Três doenças da esquerda

Francisco Martins Rodrigues

As perspectivas da esquerda para o século XXI são seguramente muito duras. Há 50 anos, nós, comunistas, imaginávamos o século XXI como uma alvorada do socialismo mundial, alastrando imparavelmente a partir da União Soviética. A vida ensinou-nos que a construção do socialismo é muito mais complicada do que supúnhamos e que o es­tertor da agonia do sistema capitalista é mais prolongado e sangrento do que podíamos então imaginar.

Estamos em dificuldade, mas não por falta de argumentos a nosso favor. A voracidade dos centros capitalistas, a decomposição moral da sociedade burguesa, a bestialidade da “guerra infinita” aos povos subjugados, com os EUA a seguir as pisadas da Alemanha hitleriana e a CIA transformada na Gestapo do “mundo livre”, dispensam-nos de muito do nosso esforço de explicação. O mal está à vista de todos.

A social-democracia, pelo seu lado, tem cada vez menos espaço para fazer flores de esquerda. Quando governa é com a política de direita. Em Portugal temos agora um governo “socialista” que aplica o programa de espoliação dos trabalhadores que os anteriores governos de direita não tinham sido capazes de impor.

Temos razão, mas isto não basta para ganharmos as massas para o nosso campo. Para isso, falta-nos explicar, pelo menos, duas coisas:

 1.ª O que será essa sociedade socia lista de que falamos, sem patrões, sem mercado, sem concorrência, sem guerras;

2.ª Como conseguiremos reunir forças para lá chegar, isto é, como seremos capazes de desmantelar o Estado burguês e expropriar a burguesia. Por não saber explicar nem uma coisa nem a outra, a esquerda atravessa um longo período de crise, de isolamento, de cisões e de reconstrução.

Naturalmente, também eu não tenho resposta para estas questões. Mas posso falar-vos de três doenças que tenho observado na esquerda portuguesa e que julgo que são hoje gerais.

 

O medo de parecer uma seita

 Na situação péssima a que a esquerda chegou, instalou–se a ideia de que o que interessa é falar daquilo que pode agradar à maioria, abandonar os temas difíceis ou demasiado “ideológicos”, não fazer figura de extremista, tornar-se uma espécie de comissão de melhoramentos.

 Em Portugal, o Bloco de Esquerda lançou-se a aplicar essa receita e tem-se dado muito bem: em poucos anos, ganhou um grupo parlamentar, um deputado europeu e é citado como exemplo de “esquerda moderna”. Os meus antigos camaradas exultam porque já ninguém lhes chama “seita de iluminados”. “Sabendo crescer, mesmo à custa de algumas concessões, dizem eles, amanhã teremos força para aplicar um programa anticapitalista”. Mal sabem eles que estão a repetir uma “descoberta” da velha social-democracia que Rosa Luxemburgo comentava assim: “Os social-democratas alemães tentam aplicar à revolução a sua sabedoria caseira: ‘Para conseguir fazer alguma coisa, precisamos primeiro de ganhar a maioria’. Mas a dialéctica da revolução é oposta. O avanço não se faz da maioria para a táctica revolucionária, mas através da táctica revolucionária para a maioria”.

Grandes palavras estas, plenamente confirmadas pelo partido bolchevique russo! Considerado uma seita em Fevereiro de 1917 devido ao radicalismo das suas posições, oito meses depois conduzia milhões de trabalhadores à tomada do poder. Eu sei que foi há muitos anos, mas ainda não apareceu nenhuma experiência que desmentisse a justeza do leninismo.

Com isto não quero dizer que devemos ficar na toca a escrever proclamações, à espera que chegue o dia da revolução. De modo nenhum. Só conservaremos a nossa identidade de revolucionários se interviermos diariamente na luta, com realismo, flexibilidade e abertura a outras correntes. É o que nós, da Política Operária, com a nossa pequenez, procuramos fazer.

Nesse caso, qual é a diferença que nos separa da outra esquerda? A diferença é que recusamos fazer política com os olhos nos votos e nos subsídios. Vemos nas reivindicações e acções diárias um meio de ajudar as massas a descobrir pela luta a sua razão e a sua força, um meio de cavar o antagonismo entre oprimidos e opressores – não um meio de ganhamos popularidade fácil e lugares nas instituições.

Gostemos ou não, somos uma fortaleza assediada, em tremenda desvantagem debaixo do fogo inimigo. Com conversa mole e panos quentes não iremos longe. A nossa única saída é falar claro, ser agressivos na denúncia do sistema, incutir desprezo pelo inimigo, porque só assim formaremos uma corrente combativa.

Na situação contra-revolucionária como a que se vive hoje na Europa, um partido de esquerda não pode ser um partido de massas. Ou goza das vantagens de se instalar no sistema, ou sofre as consequências de ser revolucionário. As duas coisas juntas é que não pode ser. Somos uma força estranha ao sistema, que a burguesia procura invariavelmente eliminar – a tiro, como fazia no tempo do fascismo, ou a dinheiro, como faz agora. Amanhã, quando surgir uma situação revolucionária, então sim, a esquerda poderá e deverá crescer. Por agora é bom não entrarmos em pânico por sermos olhados como um partido “marginal”.

 

O medo de parecer “ortodoxo”

 O mundo mudou, e de que maneira! O proletariado já não é o que era, crescem as novas classes médias, desaparecem os camponeses, surgem novas exigências, a vida social é muito mais complexa. Daqui partem muitos para a conclusão de que a política de classe contra classe, proletariado contra burguesia, já não se aplica. Lenine, com a sua crítica impiedosa a todas as correntes intermédias e o seu plano para a conquista do poder, poderia estar certo na sociedade russa, dizem, mas não serve para o nosso tempo.

