Marxismo e terrorismo

Francisco Martins Rodrigues

Sob o título “Que dizem os marxistas sobre o terrorismo?”, o jornal Solidaire, do Partido do Trabalho da Bélgica, reuniu, na sua edição de 15 de Dezembro, algumas citações de Marx e de Lenine, para mostrar que ambos condenaram os métodos terroristas de luta. Assim, diz o jornal, será mais fácil separar aquilo que “na luta dos iraquianos e palestinianos deve ser considerado como resistência e o que deve ser considerado como terrorismo”. Vejamos então aquilo que, segundo o Solidaire, Marx e Lenine aprovam e o que não aprovam na luta actual de iraquianos e palestinianos.

A citação de Marx consiste numa curta passagem de um artigo de 1857, na qual são descritas como “horripilantes, hediondas e indizíveis” as atrocidades cometidas pelos cipaios indianos (os soldados indígenas) durante uma revolta contra os colonialistas ingleses. As citações de Lenine, por sua vez, condenam os atentados como táctica e indicam a necessidade de o proletariado russo emprender o caminho da acção revolucionária de massas.
Daqui deduzirão os leitores do jornal belga que “o marxismo condena sem apelo o terror individual” – o que pode ser reconfortante para quem receia ver-se acusado de “cúmplice dos terroristas”, mas não corresponde à verdade. De facto, a posição marxista sobre o assunto é muito diferente do que nos quer fazer crer o Solidaire.
Começando por Marx, cuja citação é de tal modo abreviada que fica desfigurada, vejamos o que este escreveu na passagem em questão:

“Os excessos cometidos pelos cipaios revoltados são de facto horripilantes, hediondos, indizíveis, como é de esperar nas guerras de insurreição, de nacionalidades, de raças, e sobretudo de religião; numa palavra, são iguais àqueles que a respeitável Inglaterra costumava aplaudir quando eram perpetrados pelos vendeanos contra os “Azuis”, pelas guerrilhas espanholas contra os ímpios franceses, pelos sérvios contra os seus vizinhos alemães e húngaros, pelos croatas contra os rebeldes de Viena, pela guarda móvel de Cavaignac ou os décembriseurs* de Bonaparte sobre os filhos e filhas da França proletária. Por muito infame que seja a conduta dos cipaios, ela é apenas um reflexo concentrado da conduta da Inglaterra na Índia, não apenas durante a época da fundação do seu Império oriental, mas mesmo durante os últimos dez anos da sua longa dominação. Para caracterizar essa dominação, basta dizer que a tortura fazia parte orgânica da sua política fiscal. Existe na história humana algo que se assemelha à retribuição; e é uma regra da retribuição histórica que os seus instrumentos sejam forjados não pelos ofendidos mas pelos próprios ofensores”.
(K. Marx, A revolta indiana. Escrito em Londres em 4 de Setembro de 1857, Marx-Engels Archive).

Marx considera pois que os actos de terror dos indianos revoltados são apenas “um reflexo concentrado da conduta da Inglaterra”, são uma “retribuição histórica” do ofendido ao ofensor – o que significa, muito simplesmente, que a barbárie do oprimido é um reflexo da barbárie do opressor e que não há lugar para condenações morais, sobretudo por quem está no campo desse mesmo opressor. É o que Engels expõe com limpidez cristalina e de forma mais desenvolvida, num outro artigo escrito nesse mesmo ano, a propósito da guerra que os ingleses conduziam contra a China – e que o Solidaire bem poderia ter citado, para elucidar os seus leitores. Reproduzimos em caixa um trecho, que parece escrito para a situação actual.
Mais chocante é ainda, se possível, a versão que nos é dada de um Lenine oposto à violência e ao terror. Lenine travou uma áspera luta para emancipar os trabalhadores da ilusão de que poderiam ser libertados pelos conspiradores, mas sublinhou sempre o papel que os atentados individuais e os actos de terror podem desempenhar na luta dos oprimidos, em circunstâncias determinadas. Mesmo não nos referindo ao período da guerra civil, quando a ditadura do proletariado na Rússia soviética teve que se bater em condições inimagináveis contra o terror branco, abundam nos escritos de Lenine referências iniludíveis a este respeito. Eis como comenta em 1906 os atentados e assaltos à mão armada que se desenrolavam um pouco por toda a Rússia, depois da derrota da insurreição de Moscovo:

