Correntes marxistas no século XX

Francisco Martins Rodrigues
Exposição feita a 17 de Junho de 2007 em Compostela, a convite da Primeira Linha, para um grupo de jovens militantes da organização juvenil BRIGA.

Reproduzem-se os tópicos essenciais.

Neste breve panorama das correntes marxistas no século XX distingo cinco grandes correntes: social-democracia, bolchevismo, stalinismo, revisionismo e maoísmo. De passagem, farei referência a duas outras correntes que considero derivadas: o conselhismo e o trotskismo.

A social-democracia tem o seu período áureo em finais do século XIX, com a formação da II Internacional. Corresponde à fase de implantação do marxismo no movimento operário europeu. Partidos social-democratas alargam o direito de organização sindical, criam cooperativas e jornais operários, ganham posições nos parlamentos… Mas esta acumulação inicial de forças, em período de crescimento pacífico do imperialismo europeu, em breve revela a doença que a corrói: o aproveitamento das possibilidades legais, em convivência com as instituições burguesas, apaga nos partidos a perspectiva revolucionária que lhes fora legada pela Comuna de Paris. Os social-democratas passam a ser uma ala direita do movimento operário, cujos militantes mais combativos aderem ao anarco-sindicalismo. O mais destacado teórico da Internacional, Bernstein, resume esta domesticação do marxismo com a fórmula “as conquistas imediatas são tudo, o objectivo final não é nada”. Vozes isoladas, como a de Rosa Luxemburg e Bebel, alertando que se está a fazer uma revisão reformista da teoria de Marx não são ouvidas.

Assim, quando as grandes potências se lançam na primeira matança mundial, para repartir os territórios coloniais, cada um dos grandes partidos marxistas alinha atrás da sua burguesia; os socialistas franceses e alemães vão-se matar uns aos outros em “defesa da pátria”. Passando definitivamente para o campo da burguesia, os chefes social-democratas esmagam a revolução operária alemã de 1918, atacam a União Soviética, defendem expedições coloniais, etc. Em poucos anos, o imponente edifício da social-democracia desmorona-se sobre a cabeça do proletariado. A primeira grande corrente marxista passa a ser uma corrente burguesa para operários. De degeneração em degeneração, torna-se ao longo do século XX um dos principais partidos da burguesia e do imperialismo.

O bolchevismo, o novo movimento comunista animado por Lenine na Rússia desde 1903, alastra ao mundo inteiro com o triunfo da grande revolução russa de 1917 e com a criação da III Internacional. O efeito electrizante causado pelo levantamento de centenas de milhões de pobres que expropriam os capitalistas e criam o governo dos conselhos dá um impulso como nunca se vira ao movimento marxista. A burguesia vive no pavor do bolchevismo.

Com razão, porque este leva as grandes ideias novas da revolução social a todos os recantos do mundo: a política diária tem que ser orientada para a meta da conquista do poder, da ditadura do proletariado, do internacionalismo proletário. O proletariado tem que criar um partido de combate para a revolução, não um partido parlamentar. Os aliados internos do proletariado são os camponeses e os pobres das cidades, não a burguesia democrática. Os aliados externos são os povos oprimidos e coloniais, até aí desprezados.

Na esteira da vitória bolchevique formam-se dezenas de partidos comunistas que chamam a si o melhor da base social-democrata e anarco-sindicalista. Porém, ao longo dos anos 20, o optimismo inicial não se confirma. As tentativas revolucionárias na Europa Oriental e na China são esmagadas. Os comunistas descobrem que o feito dos bolcheviques foi possível em condições muito diferentes das dos seus países. O capitalismo recompõe-se. A União Soviética, depois de ganhar a guerra civil e repelir a invasão, está no caos: o proletariado não tem força para exercer o poder, a pequena burguesia levanta a cabeça, os sovietes definham. Ainda em vida de Lenine, as concessões forçadas à pequena burguesia levam à concentração do poder no partido, que se burocratiza e cuja democracia interna é sufocada. Em finais dos anos 20, na URSS e no mundo, o bolchevismo perdeu muito do seu vigor inicial. O seu esplendor durou só uma década.

