A corrente M-L em Portugal

 

Francisco Martins Rodrigues

Notas da intervenção no café Cem Medos em ‬Lisboa,‭ ‬Abril de 2006‭

A corrente M-L,‭ ‬nascida há‭ ‬40‭ ‬anos e que a certa altura‭ ‬chegou a ser quase um papão para a burguesia,‭ ‬entrou em declínio acelerado a partir de‭ ‬1978-80‭ ‬e acabou por se extinguir.‭ ‬A UDP actual,‭ ‬constituinte do Bloco,‭ ‬já não tem nada a ver com a sua origem,‭ ‬a não ser o nome.‭ ‬O saldo‭ ‬que essa corrente‭ ‬deixou não é bonito de se ver,‭ ‬com‭ ‬os‭ ‬seus‭ ‬mais destacados‭ ‬militantes‭ ‬de outros tempos‭ ‬a fazer penitência pelo seu passado,‭ ‬quando não se‭ ‬converteram em porta-vozes da burguesia.


Surgiu daqui a ideia de que a própria origem da corrente M-L‭ (‬a crítica‭ ‬chinesa e‭ ‬albanesa à União Soviética‭) ‬seria a causa do descalabro posterior.‭ ‬Há quem diga que o‭ ‬mal estaria na própria ruptura.‭ ‬Isto é esquecer o‭ ‬podre‭ ‬ambiente de colaboração de classes‭ ‬e de conciliação com o imperialismo em que se afundava‭ ‬o movimento comunista internacional em fins dos anos‭ ‬50‭ ‬e o‭ ‬papel histórico que desempenhou a crítica anti-revisionista lançada pelo PC da China‭ ‬para reagrupar os comunistas.‭ ‬Sem o‭ ‬ânimo‭ ‬revolucionário renovado criado por‭ ‬essa ruptura‭ (‬e também pela revolução cubana e,‭ ‬depois,‭ ‬pelo Maio‭ ‬68‭) ‬teria sido impensável‭ ‬o surgimento da corrente M-L em‭ ‬Portugal.‭ ‬Essa herança anti-revisionista não é para deitar fora.
Mas a corrente M-L portuguesa‭ ‬não foi um produto de importação.‭ ‬Teve raízes internas.‭ ‬Nasceu do‭ “‬aquecimento‭” ‬da luta de classes que se começou a sentir na fase final da ditadura‭ (‬candidatura‭ ‬Humberto Delgado,‭ ‬guerras coloniais‭)‬.‭ ‬Em meados dos anos‭ ‬60,‭ ‬a linha política do PCP,‭ ‬até aí aceite sem grandes‭ ‬objecções,‭ ‬começou a ser contestada pela esquerda:‭ ‬afinal vamos só ajudar os democratas e os‭ ‬oficiais‭ ‬do exército‭ ‬descontentes a substituir a ditadura por uma democracia burguesa,‭ ‬ou vamos aproveitar a queda do fascismo para abanar até aos alicerces o regime burguês‭? ‬O papel dos comunistas é dar o corpo ao manifesto para proveito da burguesia democrática ou devemos conduzir as massas à rebeldia‭?‬ Os aliados do proletariado são os burgueses descontentes ou são os camponeses e os povos coloniais‭?
