum­berto Delgado teve efeito muito positivo no movimento anti­fascista dos anos 60. Quem o duvida? Tiveram efeitos positivos a candidatura da CDE em 1973, a concorrência da extrema-esquerda às eleições para a Constituinte, na Pri­mavera de 1975, o empenhamento na candidatura de Otelo à presidência, em 1976, as primeiras candidaturas da UDP às legislativas, às autarquias, etc.
Mas esses e outros exemplos não servem para o nosso ca­so actual. Tentar demonstrar que a PO deveria ter ajudado o PS a derrotar Freitas e Cavaco nas eleições presidenciais de 1986 e 2006, usando como termo de comparação as elei­ções de Fevereiro de 1936 em Espanha, em plena crise revolucionária, às vésperas do golpe fascista, não faz sentido. Não estamos a discutir situações históricas, como a concorrência dos bolcheviques às eleições no Verão de 1917, duran­te a crise revolucionária na Rússia, ou o conselho de Lenine aos comunistas ingleses para que fizessem um acordo eleito­ral com os trabalhistas contra os conservadores, em 1920 (aliás, sobre isso, já escrevi bastante nesta revista). Também não estamos agora a julgar os processos eleitorais na Vene­zuela, na Bolívia ou no Equador. Estamos a falar de tácticas eleitorais comunistas, em Portugal, hoje. E aqui, precisamen­te para não sermos mecanicistas, como reclama Faria, há que analisar a situação concreta.
Quem dirige a quem?

Faria reclama o apoio eleitoral ao PCP porque acredita que “só com o PCP no governo podemos esperar um cres­cimento significativo das lutas populares.” E dá como exem­plo os governos de Vasco Gonçalves, que teriam propiciado o auge da luta popular em 1975. Isto obriga-me a repetir o que escrevi no artigo anterior (PO nº 108): se olharmos para os factos temos que reconhecer que o processo é o in­verso. O gonçalvismo fez reformas no interesse do povo por­que as massas o empurraram e sustentaram no poder com a exigência de que realizasse as suas reivindicações. Apoiando (e contendo simultaneamente) as lutas populares, o gonçalvismo foi uma tradução imperfeita e transitória do caudal do movimento de massas, não o seu criador. Hoje, quando estamos claramente nos antípodas da agitação social que se viveu em 1974-75, não há qualquer perspectiva de se repetir um fenómeno semelhante: as massas não têm força nem convicção para elevar o PCP ou o BE, ou ambos, ao go­verno; e a burguesia não precisa deles lá; só a estorvariam. Parece-me evidente que Faria, ofuscado pelo aparente pro­tagonismo das instituições, vê de pernas para o ar a relação entre movimento de massas e governos em período de crise revolucionária.
Outro erro de apreciação de Faria é, em minha opinião, a sua visão idealizada da oposição que PCP e BE fazem ao poder actual. Esses partidos opõem-se à ofensiva antipopu­lar em curso, às guerras imperialistas, etc., mas, não sendo em­purrados por um vigoroso movimento de massas, man­têm a sua oposição nos limites do jogo parlamentar, do acei­tável para o sistema, do sonho de deslocar o PS ou uma parte dele para a esquerda. Estão amarrados por mil laços às instituições e, como escreveu uma vez Engels, “à força de mentirem ao povo, acabam por acreditar nas suas pró­prias mentiras”.
Ainda mais quando a presente avalanche do capital em bus­ca de soluções para a sua crise torna o sistema de poder bur­guês muito mais totalitário e enquadra mais rigidamente a esquerda parlamentar no aparelho de Estado. Assim como a social-democracia teve de evoluir para a direita para ser admi­tida na governação também o reformismo do PCP e do BE se vai tornando mais domesticado e integrado no sis­tema. Quando Faria escreve que “teoricamente, se o PCP e o BE obtiverem um dia a maioria dos deputados no parla­mento” poderão adoptar “as primeiras medidas da ditadura do proletariado” (!) reflecte uma incompreensão profunda da natureza social desses partidos e da situação que vivemos.
Não creio por isso que a nossa abstenção seja, nas condi­ções presentes, “fazer o jogo da direita e perder qualquer cre­dibilidade aos olhos da vanguarda operária”. Primeiro, porque a luta eleitoral entre a esquerda e a direita do regime ilude, não clarifica, as alternativas que se colocam às massas. E, segundo, porque não me parece que se possam considerar “de vanguarda” as tais dezenas de milhares de operários que votam no PCP e no BE. Constituem uma massa popular derrotada e em busca de protecção, que só pela interven­ção de uma força exterior poderá deslocar-se de facto para posições de vanguarda.
Começar pelo começo

Faria incorre, a meu ver, num erro muito comum no que resta da nossa esquerda revolucionária. Esses camaradas discutem com toda a seriedade a linha táctica correcta que os comunistas deveriam aplicar, como se estes já existissem co­mo força política real. Esquecem – o que é verdadeira­mente extraordinário – que não existe, nem sequer em esbo­ço, um campo proletário revolucionário no nosso país. Es­quecem que os comunistas dos diversos países, entre os quais nos contamos, ainda estão a procurar reformular um programa e uma linha política no meio dos escombros dei­xados pela agonia do movimento do século XX.
Em vez de olhar de frente o grande recomeço que nos é imposto pelas transformações da luta de classes mundial, esses camaradas caem numa busca ansiosa de fórmulas tácticas que, como por milagre, nos devolvessem a influência pas­sada. Isso não existe. Nada pode substituir a reconsti­tuição do comunismo revolucionário e este só renascerá de uma real vanguarda proletária desejosa de ajustar contas com a burguesia, animada por um projecto de tomada do po­der. Nada pode substituir o trabalho directo dos comunistas entre as massas exploradas, pelas suas reivindicações dia­riamente desprezadas.
E aqui chego o último ponto desta nota. Atribuir aos co­munistas, nesta situação caótica, capacidade para tirar pro­veito de manobras eleitorais é sonhar acordado. Se forças de esquerda, sem programa, sem intervenção política, sem im­plantação, apelarem ao voto no PCP ou no BE, tornar-se-ão, por muito que não o queiram, simples satélites desses partidos. A ânsia de inverter a relação de forças pelo recurso ao apoio aos reformistas, sem se dispor de forças próprias, conduz em linha recta à capitulação perante o reformismo – eu sei que para Faria este é mais um palavrão “este­reotipado”, mas depois de tanta experiência desastrosa não posso dispensá-lo.

 

* Não vou aqui comentar o devaneio de Faria sobre os ciclos de 84 anos que anunciariam uma viragem à direita em Portugal exactamente no ano 2010. Nem a sua defesa da “possibilidade de passagem relativamente pací­fica ao socialismo”. Nem a opinião de que Chávez está a “orientar pacifica­mente a Venezuela para um socialismo híbrido” e que o vice-presidente venezuelano “até pode ser um Lenine”. É tudo demasiado ingénuo para se poder discutir.

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