Uma das consequências do esgotamento da revolução na Rússia é o aparecimento do conselhismo, que chega a ter alguma influência na Alemanha, Holanda, etc. O seu traço principal é atribuir à intervenção dirigente do partido comunista a culpa pelo declínio dos sovietes. Atribuem a causas organizativas uma crise que tem raízes sociais. Como seria de esperar, este marxismo “antipartido” nunca lhes permite ganhar influência de massas e leva-os a cair mais tarde na área da social-democracia.

O stalinismo assume em meados dos anos 20 a direcção do movimento comunista internacional. Afirma-se continuador do leninismo na nova conjuntura e, perante a ameaça de assalto imperialista, subordina os movimentos operário e de libertação nacional à preservação do poder na URSS. Esta política de emergência conduz à máxima concentração do poder no partido e no seu líder supremo, numa espécie de campanha militar para enfrentar os inimigos.

Na URSS, Staline rompe o impasse da NEP decretando o avanço para o socialismo a marchas forçadas. Em termos materiais, o êxito é espectacular: grande indústria, agricultura moderna, educação, saúde, exército poderoso… O “país dos sovietes” é reconhecido como uma potência, mas à custa de uma repressão em massa (deportação de milhões de camponeses). Um poder autocrático e arbitrário elimina os últimos vestígios da democracia soviética, da liberdade de criação, da legalidade. Ao mesmo tempo que se proclama socialista, a União Soviética torna-se um capitalismo de Estado, governado por aparatchiks que se vão lentamente consolidando como uma classe exploradora.

O partido, arregimentado como uma máquina de poder, já nada tem de comum com o velho partido bolchevique. O Terror de 1936-1938 salda-se por 1,5 milhões de detidos numa demencial “caça às bruxas”, 700.000 executados, milhões mandados para o Gulag, onde grande parte morre de privações.

Ao incutir no proletariado internacional a ideia do socialismo como um regime militarizado e de pensamento único, sem sombra de poder proletário, o regime “soviético” provoca uma brutal regressão do marxismo, de que ainda hoje sofremos as consequências.

Internacionalmente, isso não se sente de imediato, devido ao prestígio da grande revolução e à oposição determinada da direcção stalinista ao fascismo e à nova guerra que se anuncia. Mas a sua condução da Internacional Comunista impõe aos partidos uma política cada vez mais distante da tradição bolchevista. Na China, depois em Espanha, a aliança do Partido Comunista com a burguesia nacionalista causa grandes desastres. Em meados dos anos 30, tentando convencer as democracias burguesas a resistir à expansão nazi, a Internacional proclama uma política oportunista de “Frente Popular” (Dimitrov), que entrega a maioria dos PC ao domínio do reformismo e do nacionalismo. Às vésperas da guerra, Staline tenta desviar o agressor concluindo uma aliança com ele. Por fim, em 1943, para obter um acordo com os aliados imperialistas ocidentais, aceita a dissolução da Internacional Comunista.

No fim da guerra os tremendos sacrifícios humanos consentidos pela União Soviética para esmagar a barbárie nazi dão a Staline e ao movimento comunista internacional o auge do poderio e influência. Instauram-se “democracias populares” na Europa Oriental, triunfa a revolução na China. Na Coreia, depois no Vietname, uma resistência de massas nunca vista conduz ao fracasso as aventuras imperialistas. À morte de Staline, o “campo socialista” abarca um quarto da humanidade e regista um crescimento económico espectacular. Na França, Itália, Indonésia, o PC é o maior partido e parece prestes a chegar ao poder.

Mas a União Soviética cuida agora exclusivamente dos interesses da sua nova burguesia de Estado ascendente. As direcções dos PC praticam o reformismo e obedecem incondicionalmente a Moscovo, num clima interno de dogmatismo asfixiante. O stalinismo, essa longa agonia do bolchevismo, explode em dois ramos opostos: primeiro o revisionismo, depois o maoísmo. Antes, uma curta referência a um outro ramo lateral da árvore marxista: o trotskismo.

