O acordo da vergonha

Francisco Martins Rodrigues
Política Operária
5 de Agosto de 2007

 

Inesperado e chocante para muitos apoiantes do Bloco de Esquerda, o acordo assina pelo vereador Sá Fernandes com António Costa está na lógica do curso político do BE.

As justificações com que procura cobrir-se não resistem à mínima análise. A desculpa de que Sá Fernandes negociou à revelia da direcção do Bloco cai pela base: se violou compromissos assumidos, porque não é publicamente desautorizado pela direcção do BE? É óbvio que negociou porque lhe foi dada liberdade de acção para tal.

Garante-se, por outro lado, que o vereador do BE vai “obrigar” António Costa a adoptar, para além de programas difusos e mais ou menos líricos, medidas de contenção das rendas de casa. Falta saber quando isso acontecerá e quem beneficiará dessas medidas. E falta saber sobretudo, as contrapartidas que o BE terá que pagar quando chegar a hora de fazer face à escabrosa questão das finanças municipais e tiverem que ser votados os esperados “sacrifícios”: privatização de serviços, cortes de pessoal, cortes de regalias, regime de precários, etc.

Toda a pessoa minimamente sensata percebe que este acordo serve o governo, não a oposição popular. Forçado a encontrar parceiros devido à sua escassa votação, o PS optou por utilizar o aliado mais dócil e mais interessante para o futuro. Porque este acordo abre, a médio prazo, perspectivas para um acordo de governo em 2009, se o PS não obtiver, como tudo indica, maioria absoluta nas legislativas.

O acordo assinado na Câmara de Lisboa tem que ser lido como um primeiro passo para a entrada do BE na área governativa – o sonho há muito acalentado por Miguel Portas, Louçã e Fazenda e que só os muitos ingénuos ignoram.

Na última P.O., fazendo o balanço da V convenção bloquista, recomendávamos ironicamente: “É bom que o PS comece a olhar com mais atenção para este ‘irmão mais novo’, com vista a futuros arranjos de governo” porque “esta convenção marca a entrada do BE na idade adulta, como partido do sistema, perna esquerda da social-democracia”. Parece que não errámos.

Aliás, a deriva em que o Bloco está a ser arrastado é comum a todo o arco da esquerda institucional, PCP incluído. Estes partidos reduziram toda a sua estratégia ao apelo “Dêem-nos mais deputados para podermos, dentro deste sistema, ir para o poder e governar melhor, com mais honestidade, respeito pelos interesses nacionais, atenção aos
desprotegidos, etc., etc.”.

Acontece, porém, que nesta época de brutal ofensiva capitalista, a tradicional margem de regateio de que se alimentava o discurso reformista está reduzida a zero. Agora só vão para o poder os partidos que dêem garantias de melhor servir o mundo dos negócios ao mais baixo custo – caso do PS. Começa a ser muito difícil convencer alguém de que a “esquerda construtiva”, PCP e BE, alguma vez chegue ao governo, a não ser que cumpra as exigências do capital.

Chegámos a um ponto em que aqueles que têm jogado a carta do reformismo votando PCP ou BE se perguntam que utilidade tem esse voto. E isto anuncia a bancarrota da utopia de um capitalismo domesticado.

O acordo do BE com o PS só agrada àqueles militantes que perderam todo o espírito de resistência e que se sentem tanto melhor quanto mais integrados no sistema. Àqueles, pelo contrário, que conservam o desejo de mudar esta sociedade feroz, dizemos: Foram anos perdidos os anos gastos a apoiar a miragem reformista. É hora de iniciar um real reagrupamento à esquerda. É hora de retomar a luta unida da esquerda real, a esquerda anticapitalista. Estamos ao lado de todos os que quiserem trilhar esse caminho.

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