“Habitualmente, a apreciação desta forma de luta resume-se a considerá-la como anarquismo, blanquismo, um retorno ao antigo terrorismo, como actos de indivíduos que perderam todo o contacto com as massas, que desmoralizam os operários, afastam deles as simpatias de largas camadas da população.”
Cita, contra esta ideia, exemplos de atentados e assaltos levados a cabo por organizações do seu partido e acrescenta: “O antigo terrorismo russo era obra de intelectuais conspiradores; hoje, a luta de guerrilha é realizada, em regra,por militantes operários ou simplesmente por operários sem trabalho”. “Quando vejo social-democratas a declarar de modo altaneiro ‘Não somos anarquistas nem ladrões, não participamos em pilhagens, estamos acima disso, não entramos em guerras de guerrilhas’, pergunto-me se eles sabem o que dizem. Por todo o país, travam-se escaramuças e combates entre o governo das Centúrias Negras e a população. É um fenómeno absolutamente inevitável, dado o grau a que chegou a nossa revolução. De forma espontânea, sem organização – e justamente por isso, frequentemente pouco hábil, feita de maneira errada – a população reage por acções violentas, por ataques à mão armada”. Etc.
(Lenine, “La guerre de partisans”, Oeuvres, tomo 11, pp. 215-226, 30 de Setembro de 1906. Ed. du Progrès, Moscovo).

É bem conhecida a opinião de Lenine de que um dos principais erros da Comuna de Paris terá sido “a demasiada magnanimidade do proletariado; em vez de exterminar os inimigos, procurou exercer uma influência moral sobre eles, negligenciou a importância das acções puramente militares na guerra civil”. (Oeuvres, tomo 13, p. 500). E em 1916, quando certos socialistas condenam como um putsch a malograda revolta de Dublin contra a Inglaterra, escreve:

“Só se pode falar de putsch quando a tentativa de insurreição revela apenas um círculo de conspiradores ou de maníacos absurdos, e não desperta qualquer eco nas massas”, o que não é de modo nenhum o caso da Irlanda, em que o levantamento surge na sequência de uma longa história de luta”.
(Oeuvres, tomo 22, pp. 382-383)

Como vemos, o Solidaire incorre na pecha, hoje generalizada, de matizar e adoçar o pensamento dos fundadores do marxismo, dando-lhes uma coloração inócua, moderada, “respeitável”, que nada tem a ver com a ruptura que as suas ideias trouxeram. E é levado a distorcer os pontos de vista de Marx e Lenine para tentar iludir a questão espinhosa que está posta aos comunistas e anti-imperialistas em geral: devemos condenar os atentados, raptos e outros actos de terror que iraquianos e palestinianos realizam contra os ocupantes?
Por muito que custe ao Solidaire, o marxismo aprova esses actos. Defendendo em todos os casos a ampliação da luta de massas como única via revolucionária, os marxistas sublinham: 1º) que a luta de massas não é sinónimo de acção puramente pacífica mas que, pelo contrário, evolui, nos momentos decisivos, para a guerra civil; 2º) que a luta dos oprimidos pode assumir formas muito variadas, porque “a revolução social é um fenómeno vivo” (Lenine). Isto significa que não é admissível condenar uma resistência efectiva ao opressor só porque ela não é a idealmente preferível. Sobretudo, nós, marxistas dos países imperialistas não podemos arvorar-nos em juízes dos métodos de luta dos que estão a ser massacrados pela nossa própria burguesia. Entrar por esse caminho é, na prática, trocar a solidariedade com os povos oprimidos pelo chauvinismo.

* Décembriseurs, neologismo fabricado a partir das palavras Décembre e briseurs, ou seja, arruaceiros dezembristas. A “Sociedade Filantrópica 10 de Dezembro”, verdadeiro exército privado de Louis Bonaparte, provocou um massacre em Paris, quando do golpe de Estado de Dezembro de 1851, que o elevou à dignidade de imperador. Ver a propósito O 18 Brumário de Louis Bonaparte, de K. Marx, especialmente o capitulo V.

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