Trotskismo. A sua influência internacional cresceu à medida que este dirigente da revolução russa fez a denúncia pioneira da burocratização e dos crimes do stalinismo. Contudo, as concepções de Trotski quanto à ditadura do proletariado e ao socialismo eram muito semelhantes às de Staline. A sua pretensão de criar um centro mundial a partir do qual se construíssem os partidos dos vários países deu origem a uma grande rigidez estratégica, a manobras tácticas sem princípios e a um fraccionismo permanente. Polemista brilhante, o seu assassinato, às ordens de Staline, criou-lhe uma aura imerecida de “bolchevique”, desmentida por um alinhamento frequentemente próximo da social-democracia.

Como as outras correntes, o trotskismo veio dividindo-se em tendências muito diversas, sobretudo depois que a União Soviética passou pacificamente ao capitalismo sem se darem as “revoluções antiburocráticas” previstas por Trotski.

O revisionismo moderno (assim chamado pelas suas afinidades com o revisionismo de Bernstein) torna-se dominante com o XX Congresso da PCUS (1956). Sob a pressão económica, militar e ideológica crescente do campo imperialista (Guerra Fria), a direcção da URSS tenta ganhar espaço. A coberto da denúncia dos “crimes de Staline” (que são os seus próprios), anuncia uma nova linha geral de “coexistência pacífica” (na realidade de conluio) com o imperialismo, prega a aliança dos partidos comunistas com a social-democracia, acena com a possibilidade de “passagem pacífica e parlamentar ao socialismo”. Procura acabar com a corrida aos armamentos que sobrecarrega a economia, adopta uma atitude conciliatória com o imperialismo americano e europeu e a social-democracia, ao mesmo tempo que apoia as burguesias nacionalistas, em nome de um novo “socialismo” terceiro-mundista.

Na URSS, o revisionismo inicia a transição do capitalismo estatal ao capitalismo pleno, com a introdução de mecanismos de mercado para tornar as empresas rentáveis, a legalização da concorrência, a justificação dos privilégios dos quadros, técnicos e intelectuais sob o nome de “ditadura de todo o povo”, etc.

Nesta nova estratégia, os partidos comunistas são despromovidos ao estatuto de meros agentes da política externa “soviética”. Kruchov tem ainda menos cerimónia com os “partidos irmãos” do que Staline: põe, dispõe, muda direcções, joga o destino da revolução cubana com a aventura dos mísseis. As tendências reformistas nos partidos comunistas afirmam-se à luz do dia. Um exemplo que bem conhecemos: a proposta do afastamento pacífico dos ditadores em Espanha e Portugal. A catástrofe da Indonésia (meio milhão de mortos num banho de sangue fascista) tem grande responsabilidade da União Soviética.

O revisionismo, resultante de uma aliança entre a burguesia de Estado da União Soviética e a aristocracia e burocracia operária dos centros imperialistas, cumpre a função de dissolver nas fileiras marxistas as últimas resistências à ideologia da prosperidade ininterrupta que seria oferecida pelo capitalismo moderno. Esta degradação tem como consequência a ruptura do PC da China e a emergência da corrente internacional do maoísmo.

Maoísmo. Por meados dos anos 50, espalha-se no mundo a história fabulosa do PC China, a guerra camponesa prolongada, a teoria militar de Mao, a Longa Marcha, a revolução agrária. A China impulsiona a conferência de Bandung e o movimento dos não-alinhados, que se opõe aos EUA. Em 1960 o PC China abre fogo sobre o revisionismo moderno, denuncia a política externa da União Soviética e o oportunismo dos grandes partidos europeus, apela ao retorno ao leninismo, à luta anti-imperialista. Embora incapaz de analisar o papel do stalinismo e as causas da degenerescência da União Soviética, esta linguagem nova que apela às massas e à confiança revolucionária, rompe com o podre ambiente de colaboração de classes e de conciliação com o imperialismo em que se afundava o movimento comunista internacional. O triunfo da revolução cubana e, no caso europeu, o Maio 68, reforçam uma onda de retorno ao marxismo.

Contudo, se as ideias, estribilhos e preceitos morais de Mao ganham enorme popularidade nas regiões onde há grandes massas camponesas oprimidas, sobretudo na Ásia e América Latina, elas penetram pouco no proletariado europeu e norte-americano, onde tinham escasso campo de aplicação, assumindo aí uma base estudantil e intelectual, idealista e voluntarista, entrelaçada com o guevarismo.