Isto foi considerado‭ ‬por muita gente‭ ‬na altura‭ (‬e é ainda hoje‭) ‬como loucura ultra-revolucionária,‭ ‬esquerdismo,‭ ‬verbalismo radicalista,‭ ‬etc.‭ ‬Mas era isto que a vida punha‭ ‬na ordem do dia.‭ ‬Os M-L deram uma pedrada no charco da‭ “‬sensatez‭” ‬tradicional da nossa esquerda,‭ ‬do seu conformismo e tacanhez de espírito,‭ ‬do seu horror pequeno-burguês aos‭ “‬excessos‭”‬.‭ Criaram um‭ ‬novo‭ ‬clima‭ ‬de optimismo‭ ‬revolucionário.‭ ‬E isso também não devemos deixar que seja deitado fora a pretexto dos fracassos que vieram depois.
O contributo dos M-L para a queda do fascismo foi modesto,‭ ‬fez-se sentir sobretudo na luta contra a guerra colonial.‭ ‬Vimos como era difícil formar uma nova corrente política na clandestinidade‭ (‬prisões,‭ ‬grupos desconfiados uns dos outros,‭ ‬mentalidade de seita,‭ ‬etc.‭)‬.‭ ‬Mas a‭ ‬explosão popular que se deu no‭ ‬25‭ ‬Abril trouxe-nos um grande impulso.‭ ‬Veio provar aquilo que dizíamos:‭ ‬as massas procuravam espontaneamente aproveitar a paralisia do poder de Estado para ganhar posições,‭ ‬impor os seus direitos.‭ ‬O nosso envolvimento nas acções de ponta‭ (‬lembro aqui,‭ ‬entre outras,‭ ‬a marcha da Lisnave de Setembro‭ ‬74,‭ ‬o boicote ao congresso do CDS‭ ‬no Porto,‭ ‬em Janeiro de‭ ‬75,‭ ‬a manifestação‭ ‬contra a NATO de Fevereiro‭ ‬75,‭ ‬o assalto à embaixada de Espanha de Agosto‭)‬ foi do que‭ ‬de‭ ‬mais positivo se fez naquela altura.‭ ‬O que interessava era‭ ‬alargar as conquistas,‭ ‬estreitar o campo da direita‭ (‬já então chefiado,‭ ‬é bom lembrá-lo,‭ ‬pelo‭ ‬PS‭) ‬e dificultar a restauração burguesa.‭ ‬“Mas então queriam fazer a revolução,‭ ‬tomar o poder‭?” ‬Esta objecção,‭ ‬geralmente feita pelos militantes da área do PCP,‭ ‬revela‭ ‬o seu reformismo.‭ ‬Acham que enquanto não chegar a hora marcada pelo‭ ‬Partido para a‭ ‬tomada o poder,‭ ‬as massas não se devem‭ “‬tresmalhar‭”‬.‭ ‬Ora,‭ ‬quando o poder está fraco e os oprimidos despertam,‭ ‬o nosso papel é alargar o mais possível o rasgão nas instituições,‭ ‬aumentar a ousadia das massas,‭ ‬desestabilizar o sistema.‭ ‬Até onde chegaremos,‭ ‬só depois se sabe.
Esta divergência agravou‭ ‬e tinha que agravar‭ ‬o nosso conflito com o PCP durante a crise de‭ ‬74-75.‭ ‬O PCP desde o primeiro dia tentou aprisionar os trabalhadores na‭ “‬Aliança Povo/MFA‭”‬.‭ ‬Queria acções populares,‭ ‬mas sem‭ “‬excessos‭” ‬que assustassem o MFA ou que enfurecessem a direita.‭ ‬Procurava uma transição do fascismo para a democracia burguesa,‭ ‬transição com forte participação popular que lhe proporcionasse um lugar seguro no novo regime,‭ ‬mas nada além da democracia burguesa.‭