Experimentemos porém afastar as ramagens das novidades que fazem andar a cabeça à roda a tantos. Se formos ao tronco da sociedade, ao osso das relações entre as classes, o que vemos? Vemos que, por trás da aparente soberania dos cidadãos através do sistema representativo, a guerra de classes prossegue sem tréguas. O despotismo do capital sobre a vida dos seres humanos não se afrouxou, pelo contrário está a tornar-se asfixiante.

A realidade imutável é que há um núcleo restrito que detem o poder apoiado em corpos de homens armados, leis, tribunais, ideólogos; que, abaixo dele, vem um segundo anel de auxiliares de confiança, cuja fidelidade é assegurada com fartos privilégios; mais abaixo, as classes médias, os pequenos patrões, os especialistas, ainda com direito a umas sobras; e no fundo, o resto, a quem cabe a tarefa de fazer andar o carro e para os quais não há bónus – assalariados de todo o tipo, operários, empregados, desempregados, precários, “donas de casa”… São oito décimos da população, mas como as suas vozes não têm direito a fazer-se ouvir, há quem não dê por eles.

Estes são os factos da vida. Sendo assim, não vejo como se pode contestar que a única tarefa do partido de esquerda é conferir identidade política e ideológica a essa massa oprimida e silenciosa, mostrar pela acção diária que os seus interesses são diferentes dos de todas as camadas da burgue­sia, que a ordem social existente é a causa das suas frustrações e que é possível mudá-la.

Será isto muito cru, demasiado “ortodoxo”? Ou não será que se passou a chamar “ortodoxia” aos factos brutais desta sociedade para nos descartarmos deles?

Digo pois que a tarefa do partido de esquerda é elaborar um corpo de ideias revolucionárias – ideias, argumentos, demonstrações, não slogans –, e criar uma vanguarda de revolucionários profissionais – revolucionários, não burocratas nem aparatchiks –, que sejam o fermento capaz de fazer subir a tensão revolucionária adormecida nas massas.

Se o partido não servir para isso, não serve para nada, e mais vale deixar o campo livre aos sindicatos, movimentos cívicos, comissões, intervenção cultural, que, no seu âmbito próprio, defendem os interesses das massas.

Preocupam-se alguns porque o partido que manifesta intransigência revolucionária na acção e na crítica corre o risco de entrar em choque com as outras forças democráticas e progressistas. Mas essa é a condição imprescindível para se formar uma corrente revolucionária e para as massas franquearem um passo decisivo – de oposição crítica dentro do sistema à oposição contra o sistema.

Vejam este exemplo: em Portugal, na luta contra a guerra imperialista colaboramos com o PCP, sem dúvida a força mais à esquerda no leque partidário. Mas quando o PCP conduz os operários de uma grande fábrica à conciliação com o patronato, ou quando apresenta (como fez agora) uma proposta de lei para que sejam dadas mais verbas às forças de segurança – aí combatemo-lo sem contemplações. A defesa de uma política revolucionária não implica isolamento sistemático; exige sim uma participação independente em todas as acções em que haja interesses comuns. Como dizia Lenine, “atacar juntos, marchar separados”.

 

O medo de ajustar contas com o passado

 Bombardeados diariamente com a “falência do comunismo”, julgam alguns que o melhor é evitar o assunto da União Soviética e andar para a frente – como se as consequências da maior revolução da história se pudessem varrer para debaixo do tapete. Disse-o no início: não vejo que a esquerda possa recuperar inteireza ideológica e postura ofensiva se não explicar de forma convincente o que acon­teceu.

Ora, a posição assumida pelo PCP (e não só), exaltando as “conquistas do socialismo” que teriam sido comprometidas por “graves erros e desvios”, pode parecer uma forma de se demarcar do que houve de negativo sem dar o flanco à campanha anticomunista da burguesia, mas indica uma estranha concepção do que seja o socialismo.

Que a antiga URSS, com as suas nacionalizações, planificação, medidas sociais, desenvolvimento económico, resistência anti-imperialista, desempenhou até certa altura um papel favorável à luta dos povos não oferece dúvida. Basta pensar na derrota do nazismo. Mas partir daqui para a considerar socialista é dar um salto no absurdo. Teríamos então que admitir que o socialismo pode ser compatível com um regime ditatorial, o unanimismo do partido único, o terror policial, o culto do líder supremo, a esterilização da vida intelectual, a regressão de todos os direitos conquistados durante a revolução… Teríamos que admitir, sobretudo, que o socialismo possa existir sem o exercício efectivo do poder pelos trabalhadores – ou atribuindo a um partido a representação desse poder, o que vem a dar no mesmo –, e esta aberração é verdadeiramente o que pensam os nostálgicos da antiga União Soviética.

Partido representante da pequena burguesia “esclarecida” e “amiga do povo”, o PCP não consegue conceber o socialismo senão como um capitalismo de Estado, um “poder popular” sob tutela. Vende aos trabalhadores a trágica deriva da revolução de 1917, tornada inevitável apenas pelo atraso económico-social da Rússia, como se fosse uma lei da “transição para o socialismo”. Procura, com essa miragem, amarrá-los à menoridade política e desviá-los do verdadeiro objectivo da sua luta – a instauração da sua ditadura de classe sobre a burguesia, a edificação de uma autêntica democracia do Trabalho.

Creio que, só combatendo frontalmente estas três doenças conseguiremos recuperar a iniciativa na luta contra o capital.

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