Em breve vêm ao de cima as contradições do maoísmo, reflexo das contradições em que se debate a revolução chinesa. À medida que cresce o poderio e a influência internacional da China, agudiza-se no partido a luta entre uma ala esquerda, que quer fazer avançar a revolução, com o movimento das comunas populares e depois com a “revolução cultural proletária”, e a ala direita, que quer seguir o exemplo do capitalismo de Estado da URSS. Mao desloca-se da esquerda para o centro. Depois de alguns anos de uma situação caótica, com “guardas vermelhos” a lutar uns contra os outros, a corrente revolucionária é esmagada pelo exército nos combates sangrentos que põem termo à revolução cultural. A política externa da China, ainda em vida de Mao, esquece os apelos internacionalistas de 1960 e torna-se cada vez mais nacionalista. Depois do triunfo da via capitalista, a China declara a União Soviética como o “maior inimigo dos povos de todo o mundo” e alia-se ao campo imperialista.

Este descalabro produz pelo mundo fora duas correntes maoístas, uma de esquerda, anti-imperialista, outra de direita, de tipo social-democrata. É o descrédito internacional do maoísmo. Em desespero, uns tantos partidos “marxistas-leninistas” agarram-se à teoria oficial albanesa da reabilitação integral do stalinismo. O resultado é a defesa de um partido e de um “socialismo” de quartel e por fim, com a “queda do Muro”, a capitulação perante a corrente revisionista com que tinham rompido vinte anos antes.

Conclusão

Pode parecer-vos este panorama uma sucessão de desastres e fracassos. Não se vê nele nenhuma marcha triunfal para o comunismo. Contudo, se seguirmos a marcha do marxismo no século XX, vemos como ele esteve presente em tudo o que houve de revolucionário e avançado. O progresso social destes cem anos é inseparável da acção e do pensamento dos marxistas, dos comunistas.

E o marxismo, pela sua parte, alimentou-se das revoluções. As sucessivas correntes marxistas ascenderam com os grandes levantamentos dos oprimidos, declinaram e decompuseram-se nas épocas de contra-revolução ou de marasmo. A II Internacional nasce da Comuna de Paris, a sua degenerescência acompanha a corrida dos imperialismos para a primeira disputa mundial; o salto em frente do bolchevismo alimenta-se da grande revolução russa; o fracasso dessa revolução provoca a degenerescência stalinista; uma nova grande revolução, na China, produz a emergência maoísta, que por sua vez se afunda com o fracasso desta…

Isto põe em causa, desde logo, a noção, muito comum, de que o progresso do marxismo dependeria em primeiro lugar de grandes figuras, de génios. Está provado que o marxismo não se dá bem com figuras sagradas e textos sagrados. Ele depende acima de tudo dos grandes movimentos sociais dos oprimidos. (Uma contraprova disto são os variados “marxismos” menores, produzidos por movimentos nacionais burgueses, que nunca conseguem abarcar as grandes linhas da luta de classes).

Mas isto levanta outra questão: porque teve que haver esta sucessão de avanços e recuos? Porque razão as grandes revoluções populares que marcaram o século XX, dirigidas pelos comunistas e orientadas para a ditadura do proletariado e para o socialismo, não conseguiram ir além de um desenvolvimento capitalista sob comando do Estado e acabaram em capitalismo puro e simples? O marxismo tropeçou neste obstáculo e as respostas até hoje apresentadas são… pouco marxistas. As dezenas de partidos que hoje se reivindicam do leninismo, do stalinismo, do maoísmo, do trotskismo, dispõem de reduzidíssima influência, justamente porque querem responder aos desafios do presente sem ter uma resposta para o passado: Porque se tornaram a URSS, depois a China, capitalistas? Como pôde o movimento comunista tornar-se, em bloco, reformista? Eu diria, muito brevemente, que na Rússia como na China, ou em Cuba, ou no Vietname, a base económico-social ainda não permitia a passagem ao socialismo. Mas este poderá ser tema para outra conversa.

A actual fase de tacteamento pode ainda durar alguns anos. Ultrapassá-la depende da crítica. Marx disse uma vez que “é precisa uma crítica implacável de tudo o que existe, uma crítica que não tenha medo das suas próprias conclusões”. Isto não se aplica só à crítica do capitalismo. Aplica-se também à crítica do nosso próprio caminho.

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