Para nós,‭ ‬pelo contrário,‭ ‬o que interessava era reforçar a corrente do chamado‭ “‬poder popular‭”‬,‭ ‬o que incluía aproximações e alianças com o PRP,‭ ‬MES,‭ ‬FSP e também deslocar para o nosso lado uma parte da base do PCP.‭ ‬Mostrar-lhe que estava a ser enganada,‭ ‬que os seus interesses não podiam ser defendidos com a‭ “‬aliança Povo-MFA‭”‬.‭ ‬Não o conseguimos e essa foi a causa da derrota do movimento.‭ ‬Porque não o conseguimos‭? ‬Era muito difícil anular o brutal sectarismo do PCP,‭ ‬a tratar-nos como‭ “‬provocadores‭”‬,‭ ‬mas isso só por si não explica tudo.

Uma fraqueza dos M-L,‭ ‬que se revelou de forma‭ ‬desastrosa no Verão‭ ‬Quente foi o facto de que,‭ ‬sob o nome de‭ “‬M-L‭”‬,‭ ‬havia na realidade‭ ‬duas correntes diferentes.‭ ‬À medida que a crise política se agravou,‭ ‬viu-se que uma parte dos M-L,‭ ‬em nome da‭ “‬luta contra o social-fascismo‭” ‬se estava a passar para o campo da social-democracia,‭ ‬dos golpistas,‭ ‬do Eanes.‭ ‬Falo do PC do Vilar,‭ ‬do MRPP,‭ ‬da maior parte da OCMLP.‭

A corrente M-L defrontava assim uma multiplicidade de lutas entrelaçadas:‭ ‬tinha que se bater contra a direita,‭ ‬contra o PC e contra os‭ ‬falsos‭ ‬M-L direitistas.‭ ‬Isto‭ ‬ao mesmo tempo que se estava a negociar a fusão‭ ‬dos grupos‭ ‬num partido.‭ ‬A carga‭ ‬era‭ ‬demasiada para uma corrente ainda tão imatura.

Deste modo,‭ ‬no final do‭ ‬“Verão quente‭”‬,‭ ‬a nossa intervenção‭ ‬começou a‭ ‬perder o pé.‭ ‬Não tínhamos uma resposta‭ ‬própria‭ ‬para‭ ‬o confronto que veio a desembocar no‭ ‬25‭ ‬de Novembro.‭ ‬As provocações da direita sucediam-se,‭ ‬iam em crescendo,‭ ‬e nós não tínhamos capacidade para retaliar.

Não digo que fosse errado apoiarmos a corrente otelista.‭ ‬Tendo em conta a nossa pequenez podia ser a única alternativa.‭ ‬Não digo que tivéssemos força para encabeçar uma resposta revolucionária popular.‭ ‬Não tínhamos.‭ ‬Mas fomos à deriva,‭ ‬sem saber para onde,‭ ‬sem plano próprio.‭ ‬Antes do golpe de‭ ‬25‭ ‬de Novembro,‭ ‬já estávamos derrotados,‭ ‬nós e toda a extrema-esquerda.‭ ‬Pior do que ser derrotado é ser mal derrotado,‭ ‬ser derrotado e não saber explicar porquê nem o que fazer a seguir.

A partir daí,‭ ‬a história da corrente M-L é uma agonia.‭ ‬Formou-se o partido com grandes‭ ‬proclamações,‭ ‬mas as injecções de optimismo,‭ ‬o‭ “‬25‭ ‬de Abril do Povo‭”‬,‭ ‬as campanhas de‭ “‬proletarização‭”‬,‭ ‬o apoio da corrente M-L internacional,‭ ‬etc.,‭ ‬não puderam evitar o desnorteamento,‭ ‬as cisões,‭ ‬a debandada para a direita.‭ ‬E isto porque errámos,‭ ‬penso,‭ ‬em três questões centrais:‭ ‬modelo de partido comunista,‭ ‬acumulação de forças e revolução socialista.‭
Partido.‭ ‬Conservámos aquilo a que chamávamos o‭ “‬modelo leninista de partido‭”‬,‭ ‬que era na realidade o modelo stalinista de partido herdado do PCP:‭ ‬uma máquina de militantes‭ ‬arregimentados como um exército e não uma livre associação de revolucionários.‭ ‬Esse velho estilo de partido infectou o PC(R‭) ‬com o dogmatismo,‭ ‬provocou a esterilidade ideológica,‭ ‬matou‭ ‬a democracia interna e‭ ‬o debate,‭ ‬favoreceu a ascensão dos carreiristas‭ (‬e os carreiristas nunca têm tendência revolucionária,‭ ‬são sempre reformistas‭…)‬,‭ ‬justificou aceitar-se a tutela de um dirigente vindo de fora que nada percebia da nossa realidade‭…
Acumulação de forças.‭ ‬Com o fim da crise revolucionária,‭ ‬impôs-se nas fileiras do PC‭(‬R‭)‬ a ideia de que,‭ ‬para sobreviver em período contra-revolucionário,‭ ‬tínhamos que‭ ‬praticar o reformismo e o eleitoralismo.‭ ‬Isto foi justificado com o aval do‭ ‬7º congresso da Internacional‭ ‬Comunista‭ (‬linha Dimitrov‭)‬,‭ ‬mas não passava de‭ ‬uma cópia dos velhos desvios do PCP,‭ ‬disfarçados com proclamações obreiristas e‭ “‬bolcheviques‭”‬.‭ ‬Em nome do‭ “‬leninismo‭”‬,‭ ‬deslocou-se o centro dos esforços das massas mais exploradas para as camadas médias‭ (‬mais rentáveis eleitoralmente‭)‬,‭ ‬atacou-se a tradição combativa dos primeiros tempos e sanearam-se os activistas de esquerda como‭ “‬esquerdistas‭”‬.‭ ‬O aparelho do partido tornou-se um viveiro de oportunistas e reformistas.
Revolução.‭ ‬Nunca tendo conseguido formular uma perspectiva minimamente fundamentada do que seria a revolução e a passagem ao socialismo no nosso país‭ (‬o que era compreensível,‭ ‬dada a nossa imaturidade‭)‬,‭ ‬o PC(R‭) ‬socorreu-se da China e da Albânia como modelos,‭ ‬justamente quando nesses países o‭ “‬socialismo‭” ‬se afundava.‭ ‬Para se demarcar‭ ‬do desenlace caótico da‭ “‬revolução cultural‭” ‬e‭ ‬da linha chinesa dos três mundos,‭ ‬que surgia cada dia mais claramente como uma aliança com o imperialismo‭ ‬ocidental,‭ ‬agarrou-se ainda mais à teoria oficial‭ ‬albanesa‭ ‬da‭ “‬edificação socialista‭” ‬na URSS,‭ ‬com a proibição de qualquer análise crítica ao período de Staline.‭ ‬O resultado foi propor um‭ “‬socialismo‭” ‬de quartel,‭ ‬que não tinha qualquer credibilidade junto dos trabalhadores de espírito revolucionário,‭ ‬desacreditar a ideia de revolução e acabar por meter a luta diária nos carris das‭ “‬pequenas conquistas‭” ‬e do respeito pela ordem.
O balanço dos M-L‭ ‬é assim o de uma corrente falhada.‭ ‬Foram reabsorvidos pela corrente reformista com que tinham rompido vinte anos antes.‭ ‬Não por‭ “‬extremismo‭”‬ ou‭ “‬aventureirismo‭”‬,‭ ‬como sentenciam os reformistas,‭ ‬mas,‭ ‬pelo contrário,‭ ‬por não termos tido a clarividência de‭ ‬cortar até ao fim o cordão umbilical com o passado do movimento comunista.‭ ‬Não chegámos a formular uma nova linha comunista,‭ ‬à esquerda da experiência passada.‭ ‬As nossas críticas ao revisionismo,‭ ‬à social-democracia,‭ ‬ao trotskismo e ao anarquismo eram coxas porque se baseavam num‭ “‬património‭” ‬que devíamos ter deitado ao lixo.‭
Em‭ ‬84,‭ ‬saímos para criar uma nova corrente.‭ ‬E se os avanços conseguidos‭ ‬nestes‭ ‬20‭ ‬anos são dramaticamente insuficientes,‭ ‬não temos dúvida de que‭ ‬são um nítido passo em frente em relação ao universo‭ ‬político e‭ ‬ideológico dos comunistas de há meio século.‭ ‬Somos hoje a expressão de uma corrente comunista‭ ‬incipiente mas‭ ‬que‭ ‬sabe que,‭ ‬mesmo na situação mais recuada,‭ ‬a‭ ‬nossa‭ ‬tarefa é acumular forças com vista à‭ ‬ruptura da ordem,‭ ‬à‭ ‬revolução‭; ‬que‭ ‬usa cada acção diária como meio de emancipar‭ ‬o proletariado‭ ‬da dominação política e ideológica da burguesia e‭ ‬da pequena burguesia‭;‬ que‭ ‬concebe o partido‭ ‬comunista‭ ‬como‭ ‬instrumento da revolução,‭ ‬não como‭ ‬tutor ou‭ ‬proprietário do movimento de massas‭;‬ que‭ ‬concebe‭ ‬o socialismo,‭ ‬não como‭ ‬a arregimentação do proletariado ao serviço da estatização da economia,‭ ‬mas‭ ‬como uma democracia do Trabalho,‭ ‬numa sociedade de onde a revolução terá banido a exploração e a opressão.

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